Saudamos, com alegria e ósculo da paz, todos os nossos irmãos no episcopado aqui presentes e todos os que nos acompanham através dos vários meios de comunicação.
Depois do encontro que tivemos há dois anos na Arquidiocese de Nampula-Moçambique (1-5 de fevereiro de 2023), hoje estamos aqui nesta terra dos “Heróis do mar”, de Camões, do Fado, de S. António e de Nossa Senhora de Fátima para partilharmos as vivências multiculturais da nossa fé que se exprime em português e para reafirmarmos o nosso compromisso de sermos uma Igreja sinodal em saída. Uma Igreja presente em todos os espaços das realidades temporais qual luz, sal e fermento.
Estes encontros têm sido uma bela oportunidade para que ancorados na mesma fé, num só coração e partilhando a mesma língua, sentir e perceber, a partir das nossas Igrejas particulares, o pulsar do amor cristão sem fronteiras, amor, que une pessoas e comunidades, transforma e liberta culturas, fecunda a esperança, promove a cultura da comunhão, da hospitalidade, do perdão, da reconciliação, da justiça e da paz.
Estas reuniões, têm sido, de facto, autênticos areópagos onde sentimos e experimentamos o calor e a beleza da sinodalidade, da proximidade, da solidariedade, da escuta, da partilha e da missão. Por isso, a nossa vênia e reconhecimento aos mentores e pioneiros desta nobre e motivadora iniciativa eclesial.
Este XVI encontro acontece num momento em que o mundo atravessa uma noite densa de escuridão devido ao amontoar-se de tensões entre os Estados e de guerras, umas amplamente mediatizadas e outras esquecidas e/ou silenciadas, que se disseminam praticamente em todos os continentes, cujos horrores e crueldades bradam os céus. O facto é que essa cultura da violência tem provocado mortes indiscriminadas, movimentações forçadas de pessoas e famílias; tem produzido insegurança, incertezas e medos e tem lesado gravemente a dignidade da pessoa humana e a “amizade social”, tão desejada pelo saudoso Papa Francisco.
Esta situação, como podemos constatar, tem estado a agudizar ainda mais a crise do direito internacional, a pobreza, a injustiça social, o desrespeito pela vida e a proporcionar um ambiente em que a mentira vale mais do que a verdade, o mal vale mais do que bem, o egoísmo vale mais do que a solidariedade, o material vale mais do que o espiritual, o ódio vale mais do que amor, o vício vale mais do que a virtude, a indiferença vale mais do que a empatia, a prepotência vale mais do que o diálogo, a técnica vale mais do que a ética, os valores instrumentais valem mais do que os valores absolutos e, enfim, a guerra vale mais do que a paz!
Por conseguinte, vai-se, paulatina e lamentavelmente, perdendo o sentido do ‘outro’ e da sua dignidade, o sentido da ‘casa comum’ e da hospitalidade, o sentido do respeito mútuo e da liberdade responsável e o sentido de Deus! São coisas do nosso tempo, coisas da nossa cultura contemporânea.
É neste contexto que vamos perceber a profundidade e a actualidade do tema que vai guiar as nossas reflexões nesses dias: “viver a Paz na Hospitalidade”. Com isto queremos dizer que as Igrejas de expressão portuguesa pretendem ser pontes que unem, Igrejas que acolhem e partilham as riquezas infinitas que brotam do amor divino, para que a ninguém falte o alimento necessário para viver na dignidade dos filhos de Deus; pretendem fazer da hospitalidade um caminho indispensável para a promoção da cultura do encontro enriquecedor, do abraço acolhedor, da inclusão dignificante, do diálogo integrativo, da justiça restauradora, do amor renovador e da paz libertadora; pretendem, enfim, testemunhar e mostrar ao mundo que é possível o convívio de culturas, é possível trabalharmos todos por um mundo mais humano, fraterno e multirracial, é possível sermos ‘nós mesmos’ com os ‘outros’, os quais, todavia, devem ser tidos sempre, parafraseando o filósofo alemão Emanuel Kant, como um ‘valor de fim’ e nunca como um ‘valor de meio’.
Nesta hora em que a cooperação entre as Igrejas vai conhecendo novas dinâmicas e metodologias, enriquecendo-se mutuamente, é importante afirmarmos inequivocamente o nosso compromisso com a missão: afinal somos ‘peregrinos da esperança’, sobretudo, neste ano jubilar, em que celebramos os dois mil e vinte e cinco anos de nascimento de Nosso Senhor Jesus cristo. O mundo hoje desafia-nos de diversas maneiras, por isso, a nossa resposta evangélica, revestida e robustecida pela coragem profética e pela mística compaixão, tem de ser forte, firme, curativa e renovadora.
Confiemo-nos à proteção de Nossa Senhora de Fátima, que Ela interceda por nós, e possamos colher deste encontro frutos que nos enriqueçam e ajudem a sermos sempre e em quaisquer circunstâncias bons e sábios intérpretes dos sinais de Deus na nossa história e a melhorarmos cada vez mais a qualidade e a beleza da nossa fé e do nosso testemunho.
Muito obrigado!
Fotografias: Agência Ecclesia






