XVI Encontro de Bispos dos Países Lusófonos: Discurso de abertura de D. José Ornelas, Presidente da CEP

É com muita alegria que dirijo uma palavra fraterna de amizade e boas-vindas aos irmãos no episcopado e seus acompanhantes, que aqui representam as Igrejas de Timor, na Ásia; de Moçambique, Angola, São Tomé, Guiné e Cabo Verde, na África; do Brasil, no continente americano; e de Portugal na Europa.

Saúdo igualmente, com gratidão fraterna, os representantes da Fundação Fé e Cooperação que, desde há 35 anos, vem cuidando destes encontros, como meio de encontrar caminhos comuns, para exprimir a Palavra do Evangelho e a oração da Igreja, na língua que nos é comum, mas que se enriquece de cores gestos e sons, na variedade de sensibilidades e culturas que compõem as nossas Igrejas, em cada um dos nossos países.

Espero que os dias que passaremos juntos, aqui por Lisboa e que terão continuidade posteriormente em Fátima, participando na peregrinação aniversária, comemorativa da sexta aparição de Nossa Senhora aos pastorinhos, possa contribuir para aprofundar os laços de fraternidade sinodal, partilha e colaboração na missão comum de levar aos nossos países a alegria do Evangelho.

Saúdo também a comunidade desta casa da Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos), que nos acolhe, aqui em Alfragide, bem como os membros dos órgãos de comunicação, que nos acompanham no início deste encontro.

A todos boas-vindas!

A diversidade e a comunhão no propósito destes encontros

Certamente que não escapam a qualquer de nós a utilidade e o propósito destes encontros, que se pretendem rotativos pelas nossas Igrejas, no mundo da mobilidade complexa e multicultural dos nossos dias.

A Igreja fala português como língua da vida, da oração e da missão, em quatro dos cinco continentes. Só este facto merece e carece de encontro, de partilha de reflexão e articulação. Só assim, na língua que nos é comum, colaboremos para a afirmação da unidade da fé, aliada à diversidade da sua expressão, na palavra, a começar pela Palavra de Escritura que ajudou a formar as nossas línguas, na oração, na música, e nas outras formas de arte, que formam as culturas de cada um dos nossos países. Este é um dever e uma missão das nossas comunidades, a fim de que darmos o nosso contributo para que cada “escute nas suas próprias línguas” a Boa-Nova da fraternidade, da paz e da vida, como no dia de Pentecostes (cf. At 2,11).

Não esquecemos que, ao longo dos séculos, o propósito da missão, a par do anúncio congregador e libertador, fraterno e universal da mensagem cristã, se cobriu também de sombras e foi contemporâneo silencioso e, por vezes, conivente, de crimes de abuso de poder e de atentado à dignidade das populações e culturas, de que a escravatura humana é escândalo e ferida, que não se pode esquecer. A verdade purificadora da memória comum é necessária para sarar feridas e criar um futuro de autêntica fraternidade, na comum dignidade de irmãos e irmãs constantemente renovada pelo Espírito do Pentecostes.

É à luz desse espírito purificador, libertador e regenerador que deve crescer a colaboração entre as nossas Igrejas, para o bem de cada uma delas e como contributo para a unidade plural da Igreja na sua catolicidade que se estende a toda a terra. É a missão que nos move, a missão de levar a salvação de Deus a todos, mormente em cada uma das nossas Igrejas locais. E o facto de falarmos a mesma língua, embora com acentos e entoações distintas, não é indiferente. A sinodalidade que marca o ser da Igreja passa por este fator de vida e missão e deve mover-nos à partilha e à colaboração, como células vivas da Igreja no seu todo.

Um elemento que não pode deixar de entrar na nossa reflexão é a mobilidade humana que liga os nossos países, potenciada pelas ligações da história e da língua. Hoje, esta mobilidade é objeto de muita discussão, manipulação e oportunismo, cuja fatura é paga pelos mais débeis, que andam à procura de vida digna para si e as suas famílias. É um tema que não pode passar ao lado das nossas preocupações. A Igreja é peregrina por natureza: prepara-se para partir, acompanha os que partem, para que não caiam nas mãos de oportunistas e traficantes, e acolhe aqueles que chegam. Ela tem de ser sempre um laboratório e um viveiro de convivências crioulas que geram novas parcerias e solidariedade humana e samaritana.

Nos bancos das nossas Igrejas aprendemos que, na casa de Deus, aquela ou aquela que está sentado ao meu lado, independentemente da raça, acento linguístico ou cultura, é meu irmão ou irmã, porque filho/a do nosso comum Pai do Céu, porque nascido/a, no batismo, do mesmo Espírito do Senhor Jesus. Este quadro deve marcar também o nosso contributo para uma cultura que leve os nossos governantes a não cederem a populismos manipuladores, a serem verdadeiramente responsáveis no acolhimento e a saberem integrar os que chegam, na dignidade e na justiça. A colaboração das nossas Igrejas neste campo parece-me um tema crucial para o mundo de hoje e para preparar um futuro melhor para os nossos povos.

O programa do nosso encontro, para além do simpósio preparado pela FEC submetido ao tema “Fraternidade, novo nome para a Paz”, que terá lugar amanhã, insere-se neste caminho de partilha de situações, dificuldades e oportunidades, que nos conduzam a efetivos caminhos de comunhão e efetiva solidariedade. Neste campo, não faltam desafios e oportunidades de abertura, partilha e colaboração efetiva, para além do acompanhamento da realidade das correntes de migrantes, por vários motivos, que já mencionei.

Certamente que a partilha missionária entre as nossas Igrejas constitui uma das realidades que nos desafiam neste processo sinodal que estamos a percorrer em todo o mundo, tanto no que toca aos recursos humanos e materiais, como na formação de agentes pastorais, na troca de experiências de evangelização e no nosso comum empenhamento na justa fraternidade entre os nossos povos. Para além das análises e partilha de pontos de vista, seria bom que conseguíssemos chegar a perspetivas reais de uma mais efetiva colaboração, para o bem das nossas Igrejas e como contributo que podemos dar à missão de toda a Igreja no mundo complexo e desafiador em que vivemos.

Que o Espírito do Senhor nos conduza neste encontro e na concretização de projetos de sinodalidade entre as nossas igrejas, como contributo para um mundo mais humano, mais fraterno e em paz.

Fotografias: Agência Ecclesia

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