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CRISTO VIVE

AOS JOVENS E A TODO O POVO DE DEUS

Secretariado Geral do Episcopado

 

Nada obsta

P.e Manuel Barbosa,
Secretário da Conferência Episcopal Portuguesa

Pode imprimir-se
Lisboa, 2 de abril de 2019

 

† Joaquim Mendes
Presidente da Comissão Episcopal do Laicado e Família

 

Tradução: © 2019, Paulinas Editora
(a partir da versão oficial da língua espanhola)

Tradutora: Maria do Rosário de Castro Pernas

 

 

  1. Cristo, nossa esperança, está vivo e é a mais formosa juventude deste mundo. Tudo aquilo que Ele toca torna-se jovem, faz-se novo, enche-se de vida. Então, as primeiras palavras que quero dirigir a cada um dos jovens cristãos são: Ele vive e quer-te vivo!

 

  1. Ele está em ti, Ele está contigo e nunca se vai embora. Por mais que tu te afastes, lá está o Ressuscitado, chamando-te e esperando-te para recomeçar. Quando te sentires envelhecido pela tristeza, pelos rancores, pelos medos, pelas dúvidas ou pelos fracassos, Ele estará presente para te devolver a força e a esperança.

 

  1. A todos os jovens cristãos escrevo com carinho esta Exortação Apostólica, isto é, uma carta que recorda algumas convicções da nossa fé e que, ao mesmo tempo, alenta a crescer na santidade e no compromisso para com a própria vocação. No entanto, como se trata de um marco no contexto de um caminho sinodal, dirijo-me, ao mesmo tempo, a todo o Povo de Deus, aos seus pastores e aos seus fiéis, porque a reflexão sobre os jovens e para os jovens nos convoca e estimula a todos. Por conseguinte, em alguns parágrafos falarei diretamente aos jovens, e, noutros, farei abordagens mais gerais em vista do discernimento eclesial.

 

  1. Deixei-me inspirar pela riqueza das reflexões e dos diálogos do Sínodo do ano passado. Não poderei reunir aqui todos os contributos que podereis ler no Documento final, mas tentei assumir, na redação desta Carta, as propostas que me pareceram mais significativas. Desse modo, a minha palavra estará carregada de milhares de vozes de crentes do mundo inteiro que fizeram chegar as suas opiniões ao Sínodo. Mesmo os jovens não-crentes, que quiseram participar com as suas reflexões, apresentaram questões que suscitaram em mim novas interrogações.

 

Capítulo Primeiro

 

O QUE DIZ A PALAVRA DE DEUS

SOBRE OS JOVENS?

 

 

 

  1. Resgatemos alguns tesouros das Sagradas Escrituras, onde várias vezes se fala dos jovens e de como o Senhor vai ao seu encontro.

 

 

No Antigo Testamento

 

  1. Numa época em que os jovens pouco contavam, alguns textos mostram que Deus os olhava com outros olhos. Por exemplo, vemos que José era o mais novo da família (cf. Gn 37,2-3). No entanto, Deus comunicava-lhe coisas grandes em sonhos, e ele superou todos os seus irmãos em trabalhos importantes quando tinha dezassete anos (cf. Gn 37-47).

 

  1. Em Gedeão, reconhecemos a sinceridade dos jovens, que não costumam adocicar a realidade. Quando lhe foi dito que o Senhor estava com ele, respondeu: «Se o Senhor está connosco, então porque é que nos aconteceu tudo isto?» (Jz 6,13). Deus, porém, não se aborreceu com essa censura e redobrou a aposta em favor dele: «Vai com toda a tua força e salva Israel» (Jz 6,14).

 

  1. Samuel era um jovenzinho inseguro, mas o Senhor comunicava com ele. Graças ao conselho de um adulto, abriu o seu coração para escutar o chamamento de Deus: «Fala, Senhor, o teu servo escuta» (1Sm 3,9-10). Por isso, foi um grande profeta que interveio em momentos importantes para a sua pátria. O rei Saul também era um jovem quando o Senhor o chamou a cumprir a sua missão (cf. 1Sm 9,2).

 

  1. O rei David foi eleito sendo apenas um rapazinho. Quando o profeta Samuel andava à procura do futuro rei de Israel, um homem apresentou-lhe como candidatos os seus filhos mais velhos e mais experientes. O profeta, porém, disse que o eleito era o jovenzinho David, que apascentava as ovelhas (cf. 1Sm 16,6-13), porque «o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração» (v. 7). A glória da juventude está mais no coração do que na força física ou na impressão que alguém provoca nos outros.

 

  1. Quando Salomão teve de suceder a seu pai, sentiu-se perdido e disse a Deus: «Não passo de um jovem inexperiente que não sabe ainda como governar» (1Rs 3,7). No entanto, a audácia da juventude levou-o a pedir a Deus a sabedoria, e entregou-se à sua missão. Algo semelhante ocorreu ao profeta Jeremias, chamado a despertar o seu povo sendo muito jovem. No seu temor, disse: «Ah, Senhor Deus, eu não sei falar, pois ainda sou um jovem» (Jr 1,6). O Senhor, porém, pediu-lhe que não falasse assim (cf. Jr 1,7) e acrescentou: «Não terás medo diante deles, pois Eu estou contigo para te livrar» (Jr 1,8). A entrega do profeta Jeremias à sua missão mostra aquilo que é possível quando a frescura da juventude se une à força de Deus.

 

  1. Uma jovenzinha judia, que estava ao serviço do militar estrangeiro Naaman, interveio com fé para ajudá-lo a curar-se da sua doença (cf. 2Rs 5,2-6). A jovem Rute foi um exemplo de generosidade quando ficou com a sua sogra, que caíra em desgraça (cf. Rt 1,1-18), e também manifestou a sua audácia, seguindo adiante na vida (cf. Rt 4,1-17).

No Novo Testamento

 

  1. Conta uma parábola de Jesus (cf. Lc 15,11-32) que o filho «mais novo» quis deixar a casa paterna e partir para um país distante (cf. vv. 12-13). Contudo, os seus sonhos de autonomia converteram-se em libertinagem e desgoverno (cf. v. 13) e ele sentiu a dureza da solidão e da pobreza (cf. vv. 14-16). Não obstante, soube cair em si para poder começar de novo (cf. vv. 17-19) e decidiu levantar-se (cf. v. 20). É próprio do coração jovem dispor-se a mudar, ser capaz de voltar a levantar-se e de se deixar ensinar pela vida. Como não acompanhar o filho nesse novo propósito? O irmão mais velho, porém, já tinha o coração envelhecido e deixou-se possuir pela cobiça, pelo egoísmo e pela inveja (cf. vv. 28-30). Jesus elogia mais o jovem pecador que retoma o bom caminho do que aquele que se julga fiel, mas não vive o espírito do amor e da misericórdia.

 

  1. Jesus, o eternamente jovem, quer oferecer-nos um coração sempre jovem. Pede-nos a Palavra de Deus: «Purificai-vos do velho fermento para serdes uma nova massa» (1Cor 5,7). Ao mesmo tempo, convida-nos a despojarmo-nos do «homem velho» para nos revestirmos do homem «jovem» (cf. Cl 3,9.10). [1] E quando explica o que significa revestir-se dessa juventude «que se vai renovando» (v. 10), diz que é ter «entranhas de mi-sericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de paciência, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se alguém tiver razão de queixa contra outro» (Cl 3,12-13). Isto significa que a verdadeira juventude é ter um coração capaz de amar. Pelo contrário, aquilo que envelhece a alma é tudo o que nos separa dos outros. Por isso, conclui São Paulo: «Acima de tudo isto, revesti-vos do amor, que é o laço da perfeição» (Cl 3,14).

 

  1. Reparemos que a Jesus não agradava que as pessoas adultas olhassem com desprezo os mais novos ou os tivessem ao seu serviço de uma forma despótica. Pedia Ele, pelo contrário: «o que for maior entre vós seja como o menor» (Lc 22,26). Para Ele, a idade não estabelecia privilégios e o facto de alguém ter menos anos não significava que valia menos ou que tinha menor dignidade.

 

  1. A Palavra de Deus diz que os jovens devem ser tratados «como irmãos» (1Tm 5,1), recomendando aos pais: «Não exaspereis os vossos filhos, para que não caiam em desânimo» (Cl 3,21). Um jovem não se pode sentir desanimado, é próprio dele sonhar coisas grandes, procurar largos horizontes, atrever-se a mais, querer conquistar o mundo, ser capaz de aceitar propostas desafiantes e desejar contribuir com o melhor de si mesmo para construir algo melhor. Por isso insisto, dirigindo-me aos jovens, para que não deixem que lhes roubem a esperança, e repito a cada um: «Ninguém escarneça da tua juventude» (1Tm 4,12).

 

  1. Todavia, ao mesmo tempo, é recomendado aos jovens: «Sede submissos aos anciãos» (1Pe 5,5). A Bíblia convida sempre a um profundo respeito para com os anciãos, porque guardam dentro de si um tesouro de experiência, provaram os êxitos e os fracassos, as alegrias e as grandes angústias da vida, as ilusões e os desencantos e, no silêncio do seu coração, guardam muitas histórias que nos podem ajudar a não nos equivocarmos, nem nos enganarmos por falsas miragens. A palavra de um ancião sábio convida a respeitar certos limites e a saber dominar-se a tempo: «Exorta igualmente os jovens a serem moderados em tudo» (Tt 2,6). Não é benéfico cair num culto à juventude ou numa atitude juvenil que despreza os outros pelos seus anos ou por serem de outra época. Jesus dizia que a pessoa sábia é capaz de tirar do seu baú tanto coisas novas como velhas (cf. Mt 13,52). Um jovem sábio abre-se ao futuro, mas é sempre capaz de aproveitar qualquer coisa da experiência dos outros.

 

  1. No Evangelho de Marcos, aparece uma pessoa que, quando Jesus lhe recorda os mandamentos, diz: «Sempre os cumpri desde a minha juventude» (10,20). Já o dizia o Salmo: «Tu és a minha esperança, ó Senhor Deus, e a minha confiança desde a juventude […] Instruíste-me, ó Deus, desde a minha juventude e até hoje anunciei sempre as tuas maravilhas» (71.5.17). Ninguém se deve arrepender de gastar a juventude sendo bom, abrindo o coração ao Senhor, vivendo de uma maneira diferente. Nada disso nos tira a juventude, mas fortalece-a e renova-a: «A tua juventude renova-se como a águia» (Sl 103,5). Por isso, lamentava-se Santo Agostinho: «Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde te amei!» [2] No entanto, aquele homem rico, que tinha sido fiel a Deus na sua juventude, deixou que os anos lhe arrebatassem os sonhos, e preferiu continuar apegado aos seus bens (cf. Mc 10,22).

 

  1. Por outro lado, no Evangelho de Mateus aparece um jovem (cf. Mt 19,20.22) que se aproxima de Jesus para pedir mais (cf. v. 20), com aquele espírito aberto dos jovens, que procura novos horizontes e grandes desafios. Na realidade, o seu espírito não era assim tão jovem, porque já se tinha aferrado às riquezas e às comodidades. Dizia ele, da boca para fora, que queria mais qualquer coisa, mas quando Jesus lhe pediu que fosse generoso e repartisse os seus bens, deu-se conta de que era incapaz de se desprender daquilo que tinha. Finalmente, «ao ouvir tais palavras, o jovem retirou-se contristado» (v. 22). Tinha renunciado à sua juventude.

 

  1. O Evangelho também nos fala de umas jovens prudentes, que estavam preparadas e atentas, enquanto outras viviam distraídas e adormecidas (cf. Mt 25,1-13). Com efeito, uma pessoa pode passar a sua juventude distraída, voando sobre a superfície da vida, adormecida, incapaz de cultivar relações profundas e de entrar no mais fundo da vida. Desse modo, prepara um futuro pobre, sem substância. Ou então, pode gastar a sua juventude cultivando coisas belas e grandes, e assim prepara um futuro cheio de vida e de riqueza interior.

 

  1. Se tu perdeste o vigor interior, os sonhos, o entusiasmo, a esperança e a generosidade, Jesus apresenta-se diante de ti tal como se apresentou diante do filho morto da viúva e, com todo o seu poder de Ressuscitado, exorta-te: «Jovem, Eu te ordeno, levanta-te!» (Lc 7,14).

 

  1. Sem dúvida, há muitos outros textos da Palavra de Deus que nos podem iluminar acerca desta etapa da vida. Reuniremos alguns deles nos próximos capítulos.

 

 

 

 

Capítulo Segundo

 

JESUS CRISTO SEMPRE JOVEM

 

 

 

  1. Jesus é «jovem entre os jovens, para servir de exemplo aos jovens e consagrá-los ao Senhor». [3] Por isso, disse o Sínodo que «a juventude é uma etapa original e estimulante da vida, que o próprio Jesus viveu, santificando-a».[4] Que nos conta o Evangelho acerca da juventude de Jesus?

 

 

A juventude de Jesus

 

  1. O Senhor «entregou o seu espírito» (Mt 27,50) numa cruz quando tinha pouco mais de trinta anos de idade (cf. Lc 3,23). É importante tomar consciência de que Jesus foi jovem. Deu a sua vida numa etapa que hoje é definida como a de um adulto jovem. Na plenitude da sua juventude, deu início à sua missão pública, e assim «brilhou uma grande luz» (Mt 4,16), sobretudo quando deu a sua vida até ao fim. Este final não foi improvisado, pelo contrário toda a sua juventude foi uma preciosa preparação em cada um dos seus momentos, porque «tudo, na vida de Jesus, é sinal do seu mistério» [5] e «toda a vida de Cristo é mistério de Redenção». [6]

 

  1. O Evangelho não fala da infância de Jesus, mas narra-nos alguns acontecimentos da sua adolescência e juventude. Mateus situa este período da juventude do Senhor entre dois acontecimentos: o regresso da sua família a Nazaré, após o tempo de exílio, e o seu batismo no Jordão, onde iniciou a sua missão pública. As últimas imagens de Jesus Menino são as de um pequeno refugiado no Egito (cf. Mt 2,14-15) e, posteriormente, as de um repatriado em Nazaré (cf. Mt 2,19-23). As primeiras imagens de Jesus, jovem adulto, são as que no-lo apresentam no meio da multidão, junto ao rio Jordão, para se deixar batizar pelo seu primo João Batista, como um simples membro do seu povo (cf. Mt 3,13-17).

 

  1. Este batismo não era como o nosso, que nos introduz a graça na vida, mas foi uma consagração antes de Jesus dar início à grande missão da sua vida. Segundo o Evangelho, o seu batismo foi motivo da alegria e do beneplácito do Pai: «Tu és o meu Filho amado» (Lc 3,22). Em seguida, Jesus apareceu cheio do Espírito Santo e foi conduzido pelo Espírito ao deserto. Assim ficou preparado para sair a pregar e a fazer prodígios, para libertar e curar (cf. Lc 4,1-14). Cada jovem, quando se sentir chamado a cumprir uma missão nesta terra, é convidado a reconhecer no seu interior essas mesmas palavras que lhe diz Deus, seu Pai: «Tu és o meu filho amado.»

 

  1. Entre estes relatos, encontramos um que mostra Jesus em plena adolescência. Foi quando Ele regressou com os seus pais a Nazaré, depois de eles o terem perdido e o terem encontrado no Templo (cf. Lc 2,41-51). Aí diz que Jesus «lhes era submisso» (cf. Lc 2,51), porque não renegava a sua família. Depois, Lucas acrescenta que Jesus «crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens» (Lc 2,52). Em suma, estava a ser preparado e, durante esse período, ia aprofundando a sua relação com o Pai e com os outros. Explicava São João Paulo II que Jesus não crescia apenas fisicamente, mas que «também se deu n’Ele um crescimento espiritual», porque a plenitude da graça, em Jesus, era proporcional à sua idade: havia sempre plenitude, mas uma plenitude crescente com o crescer da idade». [7]

 

  1. Com estes dados evangélicos, podemos dizer que, na sua etapa da juventude, Jesus se foi «formando», se foi preparando para cumprir o projeto que o Pai tinha. A sua adolescência e a sua juventude orientaram-no para essa missão suprema.

 

  1. Na adolescência e na juventude, a sua relação com o Pai era a do Filho amado, atraído pelo Pai, e Ele crescia ocupando-se das coisas do Pai: «Não sabíeis que me devo ocupar dos assuntos de meu Pai?» (Lc 2,49). No entanto, não devemos pensar que Jesus era um adolescente solitário ou um jovem ensimesmado. A sua relação com as pessoas era a de um jovem que partilhava toda a vida de uma família bem integrada no seu povoado. Aprendeu o ofício do seu pai e mais tarde substituiu-o como carpinteiro. Por isso, no Evangelho, uma vez é chamado «o filho do carpinteiro» (Mt 13,55) e outra vez, simplesmente, «o carpinteiro» (Mc 6,3). Este detalhe mostra que era um simples rapaz do seu povoado, que se relacionava com toda a normalidade. Ninguém o olhava como se ele fosse um jovem raro ou separado dos outros. Precisamente por essa razão, quando Jesus saiu a pregar, as pessoas não percebiam onde é que Ele ia buscar aquela sabedoria: «Não é este o filho de José?» (Lc 4,22).

 

  1. A verdade é que «Jesus também não cresceu numa relação fechada e absorvente com Maria e com José, mas movia-se de bom grado na família alargada, que incluía os seus parentes e amigos». [8] Entendemos assim por que motivo os seus pais, ao regressarem da peregrinação a Jerusalém, estavam tranquilos pensando que o jovenzinho de doze anos (cf. Lc 2,42) caminhava livremente no meio das pessoas, embora não o tivessem visto durante um dia inteiro: «Pensando que Ele se encontrava na caravana, fizeram um dia de viagem» (Lc 2,44). Pensavam, decerto, que Jesus estava ali, indo e vindo entre os demais, gracejando com outros jovens da sua idade, escutando as narrações dos adultos e partilhando as alegrias e as tristezas da caravana. O termo grego utilizado por Lucas para a caravana de peregrinos, synodía, indica, precisamente, esta «comunidade a caminho» da qual faz parte a Sagrada Família. Graças à confiança dos seus pais, Jesus move-se livremente e aprende a caminhar com todos os demais.

 

 

A sua juventude ilumina-nos

 

  1. Estes aspetos da vida de Jesus podem revelar-se inspiradores para todos os jovens que estão a crescer e a preparar-se para cumprir a sua missão. Isso implica amadurecer na relação com o Pai, na consciência de ser um simples membro da família e do povo, e estar aberto a deixar-se encher e conduzir pelo Espírito, para cumprir a missão que Deus lhe encomenda, a sua própria vocação. Nada disto deveria ser ignorado na pastoral juvenil, para não se criarem projetos que isolem os jovens da família e do mundo, ou que os convertam numa minoria seleta e preservada de todo o contágio. Precisamos, antes, de projetos que os fortaleçam, os acompanhem e os lancem ao encontro dos demais, no serviço generoso e na missão.

 

  1. Jesus não vos ilumina a vós, jovens, à distância ou a partir de fora, mas a partir da sua própria juventude, que Ele partilha convosco. É muito importante contemplar Jesus jovem, que os Evangelhos nos mostram, porque Ele foi verdadeiramente um de vós, e nele se podem reconhecer muitos aspetos dos corações jovens. Vemo-lo, por exemplo, nas seguintes características: «Jesus tinha uma confiança incondicional no Pai, cuidava da amizade com os seus discípulos e, inclusivamente, nos momentos críticos, permaneceu fiel a eles. Manifestou uma profunda compaixão pelos mais débeis, de modo especial pelos pobres, pelos doentes, pelos pecadores e pelos excluídos. Teve a valentia de se confrontar com as autoridades religiosas e políticas do seu tempo; viveu a experiência de se sentir incompreendido e descartado; sentiu medo do sofrimento e conheceu a fragilidade da paixão; dirigiu o seu olhar para o futuro, abandonando-se nas mãos seguras do Pai e na força do Espírito. Em Jesus, todos os jovens se podem reconhecer». [9]

 

  1. Por outro lado, Jesus ressuscitou e quer tornar-nos participantes da novidade da sua ressurreição. Ele é a verdadeira juventude de um mundo envelhecido, e também é a juventude de um universo que espera, com «dores de parto» (Rm 8,22), ser revestido com a sua luz e com a sua vida. Junto dele podemos beber do verdadeiro manancial, que mantém vivos os nossos sonhos, os nossos projetos, os nossos grandes ideais, e que nos lança no anúncio da vida que vale a pena. Em dois detalhes curiosos do Evangelho de Marcos pode perceber-se o chamamento à verdadeira juventude dos ressuscitados. Por um lado, na paixão do Senhor aparece um jovem temeroso, que tentava seguir Jesus, mas que fugiu nu (cf. Mc 14,51-52), um jovem que não teve forças para arriscar tudo a fim de seguir o Senhor. Por outro lado, junto ao sepulcro vazio, vemos um jovem «vestido com uma túnica branca» (16,5), que convidava a perder o temor e anunciava a alegria da ressurreição (cf. 16,6-7).

 

  1. O Senhor chama-nos a acender estrelas na noite de outros jovens, convida-nos a olhar os verdadeiros astros, esses sinais tão variados que Ele nos dá para que não fiquemos parados, mas imitemos o semeador que olhava as estrelas para poder arar o campo. Deus acende-nos estrelas para que continuemos a caminhar: «Às estrelas que brilham alegremente nos seus postos, Ele chama-as e elas respondem» (Br 3,34-35). O próprio Cristo, porém, é para nós a grande luz de esperança, que nos guia na nossa noite, porque Ele é «a estrela radiante da manhã» (Ap 22,16).

 

 

A juventude da Igreja

 

  1. Ser jovem, mais do que uma idade, é um estado do coração. Daí que uma instituição tão antiga como a Igreja se possa renovar e voltar a ser jovem em diversas etapas da sua longuíssima história. Na realidade, nos seus momentos mais trágicos, sente o chamamento para voltar ao essencial do primeiro amor. Recordando esta verdade, o Concílio Vaticano II expressava que, «rica de um longo passado, sempre vivo nela e caminhando para a perfeição humana no tempo e para os objetivos últimos da história e da vida, a Igreja é a verdadeira juventude do mundo». Nela é sempre possível encontrar Cristo, «o companheiro e o amigo dos jovens». [10]

 

Uma Igreja que se deixa renovar

 

  1. Peçamos ao Senhor que liberte a Igreja daqueles que a querem envelhecer, encerrar no passado, detê-la, imobilizá-la. Peçamos também que a liberte de outra tentação: julgar que é jovem porque cede a tudo aquilo que o mundo lhe oferece, julgar que se renova porque esconde a sua mensagem e se mimetiza com os demais. Não. É jovem quando é ela própria, quando recebe a força sempre nova da Palavra de Deus, da Eucaristia, da presença de Cristo e da força do seu Espírito em cada dia. É jovem quando é capaz de regressar uma e outra vez à sua fonte.

 

  1. É verdade que nós, membros da Igreja, não devemos ser «bichos estranhos». Todos se devem sentir como irmãos e próximos, como os Apóstolos, que «tinham a simpatia de todo o povo» (At 2,47; cf. 4,21.33; 5,13). Ao mesmo tempo, porém, devemos atrever-nos a ser diferentes, a mostrar outros sonhos que este mundo não oferece, a dar testemunho da beleza, da generosidade, do serviço, da pureza, da fortaleza, do perdão, da fidelidade à própria vocação, da oração, da luta pela justiça e do bem comum, do amor aos pobres e da amizade social.

 

  1. A Igreja de Cristo, porém, pode sempre cair na tentação de perder o entusiasmo porque já não escuta o chamamento do Senhor a arriscar na fé, a dar tudo sem medir os perigos, e volta a procurar falsas seguranças mundanas. São precisamente os jovens que a podem ajudar a manter-se jovem, a não cair na corrupção, a não desistir, a não se orgulhar, a não se converter em seita, a ser mais pobre e testemunhal, a estar próxima dos últimos e dos descartados, a lutar pela justiça, a deixar-se interpelar com humildade. Eles podem conferir à Igreja a beleza da juventude quando estimulam a sua capacidade de «se alegrarem com aquilo que começa, de se darem sem recompensa, de se renovarem e de partirem de novo para novas conquistas». [11]

 

  1. Aqueles dentre nós que já não somos jovens, precisamos de oportunidades para manter por perto a voz e o estímulo deles, e «a proximidade cria as condições para que a Igreja seja um espaço de diálogo e de testemunho de fraternidade capaz de fascinar». [12] Faz-nos falta criar mais espaços onde ressoe a voz dos jovens: «A escuta torna possível um intercâmbio de dons, num contexto de empatia […]. Ao mesmo tempo, estabelece as condições para um anúncio do Evangelho que chegue verdadeiramente ao coração, de modo incisivo e fecundo». [13]

 

Uma igreja atenta aos sinais dos tempos

 

  1. «Para muitos jovens, Deus, a religião e a Igreja são palavras vazias, no entanto, eles são sensíveis à figura de Jesus, quando esta é apresentada de modo atraente e eficaz». [14] Por isso, é necessário que a Igreja não se centre demasiado em si mesma, mas reflita sobretudo Jesus Cristo. Isso implica que reconheça com humildade que algumas coisas concretas devem mudar e, para isso, também precisa de ter em conta a visão e também as críticas dos jovens.

 

  1. No Sínodo, reconheceu-se «que um número consistente de jovens, por razões muito distintas, não pedem nada à Igreja porque não a consideram significativa para a sua existência. Alguns, inclusive, pedem expressamente que os deixem em paz, visto que sentem a presença da Igreja incómoda e até irritante. Muitas vezes, esse pedido não brota de um desprezo acrítico e impulsivo, mas tem as suas raízes em razões sérias e compreensíveis: os escândalos sexuais e económicos; a falta de preparação dos ministros ordenados, que não sabem captar adequadamente a sensibilidade dos jovens; o pouco cuidado na preparação da homilia e na explicação da Palavra de Deus; o papel passivo atribuído aos jovens dentro da comunidade cristã; a dificuldade da Igreja em dar razão das suas posições doutrinais e éticas à sociedade contemporânea». [15]

 

  1. Embora haja jovens que se alegram quando veem uma Igreja que se manifesta com humildade, segura dos seus dons e também capaz de fazer uma crítica leal e fraterna, outros jovens reclamam uma Igreja que escute mais, que não passe a vida a condenar o mundo. Não querem ver uma Igreja calada e tímida, nem tampouco que esteja sempre em guerra por dois ou três temas que são para ela uma obsessão. Para ser credível frente aos jovens, por vezes, precisa de recuperar a humildade e de simplesmente escutar, reconhecer naquilo que os outros dizem alguma luz que a ajude a descobrir melhor o Evangelho. Uma Igreja na defensiva, que perde a humildade, que deixa de escutar, que não permite que a ponham em questão, perde a juventude e converte-se num museu. Como poderá acolher, desse modo, os sonhos dos jovens? Mesmo que detenha a verdade do Evangelho, isso não significa que a tenha compreendido plenamente; pelo contrário, deve crescer continuamente na compreensão desse tesouro inesgotável. [16]

 

  1. Por exemplo, uma Igreja demasiado temerosa e estruturada pode ser permanentemente crítica perante todos os discursos sobre a defesa dos direitos das mulheres, e apontar constantemente os riscos e os possíveis erros dessas reivindicações. Pelo contrário, uma Igreja viva pode reagir prestando atenção às legítimas reivindicações das mulheres que pedem mais justiça e igualdade. Pode recordar a história e reconhecer uma longa trama de autoritarismo por parte dos homens, de sujeição, de diversas formas de escravidão, de abuso e de violência machistas. Nesta perspetiva, será capaz de fazer suas essas reivindicações de direitos e dará o seu contributo, com convicção, em favor de uma maior reciprocidade entre homens e mulheres, mesmo que não concorde com tudo aquilo que propõem alguns grupos feministas. Nesta linha, o Sínodo quis renovar o compromisso da Igreja «contra todo o tipo de discriminação e violência sexual». [17] É essa a reação de uma Igreja que se mantém jovem e que se deixa colocar em questão e impulsionar pela sensibilidade dos jovens.

 

 

Maria, a jovem de Nazaré

 

  1. No coração da Igreja resplandece Maria. Ela é o grande modelo para uma Igreja jovem, que quer seguir Cristo com frescura e docilidade. Quando era muito jovem, recebeu o anúncio do anjo e não se coibiu de fazer perguntas (cf. Lc 1,34). Contudo, tinha uma alma disponível e disse: «Eis a serva do Senhor» (Lc 1,38).

 

  1. «Desperta sempre a atenção a força do “sim” de Maria jovem. Foi diferente de um “sim” como se dissesse: bom, vamos tentar, para ver o que acontece. Maria não conhecia a expressão “vamos ver o que acontece”. Era decidida, percebeu de que se tratava e disse “sim”, sem rodeios. Foi algo mais, algo diferente. Foi o “sim” de quem se quer comprometer e daquele que quer arriscar, de quem quer apostar tudo, sem outra segurança que não seja a certeza de saber que era portadora de uma promessa. E agora pergunto eu a cada um de vós: Sentem-se portadores de uma promessa? Que promessa tenho eu no coração para levar por diante? Maria teria, sem dúvida, uma missão difícil, mas as dificuldades não eram razão para dizer “não”. Certamente teria complicações, mas não seriam as mesmas complicações que se produzem quando a cobardia nos paralisa por não ver tudo claramente ou por não ter tudo assegurado de antemão. Maria não comprou um seguro de vida! Maria arriscou tudo, por isso é forte, por isso é uma influencer, é a influencer de Deus! O “sim” e a vontade de servir foram mais fortes do que as dúvidas e as dificuldades». [18]

 

  1. Sem ceder a evasões nem a miragens, «ela soube acompanhar a dor do seu Filho […], sustentá-lo com o seu olhar, abrigá-lo no coração. Dor essa que sofreu, mas que não a deixou resignada. Foi a mulher forte do “sim”, que sustém e acompanha, protege e abraça. Ela é a grande guardiã da esperança […]. Com ela aprendemos a dizer “sim” na obstinada paciência e criatividade daqueles que não se acobardam e que começam tudo de novo». [19]

 

  1. Maria era a jovem de alma grande que estremecia de alegria (cf. Lc 1,47), era a jovenzinha de olhos iluminados pelo Espírito Santo que contemplava a vida com fé e tudo guardava no seu coração de menina (cf. Lc 2,19.51). Era a inquieta, aquela que se põe continuamente a caminho, que mal soube que a sua prima precisava dela não pensou nos seus próprios projetos, mas dirigiu-se «à pressa» à montanha (Lc 1,39).

 

  1. E se era necessário proteger o seu filhinho, lá ia ela com José para um país distante (cf. Mt 2,13-14). Por isso, permaneceu junto dos discípulos reunidos em oração, à espera do Espírito Santo (cf. At 1,14). Assim, com a sua presença, nasceu uma Igreja jovem, com os seus Apóstolos em saída, para fazer nascer um mundo novo (cf. At 2,4-11).

 

  1. Aquela jovenzinha, hoje, é a Mãe que vela pelos filhos, estes filhos que caminhamos pela vida muitas vezes cansados, carentes, mas querendo que a luz da esperança não se apague. É isso o que nós queremos: que a luz da esperança não se apague. A nossa Mãe olha este povo peregrino, povo de jovens querido por ela, que a procura fazendo silêncio no coração, mesmo que no caminho haja muito ruído, conversas e distrações. Contudo, diante dos olhos da Mãe só cabe o silêncio esperançado. E assim Maria ilumina de novo a nossa juventude.

 

 

Jovens santos

 

  1. O coração da Igreja também está cheio de jovens santos, que entregaram a sua vida por Cristo, muitos deles até ao martírio. Eles foram preciosos reflexos de Cristo jovem, que brilham para nos estimular e para nos arrancar da modorra. O Sínodo destacou que «muitos jovens santos têm feito brilhar os traços da idade juvenil em toda a sua beleza e, na sua época, foram verdadeiros profetas de mudança; o seu exemplo mostra de que são capazes os jovens quando se abrem ao encontro com Cristo». [20]

 

  1. «Através da santidade dos jovens, a Igreja pode renovar o seu ardor espiritual e o seu vigor apostólico. O bálsamo da santidade gerada pela vida boa de tantos jovens pode curar as feridas da Igreja e do mundo, devolvendo-nos àquela plenitude do amor à qual desde sempre fomos chamados: os jovens santos animam-nos a voltar ao nosso primeiro amor (cf. Ap 2,4)». [21] Há santos que não conheceram a vida adulta e que nos deixaram o testemunho de outra forma de viver a juventude. Recordemos pelo menos alguns deles, de diversos momentos da história, que viveram a santidade, cada um à sua maneira.

 

  1. No século iii, São Sebastião era um jovem capitão da guarda pretoriana. Contam que falava de Cristo por toda a parte e que tentava converter os seus companheiros, até que lhe ordenaram que renunciasse à sua fé. Como não aceitou, lançaram sobre ele uma chuva de flechas, mas sobreviveu e continuou a anunciar Cristo, sem medo. Finalmente, açoitaram-no até à morte.

 

  1. São Francisco de Assis, sendo muito jovem e cheio de sonhos, escutou o chamamento de Jesus para ser pobre como Ele e para restaurar a Igreja com o seu testemunho. Renunciou a tudo com alegria e é o santo da fraternidade universal, o irmão de todos, que louvava o Senhor pelas suas criaturas. Morreu em 1226.

 

  1. Santa Joana d’Arc nasceu em 1412. Era uma jovem camponesa que, apesar da sua pouca idade, lutou para defender a França dos invasores. Incompreendida pelo seu aspeto e pela sua forma de viver a fé, morreu na fogueira.

 

  1. O Beato Andrés Phû Yên era um jovem vietnamita do século xvii. Era catequista e ajudava os missionários. Foi feito prisioneiro pela sua fé e, pelo facto de não ter querido renunciar a ela, foi assassinado. Morreu a dizer: «Jesus.»

 

  1. Nesse mesmo século, Santa Catarina Tekakwitha, uma jovem leiga nativa da América do Norte, sofreu perseguição pela sua fé e fugiu, percorrendo a pé mais de trezentos quilómetros através de densas florestas. Consagrou-se a Deus e morreu a dizer: «Jesus, amo-te!»

 

  1. São Domingos Sávio oferecia a Maria todos os seus sofrimentos. Quando São João Bosco lhe ensinou que a santidade implicava estar sempre alegres, abriu o seu coração a uma alegria contagiosa. Procurava estar perto dos seus companheiros mais desprezados e doentes. Morreu em 1857, aos catorze anos de idade, enquanto dizia: «Que maravilha estou a ver!»

 

  1. Santa Teresa do Menino Jesus nasceu em 1873. Aos quinze anos, passando por muitas dificuldades, conseguiu ingressar num convento carmelita. Viveu o pequeno caminho da confiança total no amor do Senhor e propôs-se alimentar com a sua oração o fogo de amor que move a Igreja.

 

  1. O Beato Zeferino Namuncurá era um jovem argentino, filho de um destacado cacique de uma comunidade autóctone. Chegou a ser seminarista salesiano, cheio de desejos de regressar à sua tribo para lhe levar Jesus Cristo. Morreu em 1905.

 

  1. O Beato Isidoro Bakanja era um leigo do Congo que dava testemunho da sua fé. Foi torturado durante muito tempo por ter proposto o cristianismo a outros jovens. Morreu, perdoando ao seu verdugo, em 1909.

 

  1. O Beato Pier Giorgio Frassati, que morreu em 1925, «era um jovem de uma alegria contagiosa, uma alegria que também superava inúmeras dificuldades da sua vida». [22] Dizia que tentava retribuir o amor de Jesus que recebia na comunhão, visitando e ajudando os pobres.

 

  1. O Beato Marcel Callo era um jovem francês que morreu em 1945. Na Áustria, foi encerrado num campo de concentração, onde reconfortava, na fé, os seus companheiros de cativeiro, no meio de duros trabalhos.

 

  1. A jovem Beata Chiara Badano, que morreu em 1990, «experimentou como a dor pode ser transfigurada pelo amor […]. O segredo da sua paz e alegria era a plena confiança no Senhor e a aceitação da doença como misteriosa expressão da sua vontade para seu próprio bem e para bem dos outros». [23]

 

  1. Que eles e também muitos jovens, que talvez desde o silêncio e o anonimato tenham vivido a fundo o Evangelho, intercedam pela Igreja, para que esta se encha de jovens alegres, valentes e dedicados, que ofereçam ao mundo novos testemunhos de santidade.

 

 

 

 

Capítulo Terceiro

 

vós sois o agora de deus

 

 

 

  1. Depois de percorrer a Palavra de Deus, não podemos dizer apenas que os jovens são o futuro do mundo. São o presente, estão a enriquecê-lo com o seu contributo. Um jovem já não é uma criança, está num momento da vida em que começa a assumir diversas responsabilidades, participando com os adultos no desenvolvimento da família, da sociedade e da Igreja. No entanto, os tempos mudam, e ressoa esta pergunta: como são os jovens hoje, que se passa com eles agora?

 

 

Aspetos positivos

 

  1. O Sínodo reconheceu que os fiéis da Igreja nem sempre têm a atitude de Jesus. Em vez de nos dispormos a escutá-los a fundo, «às vezes, predomina a tendência para dar respostas preconcebidas e receitas já preparadas, sem deixar que as interrogações dos jovens sejam apresentadas com a sua novidade e sem aceitar a sua provocação». [24] Por outro lado, quando a Igreja abandona esquemas rígidos e se abre à escuta disponível e atenta dos jovens, essa empatia enriquece-a, porque «permite que os jovens deem o seu contributo à comunidade, ajudando-a a abrir-se a novas sensibilidades e a interrogar-se sobre questões inéditas». [25]

 

  1. Hoje em dia, nós, adultos, corremos o risco de fazer uma lista de calamidades e de defeitos da juventude atual. Alguns poderão aplaudir-nos porque parecemos peritos em encontrar aspetos negativos e perigos. Mas qual seria o resultado de tal atitude? Uma distância cada vez maior, menos proximidade, menos ajuda mútua.

 

  1. A clarividência de quem foi chamado a ser pai, pastor ou guia dos jovens consiste em encontrar a pequena chama que continua a arder, a cana que parece rachada (cf. Is 42,3), mas que, no entanto, ainda não está partida. É a capacidade de encontrar caminhos onde outros veem apenas muralhas, é a habilidade de reconhecer possibilidades onde outros só veem perigos. Assim é o olhar de Deus Pai, capaz de valorizar e de alimentar as sementes de bem semeadas nos corações dos jovens. O coração de cada jovem deve, portanto, ser considerado «terra sagrada», portador de sementes de vida divina, diante da qual nos devemos «descalçar» para nos podermos aproximar e penetrar a fundo no Mistério.

 

 

Muitas juventudes

 

  1. Poderíamos tentar descrever as características dos jovens de hoje, mas, antes de mais, quero apresentar uma advertência dos Padres sinodais: «A composição do Sínodo tornou visível a presença e o contributo das diversas regiões do mundo e pôs em destaque a beleza de sermos Igreja Universal. Mesmo num contexto de globalização crescente, os Padres sinodais pediram que se destacassem as numerosas diferenças entre contextos e culturas, inclusive dentro de um mesmo país. Existe uma pluralidade de mundos jovens, tanto é assim que, em alguns países, se tende a utilizar o termo «juventude» em sentido plural. Além disso, a faixa etária considerada por este Sínodo (16-29 anos) não representa um conjunto homogéneo, mas é composta por grupos que vivem situações peculiares». [26]

 

  1. Do ponto de vista demográfico, alguns países têm muitos jovens, ao passo que outros têm uma taxa de natalidade muito baixa. Contudo, «outra diferença deriva da história, que distingue os países e os continentes de antiga tradição cristã, cuja cultura é portadora de uma memória que não se deve perder, em relação aos países e continentes marcados, pelo contrário, por outras tradições religiosas e onde o Cristianismo é uma presença minoritária e por vezes recente. Além disso, noutros territórios, as comunidades cristãs e os jovens que delas fazem parte são objeto de perseguição». [27] Também se devem distinguir os jovens «a quem a globalização oferece um maior número de oportunidades daqueles que vivem à margem da sociedade ou no mundo rural e que sofrem os efeitos de várias formas de exclusão e descarte». [28]

 

  1. Há muitas outras diferenças, que seria complicado detalhar aqui. Portanto, não me parece conveniente deter-me a apresentar uma análise exaustiva sobre os jovens no mundo atual, sobre a forma como vivem e aquilo que se passa com eles. Todavia, como também não posso deixar de olhar a realidade, apontarei brevemente alguns contributos que chegaram antes do Sínodo e outros que pude reunir durante o mesmo.

 

 

Algumas coisas que sucedem aos jovens

 

  1. A juventude não é uma coisa que se possa analisar de forma abstrata. Na realidade, «a juventude» não existe, existem os jovens, com as suas vidas concretas. No mundo atual, cheio de progressos, muitas dessas vidas estão expostas ao sofrimento e à manipulação.

 

Jovens de um mundo em crise

 

  1. Os Padres sinodais evidenciaram, com dor, que «muitos jovens vivem em contextos de guerra e padecem a violência numa inumerável variedade de formas: sequestros, extorsões, crime organizado, tráfico de seres humanos, escravidão e exploração sexual, estupros de guerra, etc. A outros jovens, por causa da sua fé, custa-lhes encontrar um lugar nas sociedades em que vivem e são vítimas de diversos tipos de perseguições e, inclusivamente, da morte. São muitos os jovens que, forçados ou por falta de alternativas, passam a sua vida a perpetrar delitos e violências: meninos soldados, bandos armados e criminosos, tráfico de droga, terrorismo, etc. Essa violência trunca muitas vidas jovens. Abusos e dependências, bem como violência e comportamentos negativos são algumas das razões que levam os jovens à prisão, com particular incidência em alguns grupos étnicos e sociais». [29]

 

  1. São muitos os jovens ideologizados, utilizados e aproveitados como carne para canhão ou como força de choque para destruir, amedrontar ou ridicularizar outros. E o pior é que muitos se convertem em seres individualistas, inimigos e desconfiados de todos, que assim se tornam presa fácil de ofertas desumanas e de planos destrutivos elaborados por grupos políticos ou por poderes económicos.

 

  1. Ainda «mais numerosos no mundo são os jovens que padecem formas de marginalização e exclusão social por razões religiosas, étnicas ou económicas. Recordamos a difícil situação de adolescentes e jovens que engravidam e a praga do aborto, bem como a difusão do HIV, as várias formas de dependência (drogas, jogos de azar, pornografia, etc.) e a situação das crianças e jovens da rua, que não têm casa, nem família, nem recursos económicos». [30] Quando, ainda por cima, são mulheres, estas situações de marginalização tornam-se duplamente dolorosas e difíceis.

 

  1. Não sejamos uma Igreja que não chora frente a estes dramas dos seus jovens filhos. Nunca nos acostumemos a eles, porque quem não sabe chorar não é mãe. Nós queremos chorar para que a sociedade também seja mais mãe, para que, em vez de matar, aprenda a dar à luz, para que seja promessa de vida. Choramos ao recordar os jovens que já morreram pela miséria e pela violência, e pedimos à sociedade que aprenda a ser mãe solidária. Essa dor não nos larga, caminha connosco, porque a realidade não se pode esconder. O pior que podemos fazer é aplicar a receita do espírito mundano, que consiste em anestesiar os jovens com outras notícias, com outras distrações, com banalidades.

 

  1. Talvez «aqueles dentre nós que levam uma vida mais ou menos sem necessidades não saibam chorar. Certas realidades da vida só se veem com os olhos lavados pelas lágrimas. Convido-vos a que cada um se interrogue: Eu tenho aprendido a chorar? Eu tenho aprendido a chorar ao ver uma criança com fome, uma criança drogada na rua, uma criança que não tem casa, uma criança abandonada, uma criança abusada, uma criança usada como escrava por uma sociedade? Ou o meu pranto é o pranto caprichoso daquele que chora porque gostaria de ter mais qualquer coisa?» [31] Tenta aprender a chorar pelos jovens que estão pior do que tu. A misericórdia e a compaixão também se manifestam chorando. Se isso não te sai, roga ao Senhor que te conceda derramar lágrimas pelo sofrimento de outros. Quando souberes chorar, então sim, serás capaz de fazer qualquer coisa pelos outros do fundo do coração.

 

  1. Por vezes, a dor de alguns jovens é muito dilacerante; é uma dor que não se pode expressar com palavras; é uma dor que nos esbofeteia. Esses jovens só podem dizer a Deus que sofrem muito, que lhes custa demasiado seguir em frente, que já não acreditam em ninguém. Mas nesse lamento lancinante tornam-se presentes as palavras de Jesus: «Felizes os que choram, porque serão consolados» (Mt 5,4). Há jovens que puderam abrir caminho na vida porque lhes chegou essa promessa divina. Oxalá haja sempre perto de um jovem sofredor uma comunidade cristã que possa fazer ressoar essas palavras com gestos, abraços e ajudas concretas.

 

  1. É verdade que os poderosos prestam algumas ajudas, mas muitas vezes a alto preço. Em muitos países pobres, as ajudas económicas de alguns países mais ricos ou de alguns organismos internacionais costumam estar vinculadas à aceitação de propostas ocidentais relativas à sexualidade, ao matrimónio, à vida ou à justiça social. Esta colonização ideológica prejudica sobretudo os jovens. Ao mesmo tempo, vemos como certa publicidade ensina as pessoas a estar sempre insatisfeitas e contribui para a cultura do descarte, em que os próprios jovens acabam por se converter em material descartável.

 

  1. A cultura atual apresenta um modelo de pessoa muito associado à imagem do jovem. Sente-se belo quem aparenta juventude, quem se submete a tratamentos para fazer desaparecer as marcas do tempo. Os corpos jovens são constantemente usados pela publicidade para vender. O modelo de beleza é um modelo juvenil, mas estejamos atentos, porque isso não é um elogio para os jovens. Significa apenas que os adultos querem roubar a juventude para si, e não que respeitam, amam e cuidam dos jovens.

 

  1. Alguns jovens «sentem as tradições familiares como que opressoras e fogem delas, impelidos por uma cultura globalizada que, por vezes, os deixa sem pontos de referência. Noutras partes do mundo, pelo contrário, entre jovens e adultos não se dá um verdadeiro conflito geracional, verificando-se antes uma estranheza mútua. Por vezes, os adultos não tentam transmitir os valores fundamentais da existência ou não o conseguem, ou então assumem estilos juvenis, invertendo a relação entre gerações. Deste modo, corre-se o risco de que a relação entre jovens e adultos permaneça no plano afetivo, sem tocar a dimensão educativa e cultural». [32] Que mal faz isto aos jovens, mesmo que alguns não se apercebam! Os próprios jovens fizeram-nos notar que isto dificulta enormemente a transmissão da fé «em alguns países onde não há liberdade de expressão, e onde eles são impedidos de participar na Igreja». [33]

 

Desejos, feridas e procuras

 

  1. Os jovens reconhecem que o corpo e a sexualidade têm uma importância fundamental para a sua vida e no caminho de crescimento da sua identidade. No entanto, num mundo que valoriza excessivamente a sexualidade, é difícil manter uma boa relação com o próprio corpo e viver serenamente as relações afetivas. Por esta e por outras razões, a moral sexual costuma ser, muitas vezes, «causa de incompreensão e de afastamento da Igreja, visto que é percebida como um espaço de julgamento e de condenação». Ao mesmo tempo, os jovens manifestam «um desejo explícito de se confrontarem sobre as questões relativas à diferença entre identidade masculina e feminina, à reciprocidade entre homens e mulheres e à homossexualidade». [34]

 

  1. No nosso tempo, «os avanços das ciências e das tecnologias biomédicas incidem sobre a perceção do corpo, insinuando a ideia de que se podem fazer modificações sem limites. A capacidade de intervir sobre o ADN, a possibilidade de inserir elementos artificiais no organismo (cyborg) e o desenvolvimento das neurociências constituem um grande recurso, mas, ao mesmo tempo, levantam interrogações antropológicas e éticas». [35] Podem fazer-nos esquecer que a vida é um dom e que nós somos seres criados e limitados, facilmente passíveis de ser instrumentalizados por quem detém o poder tecnológico. [36] «Além disso, em alguns contextos juvenis, difunde-se uma certa atração por comportamentos de risco como instrumento para se explorarem a si mesmos, procurando emoções fortes e ser reconhecidos. […] Tais fenómenos, aos quais estão expostas as novas gerações, constituem um obstáculo para um amadurecimento sereno». [37]

 

  1. Os jovens também estão marcados pelos golpes, pelos fracassos, pelas recordações tristes, cravadas na alma. Muitas vezes, «são as feridas das derrotas da própria história, dos desejos frustrados, das discriminações e das injustiças sofridas, de nunca se terem sentido amados ou reconhecidos». Além disso, «também há as feridas morais, o peso dos próprios erros, os sentimentos de culpa por se terem equivocado». [38] Jesus faz-se presente nessas cruzes dos jovens, para lhes oferecer a sua amizade, o seu alívio, a sua companhia que cura, e a Igreja quer ser seu instrumento nesse caminho até à restauração interior e à paz do coração.

 

  1. Em alguns jovens reconhecemos um desejo de Deus, embora este não tenha todos os contornos do Deus revelado. Noutros, poderemos vislumbrar um sonho de fraternidade, que não é pouco. Em muitos, haverá um desejo real de desenvolver as capacidades que neles existem para dar algum contributo ao mundo. Em alguns vemos uma sensibilidade artística especial ou uma busca de harmonia com a natureza. Noutros talvez haja uma grande necessidade de comunicação. Em muitos deles encontraremos um profundo desejo de uma vida diferente. Trata-se de verdadeiros pontos de partida, de fibras interiores que esperam, com abertura, uma palavra de estímulo, de luz e de alento.

 

  1. O Sínodo abordou, de modo especial, três temas de suma importância, cujas conclusões quero acolher textualmente, embora ainda requeiram que procedamos a uma análise mais aprofundada e que desenvolvamos uma capacidade de resposta mais adequada e eficaz.

 

 

O ambiente digital

 

  1. «O ambiente digital caracteriza o mundo contemporâneo. Largas faixas da humanidade estão imersas nele de modo ordinário e contínuo. Já não se trata apenas de “usar” instrumentos de comunicação, mas de viver numa cultura largamente digitalizada, que afeta de modo muito profundo a noção de tempo e de espaço, a perceção da própria pessoa, dos outros e do mundo, o modo de comunicar, de aprender, de se informar e de entrar em relação com os outros. Uma forma de se aproximar da realidade que costuma privilegiar a imagem em relação à escuta e à leitura incide sobre o modo de aprender e o desenvolvimento do sentido crítico». [39]

 

  1. A web e as redes sociais criaram uma nova forma de comunicar e de se vincular, e «são uma praça onde os jovens passam muito tempo e se encontram facilmente, embora o acesso não seja igual para todos, de modo particular em certas regiões do mundo. Seja como for, constituem uma extraordinária oportunidade de diálogo, de encontro e de intercâmbio entre pessoas, bem como de acesso à informação e ao conhecimento. Por outro lado, o ambiente digital é um contexto de participação sociopolítica e de cidadania ativa, e pode facilitar a circulação de informação independente capaz de tutelar eficazmente as pessoas mais vulneráveis, trazendo à luz as violações dos seus direitos. Em inúmeros países, web e redes sociais representam um lugar indispensável para chegar aos jovens e para envolvê-los, inclusive em iniciativas e atividades pastorais». [40]

 

  1. Contudo, para compreender este fenómeno na sua totalidade, devemos reconhecer que, como qualquer realidade humana, este é atravessado por limitações e carências. Não é saudável confundir a comunicação com o mero contacto virtual. Com efeito, «o ambiente digital também é um território de solidão, manipulação, exploração e violência, até chegar ao caso extremo da dark web. Os meios de comunicação digitais podem encerrar o risco de dependência, de isolamento e de progressiva perda de contacto com a realidade concreta, levantando obstáculos ao desenvolvimento de relações interpessoais autênticas. Novas formas de violência são difundidas mediante os social media, por exemplo, o ciberassédio; a web também é um canal de difusão da pornografia e de exploração das pessoas para fins sexuais ou mediante jogos de azar». [41]

 

  1. Não se deveria esquecer que «no mundo digital estão em jogo ingentes interesses económicos, capazes de fomentar formas de controlo tão subtis como invasivas, criando mecanismos de manipulação das consciências e do processo democrático. O funcionamento de muitas plataformas acaba por favorecer, amiúde, o encontro entre pessoas que pensam do mesmo modo, dificultando a confrontação entre as diferenças. Estes circuitos fechados facilitam a difusão de informações e de notícias falsas, fomentando preconceitos e ódios. A proliferação das fake news é expressão de uma cultura que perdeu o sentido da verdade e que submete os factos a interesses particulares. A reputação das pessoas corre perigo mediante julgamentos sumários online. Tal fenómeno também afeta a Igreja e os seus pastores». [42]

 

  1. Num documento preparado por trezentos jovens do mundo inteiro, antes do Sínodo, estes indicaram que «as relações online se podem tornar desumanas. Os espaços digitais cegam-nos relativamente à vulnerabilidade do outro, dificultando a reflexão pessoal. Problemas como a pornografia distorcem a perceção que o jovem tem da sexualidade humana. A tecnologia usada desta forma cria uma ilusória realidade paralela, que ignora a dignidade humana». [43] A imersão no mundo virtual tem propiciado uma espécie de «migração digital», quer dizer, um afastamento da família, dos valores culturais e religiosos, que conduz muita gente a um mundo de solidão e de autoinvenção, até ao ponto de experimentarem uma falta de raízes, mesmo permanecendo fisicamente no mesmo lugar. A vida nova e transbordante dos jovens, que impele e tenta autoafirmar a sua própria personalidade, enfrenta hoje um novo desafio: interagir com um mundo real e virtual, em que penetram sozinhos, como num continente global desconhecido. Os jovens de hoje são os primeiros a fazer esta síntese entre a pessoa, o próprio de cada cultura e o global. No entanto, isso requer que consigam passar do contacto virtual a uma boa e sã comunicação.

 

 

Os migrantes como paradigma do nosso tempo

 

  1. Como não havemos de recordar tantos jovens afetados pelas migrações? Os fenómenos migratórios «não representam uma emergência transitória, mas são estruturais. As migrações podem ter lugar dentro do próprio país ou entre países diferentes. A preocupação da Igreja abraça em particular aqueles que fogem da guerra, da violência, da perseguição política ou religiosa, dos desastres naturais – devidos, entre outras coisas, às alterações climáticas – e da pobreza extrema: muitos deles são jovens. De um modo geral, procuram oportunidades para si e para as suas famílias. Sonham com um futuro melhor e desejam criar condições para que este se torne realidade». [44] Os migrantes «recordam-nos a condição original da fé, ou seja, o facto de serem “estrangeiros e peregrinos sobre a terra” (Heb 11,13)». [45]

 

  1. Outros migrantes são «atraídos pela cultura ocidental, por vezes com expectativas pouco realistas, que os expõem a grandes desilusões. Traficantes sem escrúpulos, muitas vezes ligados aos cartéis da droga e das armas, exploram a situação de debilidade dos imigrantes, que ao longo da sua viagem, com demasiada frequência, experimentam a violência, o tráfico de pessoas, o abuso psicológico e físico e sofrimentos indescritíveis. É importante sublinhar a especial vulnerabilidade dos imigrantes menores não-acompanhados e a situação dos que se veem forçados a passar muitos anos nos campos de refugiados ou que ficam bloqueados durante muito tempo nos países de trânsito, sem poderem prosseguir os seus estudos nem desenvolver os seus talentos. Em alguns países de chegada, os fenómenos migratórios suscitam alarme e medo, muitas vezes fomentados e explorados com fins políticos. Difunde-se assim uma mentalidade xenófoba, de gente fechada e virada sobre si própria, perante a qual se deve reagir com determinação». [46]

 

  1. «Os jovens que emigram têm de se separar do seu próprio contexto de origem e com frequência vivem um desenraizamento cultural e religioso. Esta fratura também diz respeito às comunidades de origem, que perdem os seus elementos mais vigorosos e empreendedores, e as famílias, em particular, quando emigra um dos pais ou ambos, deixando os filhos no país de origem. A Igreja desempenha um papel importante como referência para os jovens destas famílias separadas. No entanto, as histórias dos migrantes também são histórias de encontro entre pessoas e entre culturas: para as comunidades e as sociedades a que eles chegam, são uma oportunidade de enriquecimento e de desenvolvimento humano integral de todos. As iniciativas de acolhimento que se referem à Igreja desempenham um papel importante segundo esse ponto de vista, podendo revitalizar as comunidades capazes de as implementar». [47]

 

  1. «Graças às diversas origens dos Padres [sinodais], no que diz respeito ao tema dos migrantes, o Sínodo viveu o encontro de muitas perspetivas, em particular entre países de origem e países de chegada. Além disso, ressoou o grito de alarme daquelas Igrejas cujos membros se veem forçados a fugir da guerra e da perseguição, e que veem nessas migrações forçadas uma ameaça para a sua própria existência. Precisamente o facto de incluir no seu seio todas essas perspetivas coloca a Igreja em condições de desempenhar, no meio da sociedade, um papel profético sobre o tema das migrações». [48] Peço de modo especial aos jovens que não caiam nas redes de quem os quer fazer confrontar com outros jovens que chegam dos seus países, apresentando-os como seres perigosos e como se não tivessem a mesma dignidade inalienável de todo o ser humano.

 

 

Pôr termo a todo o tipo de abusos

 

  1. Nos últimos tempos tem-nos sido reclamado com vigor que escutemos o grito das vítimas dos diversos tipos de abuso levados a cabo por alguns bispos, sacerdotes, religiosos e leigos. Esses pecados provocam nas suas vítimas «sofrimentos que chegam a durar a vida inteira e que arrependimento algum pode remediar. Esse fenómeno está muito difundido na sociedade e também afeta a Igreja, representando um sério obstáculo para a sua missão». [49]

 

  1. É verdade que «a praga dos abusos sexuais de menores constitui, por desgraça, um fenómeno historicamente difundido em todas as culturas e sociedades», de modo especial no seio das próprias famílias e em diversas instituições, cuja extensão se evidenciou sobretudo «graças a uma mudança de sensibilidade da opinião pública». No entanto, «a universalidade desta praga, ao mesmo tempo que confirma a sua gravidade nas nossas sociedades, não reduz a sua monstruosidade dentro da Igreja» e «na justificada fúria das pessoas, a Igreja vê o reflexo da ira de Deus, atraiçoado e esbofeteado». [50]

 

  1. «O Sínodo renova o seu firme compromisso relativamente à adoção de medidas rigorosas de prevenção que impeçam que aqueles abusos se repitam, a partir da seleção e da formação dos que serão incumbidos de funções de responsabilidade e educativas». [51] Ao mesmo tempo, já não se deve abandonar a decisão de aplicar as «ações e sanções tão necessárias». [52] E tudo isto com a graça de Cristo. É impossível voltar atrás.

 

  1. «Existem diversos tipos de abuso: de poder, económico, de consciência, sexual. É evidente a necessidade de desenraizar as formas de exercício da autoridade em que os mesmos se inserem e de contrariar a falta de responsabilidade e de transparência com que se gerem muitos dos casos. O desejo de domínio, a falta de diálogo e de transparência, as formas de vida dupla, o vazio espiritual, bem como as fragilidades psicológicas, são o terreno no qual prospera a corrupção». [53] O clericalismo é uma tentação permanente dos sacerdotes, que interpretam «o ministério recebido mais como um poder que deve ser exercido do que como um serviço gratuito e generoso a prestar; e isso leva-nos a pensar que pertencemos a um grupo que tem todas as respostas e já não precisa de escutar nem de aprender nada». [54] Não há dúvida que um espírito clericalista expõe as pessoas consagradas a perder o respeito pelo valor sagrado e inalienável de cada pessoa e da sua liberdade.

 

  1. Juntamente com os Padres sinodais, quero manifestar com carinho e reconhecimento a minha «gratidão para com aqueles que tiveram a coragem de denunciar o mal sofrido: ajudam a Igreja a tomar consciência do sucedido e da necessidade de reagir com determinação». [55] Contudo, também merece um especial reconhecimento «o empenho sincero de inúmeros leigos, sacerdotes, consagrados e bispos que se entregam diariamente, com honestidade e dedicação, ao serviço dos jovens. A sua obra é um grande bosque que cresce silenciosamente. Muitos dos jovens presentes no Sínodo também mani-festaram gratidão para com aqueles que os acompanharam, fazendo ressaltar a grande necessidade de figuras de referência». [56]

 

  1. Graças a Deus, os sacerdotes que caíram nesses horríveis crimes não são a maioria, que desempenha um ministério fiel e generoso. Peço aos jovens que se deixem incentivar por esta maioria. Seja como for, quando virdes um sacerdote em risco, porque perdeu a alegria do seu ministério, porque procura compensações afetivas ou está a desviar-se do rumo, atrevei-vos a recordar-lhe o seu compromisso para com Deus e para com o seu povo, anunciando-lhe o Evangelho e alentando-o a manter-se no bom caminho. Assim prestareis uma ajuda de valor inestimável numa coisa fundamental: a prevenção que permita evitar a repetição de tais atrocidades. Esta nuvem negra converte-se também num desafio para os jovens que amam Jesus Cristo e a sua Igreja, porque podem contribuir muito para essa ferida se puserem em risco a sua capacidade de renovar, de reclamar, de exigir coerência e testemunho, de voltar a sonhar e de reinventar.

 

  1. Não é este o único pecado dos membros da Igreja, cuja história está muito ensombrada. Os nossos pecados estão à vista de todos; refletem-se sem piedade nas rugas do rosto milenar da nossa Mãe e Mestra. Porque ela caminha há dois mil anos, partilhando «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens». [57] E caminha tal como é, sem se submeter a cirurgias estéticas. Não tem medo de mostrar os pecados dos seus membros que, por vezes, alguns deles tentam dissimular, perante a luz ardente da Palavra do Evangelho, que limpa e purifica. Também não deixa de recitar em cada dia, envergonhada: «Tem compaixão de mim, ó Deus, pela tua bondade. […] Tenho sempre diante de mim os meus pecados» (Sl 51,3.5). Recordemos, porém, que não se abandona a Mãe quando está ferida, pelo contrário deve-se acompanhá-la para que agregue toda a sua fortaleza e a sua capacidade de começar sempre de novo.

 

  1. No meio deste drama que com toda a razão nos provoca dor na alma, «Jesus, Nosso Senhor, que nunca abandona a sua Igreja, dá-lhe a força e os instrumentos necessários para empreender um novo caminho». [58] Assim, este momento obscuro, «com a valiosa ajuda dos jovens, pode ser realmente uma oportunidade para uma reforma de carácter histórico», [59] para a Igreja se abrir a um novo Pentecostes e iniciar uma etapa de purificação e de mudança que lhe outorgue uma juventude renovada. Os jovens, porém, poderão ajudar muito mais se se sentem, do fundo do coração, parte do «santo, paciente e fiel Povo de Deus, sustentado e vivificado pelo Espírito Santo», porque «será, precisamente, este santo Povo de Deus que nos livrará da praga do clericalismo, que é o terreno fértil para todas estas abominações». [60]

 

 

Há saída

 

  1. Neste capítulo detive-me a olhar para a realidade dos jovens no mundo atual. Vários outros aspetos irão aparecendo nos capítulos seguintes. Como já disse, não pretendo ser exaustivo com esta análise. Exorto as comunidades a realizar, com respeito e seriedade, um exame da sua própria realidade juvenil mais próxima, para poderem discernir os caminhos pastorais mais adequados. Contudo, não quero terminar este capítulo sem dirigir algumas palavras a cada um.

 

  1. Recordo-te a boa notícia que nos foi oferecida pela manhã da Ressurreição: que para todas as situações obscuras ou dolorosas mencionadas há uma saída. Por exemplo, é verdade que o mundo digital te pode colocar perante o risco do ensimesmamento, do isolamento ou do prazer vazio. Não te esqueças, porém, que há jovens que inclusive nesses âmbitos são criativos e, por vezes, geniais. Era o que fazia o jovem servo de Deus Carlos Acutis.

 

  1. Ele sabia muito bem que esses mecanismos da comunicação, da publicidade e das redes sociais podem ser utilizados para nos transformar em seres adormecidos, dependentes do consumo e das novidades que podemos comprar, obcecados pelo tempo livre, fechados na negatividade. Carlos, porém, foi capaz de usar as novas técnicas de comunicação para transmitir o Evangelho, para comunicar valores e beleza.

 

  1. Não caiu na armadilha. Via que muitos jovens, embora parecendo diferentes, na realidade acabam por ser iguais a todos os outros, correndo atrás daquilo que lhes impõem os poderosos através dos mecanismos de consumo e de atordoamento. Desse modo, não deixam brotar os dons que o Senhor lhes concedeu, não oferecem a este mundo essas capacidades tão pessoais e únicas que Deus semeou em cada um. É por isso, dizia Carlos, que «todos nascem como originais, mas muitos morrem como fotocópias». Não permitas que isso te aconteça.

 

  1. Não deixes que te roubem a esperança e a alegria, que te narcotizem para te utilizarem como escravo dos seus interesses. Atreve-te a ser mais, porque o teu ser é mais importante do que qualquer outra coisa. Não te serve ter ou aparecer. Podes chegar a ser aquilo que Deus, teu Criador, sabe que tu és, se reconheceres que és chamado a muito. Invoca o Espírito Santo e caminha com confiança até à grande meta: a santidade. Assim não serás uma fotocópia. Serás plenamente tu próprio.

 

  1. Para isso precisas de reconhecer uma coisa fundamental: ser jovem não é apenas a busca de prazeres passageiros e de êxitos superficiais. Para que a juventude cumpra a finalidade que tem no percurso da tua vida, deve ser um tempo de entrega generosa, de oferenda sincera, de sacrifícios que doem, mas que nos tornam fecundos. É como dizia um grande poeta:

 

Se para recuperar o recuperado

tive de perder primeiro o perdido,

se para conseguir o conseguido,

tive de suportar o suportado,

Se para estar agora enamorado,

foi mister ter estado ferido,

tenho por bem sofrido o sofrido,

tenho por bem chorado o chorado.

Porque no fim de tudo foi comprovado

que não se goza bem do gozado,

Senão depois de o ter padecido.

Porque no fim de tudo foi compreendido,

Que aquilo que a árvore tem de florido,

Vive daquilo que tem sepultado. [61]

 

  1. Se és jovem de idade, mas te sentes débil, cansado ou desiludido, pede a Jesus que te renove. Com Ele, não falta a esperança. O mesmo podes fazer se te sentes submergido nos vícios, nos maus costumes, no egoísmo ou na comodidade doentia. Jesus, cheio de vida, quer ajudar-te para que ser jovem valha a pena. Assim não privarás o mundo daquele contributo que só tu lhe podes dar, sendo único e irrepetível como és.

 

  1. Contudo, também te quero recordar que «é muito difícil lutar contra a própria concupiscência e contra os assédios e as tentações do demónio e do mundo egoísta, se estivermos isolados. É tão grande o bombardeamento que nos seduz que, se estivermos demasiado sós, facilmente perdemos o sentido da realidade, a claridade interior, e sucumbimos». [62] Isto aplica-se especialmente aos jovens, porque vós, unidos, tendes uma força admirável. Quando vos entusiasmais por uma vida comunitária, sois capazes de grandes sacrifícios pelos outros e pela comunidade. O isolamento, pelo contrário, debilita-vos e expõe-vos aos piores males do nosso tempo.

 

 

Capítulo Quarto

 

o grande anúncio para todos os jovens

 

 

 

  1. Para lá de qualquer circunstância, a todos os jovens quero anunciar agora o mais importante, o principal, aquilo que nunca se deveria calar. É um anúncio que inclui três grandes verdades que todos precisamos de escutar sempre, uma e outra vez.

 

 

Um Deus que é Amor

 

  1. Antes de mais, quero dizer a cada um a primeira verdade: «Deus ama-te.» Se já o escutaste, não importa, eu quero recordar-to: Deus ama-te. Nunca o duvides, suceda o que te suceder na vida. Em qualquer circunstância, tu és infinitamente amado.

 

  1. A experiência de paternidade que tiveste talvez não tenha sido a melhor, o teu pai da terra talvez fosse distante e ausente ou, pelo contrário, dominador e absorvente. Ou então, pura e simplesmente, não foi o pai de que tu precisavas. Não sei. O que te posso dizer com certeza, porém, é que tu te podes lançar, seguro, nos braços do teu Pai divino, desse Deus que te deu a vida e que ta dá a cada momento. Ele te sustentará com firmeza e, ao mesmo tempo, sentirás que Ele respeita até ao fundo a tua liberdade.

 

  1. Na sua Palavra encontramos muitas expressões do seu amor. É como se Ele tivesse procurado diversas formas de manifestá-lo para ver se com alguma dessas palavras conseguia chegar ao teu coração. Por exemplo, às vezes apresenta-se como aqueles pais afetuosos que brincam com os seus filhinhos: «Segurava-os com laços humanos, com laços de amor, fui para eles como os que levantam uma criancinha contra o seu rosto» (Os 11,4).

Por vezes, apresenta-se transbordante do amor daquelas mães que amam sinceramente os seus filhos, com um terno e profundo amor, que é incapaz de esquecer ou de abandonar: «Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca te esqueceria» (Is 49,15).

Até se apresenta como um enamorado que chega ao ponto de tatuar a pessoa amada na palma da sua mão para poder ter o seu rosto sempre próximo: «Eis que Eu gravei a tua imagem na palma das minhas mãos» (Is 49,16).

Outras vezes destaca-se a força e a firmeza do seu amor, que não se deixa vencer: «Ainda que os montes sejam abalados e tremam as colinas, o meu amor por ti nunca mais será abalado, e a minha aliança de paz nunca vacilará» (Is 54,10).

Ou nos diz que fomos esperados desde sempre, porque não aparecemos neste mundo por uma casualidade. Desde antes de existirmos éramos um projeto do seu amor: «Amei-te com um amor eterno. Por isso, guardei fidelidade para contigo» (Jr 31,3).

Ou nos faz notar que Ele sabe ver a nossa beleza, aquela que mais ninguém pode reconhecer: «És precioso aos meus olhos, és estimado e amado» (Is 43,4).

Ou nos leva a descobrir que o seu amor não é triste, mas pura alegria, que se renova quando nos deixamos amar por Ele: «O teu Deus está no meio de ti como poderoso salvador! Ele exulta de alegria por tua causa, pelo seu amor te renovará. Ele dança e grita de alegria por tua causa» (Sf 3,17).

 

  1. Para Ele és realmente valioso, não és insignificante, és importante para Ele, porque és obra das suas mãos. Por isso te presta atenção e te recorda com carinho. Tens de confiar na «memória de Deus: ela não é um “disco duro” que regista e armazena todos os nossos dados; a sua memória é um coração terno de compaixão, que se regozija, eliminando, definitivamente, qualquer vestígio de mal». [63] Não quer ter em conta os teus erros e, em qualquer circunstância, ajudar-te-á a aprender qualquer coisa inclusive com as tuas quedas. Porque te ama. Tenta ficar um momento em silêncio, deixando-te amar por Ele. Tenta silenciar todas as vozes e gritos interiores e fica por um instante nos seus braços de amor.

 

  1. É um amor «que não esmaga, é um amor que não marginaliza, que não se cala, um amor que não humilha nem avassala. É o amor do Senhor, um amor de todos os dias, discreto e respeitador, amor de liberdade e para a liberdade, amor que cura e que levanta. É o amor do Senhor, que sabe mais de subidas do que de quedas, de reconciliação que de proibição, de dar uma nova oportunidade do que de condenar, de futuro que de passado». [64]

 

  1. Quando te pede alguma coisa ou quando, simplesmente, permite aqueles desafios que a vida te apresenta, espera que lhe dês espaço para te poder fazer seguir em frente, para te promover, para te amadurecer. Não o incomoda que lhe apresentes as tuas interrogações, aquilo que o preocupa é que tu não fales com Ele, não te abras, com sinceridade, ao diálogo com Ele. Conta a Bíblia que Jacob teve uma discussão com Deus (cf. Gn 32,25-31), e isso não o afastou do caminho do Senhor. Na realidade, é Ele mesmo que nos exorta: «Vinde então para discutirmos» (Is 1,18). O seu amor é tão real, tão verdadeiro, tão concreto, que nos oferece uma relação cheia de diálogo sincero e fecundo. Finalmente, procura o abraço do teu Pai do Céu no rosto amoroso das suas valentes testemunhas na terra!

 

 

Cristo salva-te

 

  1. A segunda verdade é que Cristo, por amor, se entregou até ao fim para te salvar. Os seus braços abertos na Cruz são o sinal mais precioso de um amigo capaz de chegar até ao extremo: «Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo» (Jo 13,1).

São Paulo, que vivia abandonado a esse amor que entregou tudo, dizia: «Vivo na fé do Filho de Deus que me amou e a si mesmo se entregou por mim» (Gl 2,20).

 

  1. Esse Cristo que nos salvou na Cruz dos nossos pecados, com esse mesmo poder da sua entrega total continua a salvar-nos e a resgatar-nos hoje. Olha a sua Cruz, agarra-te a Ele, deixa-te salvar, porque «aqueles que se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento». [65] E se tu pecas e te afastas, Ele volta a levantar-te com o poder da sua Cruz. Nunca esqueças que «Ele perdoa setenta vezes sete. Volta a carregar-nos aos ombros, uma e outra vez. Ninguém nos poderá tirar a dignidade que esse amor infinito e inquebrantável nos confere. Ele permite-nos levantar a cabeça e recomeçar, com uma ternura que nunca nos desilude, capaz de nos devolver sempre a alegria». [66]

 

  1. Nós «somos salvos por Jesus porque Ele nos ama, e isso é mais forte do que Ele. Podemos fazer-lhe trinta por uma linha, mas Ele ama-nos e salva-nos. Porque só quem é amado pode ser salvo. Só quem é abraçado pode ser transformado. O amor do Senhor é maior do que todas as nossas contradições, do que todas as nossas fragilidades e do que todas as nossas mesquinhices. Contudo, é precisamente através das nossas contradições, fragilidades e mesquinhices que Ele quer escrever esta história de amor. Abraçou o filho pródigo, abraçou Pedro depois das negações, e abraça-nos sempre, sempre, sempre, depois das nossas quedas, ajudando-nos a levantarmo-nos e a pormo-nos de pé. Porque a verdadeira queda – atenção a isto –, a verdadeira queda, aquela que é capaz de nos arruinar a vida, é a de ficarmos no chão e de não nos deixarmos ajudar». [67]

 

  1. O seu perdão e a sua salvação não são uma coisa que comprámos ou que tenhamos de adquirir com as nossas obras ou com os nossos esforços. Ele perdoa-nos e liberta-nos de graça. A sua entrega na Cruz é uma coisa tão grande que nós não podemos nem a devemos pagar, só temos de recebê-la com uma gratidão imensa e com a alegria de termos sido tão amados antes ainda de o podermos imaginar: «Ele amou-nos primeiro» (1Jo 4,19).

 

  1. Jovens amados pelo Senhor, quanto valeis vós, se fostes redimidos pelo sangue precioso de Cristo! Jovens queridos, vós «não tendes preço! Não sois peças de leilão! Por favor, não vos deixeis comprar, não vos deixeis seduzir, não vos deixeis escravizar pelas colonizações ideológicas que nos metem ideias na cabeça e, no fim, tornamo-nos escravos, dependentes, fracassados na vida. Vós não tendes preço; deveis repeti-lo continuamente: eu não estou em leilão, não tenho preço. Sou livre, sou livre! Enamorai-vos desta liberdade, aquela que Jesus oferece». [68]

 

  1. Olha os braços abertos de Cristo crucificado, deixa-te salvar uma e outra vez. E quando te aproximares para confessar os teus pecados, crê firmemente na sua misericórdia, que te liberta da culpa. Contempla o seu sangue derramado com tanto carinho e deixa-te purificar por ele. Assim poderás renascer, uma e outra vez.

 

 

Ele vive!

 

  1. Há ainda uma terceira verdade, que é inseparável da anterior: Ele vive! Devemos voltar a recordá-lo com frequência, pois corremos o risco de tomar Jesus Cristo apenas como um bom exemplo do passado, como uma recordação, como alguém que nos salvou há dois mil anos. Isso não nos serviria de nada, deixar-nos-ia iguais, não nos libertaria. Aquele que nos enche com a sua graça, aquele que nos liberta, aquele que nos transforma, aquele que nos cura e nos consola é alguém que vive. É Cristo ressuscitado, cheio de vitalidade sobrenatural, vestido de uma luz infinita. Por isso dizia São Paulo: «Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé» (1Cor 15,17).

 

  1. Se Ele vive, então sim, poderá estar presente na tua vida, a cada momento, para enchê-la de luz. Assim, nunca mais haverá solidão nem abandono. Mesmo que todos se vão embora, Ele estará, tal como prometeu: «Eu estou convosco todos os dias, até ao fim dos tempos» (Mt 28,20). Ele enche tudo com a sua presença invisível, e onde quer que tu vás, Ele estará à tua espera. Porque Ele não só veio, mas vem e continuará a vir em cada dia, para te convidar a caminhar até um horizonte sempre novo.

 

  1. Contempla Jesus feliz, transbordante de júbilo. Alegra-te com o teu Amigo que triunfou. Mataram o santo, o justo, o inocente, mas Ele venceu. O mal não tem a última palavra. Na tua vida, o mal também não terá a última palavra, porque o teu Amigo, que te ama, quer triunfar em ti. O teu salvador vive.

 

  1. Se Ele vive, isso é uma garantia de que o bem se pode tornar caminho na nossa vida, e de que as nossas fadigas servirão para alguma coisa. Então podemos deixar as lamentações e olhar para a frente, porque com Ele é sempre possível. É essa a segurança que temos. Jesus é o eterno vivente. Agarrados a Ele, viveremos e atravessaremos todas as formas de morte e de violência que nos espreitam no caminho.

 

  1. Qualquer outra solução será débil e passageira. Talvez sirva para alguma coisa durante um tempo, mas de novo nos encontraremos desprotegidos, abandonados, expostos à intempérie. Com Ele, pelo contrário, o coração está arraigado a uma segurança básica, que permanece para lá de tudo o resto. Diz São Paulo que quer estar unido a Cristo para «conhecer o poder da sua ressurreição» (Fl 3,10). É o poder que também se manifestará, uma e outra vez, na tua existência, porque Ele veio para te dar vida, «e vida em abundância» (Jo 10,10).

 

  1. Se conseguires apreciar, com o coração, a beleza deste anúncio e te deixares encontrar pelo Senhor, se te deixares amar e salvar por Ele, se travares amizade com Ele e começares a conversar com Cristo vivo sobre as coisas concretas da tua vida, será essa a grande experiência, será essa a experiência fundamental que sustentará a tua vida cristã. Essa é também a experiência que poderás comunicar a outros jovens. Porque «não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou por uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que confere um novo horizonte e, com Ele, uma orientação decisiva para a vida». [69]

 

 

O Espírito dá vida

 

  1. Nestas três verdades – Deus ama-te, Cristo é o teu salvador, Ele vive – aparece Deus Pai e também aparece Jesus. Onde estão o Pai e Jesus Cristo, também está o Espírito Santo. É Ele que está por detrás, é Ele que prepara e abre os corações para que recebam esse anúncio, é Ele que mantém viva essa experiência de salvação, será Ele que te ajudará a crescer nessa alegria, se o deixares atuar. O Espírito Santo enche o coração de Cristo ressuscitado e, a partir daí, derrama-se na tua vida como um manancial. E quando tu o recebes, o Espírito Santo faz-te penetrar cada vez mais no coração de Cristo, para que te enchas cada vez mais do seu amor, da sua luz e da sua força.

 

  1. 131. Invoca em cada dia o Espírito Santo, para que renove constantemente em ti a experiência do grande anúncio. Porque não? Não perdes nada, e Ele pode mudar a tua vida, pode iluminá-la e dar-lhe um rumo melhor. Não te mutila, não te tira nada, mas ajuda-te a encontrar, da melhor maneira, aquilo de que precisas. Precisas de amor? Não o encontrarás no desenfreamento, usando os outros, possuindo os outros ou dominando-os. Achá-lo-ás de uma maneira que te fará verdadei-ramente feliz. Procuras intensidade? Não a viverás acumulando objetos, gastando dinheiro, correndo, desesperado, atrás de coisas deste mundo. Chegar-te-á de uma forma muito mais bela e satisfatória se te deixares impulsionar pelo Espírito Santo.

 

  1. Procuras paixão? Como diz aquele belo poema: Enamora-te! (ou deixa-te enamorar), porque «nada pode ser mais importante do que encontrar Deus. Quer dizer, enamorar-se dele de uma forma definitiva e absoluta. Aquilo de que tu te enamoras prende a tua imaginação e acaba por ir deixando a sua marca em tudo. Será isso que decidirá aquilo que te tira da cama de manhã, aquilo que fazes ao anoitecer, em que empregas os teus fins de semana, aquilo que lês, que conheces, que parte o teu coração e que o faz transbordar de alegria e a gratidão. Enamora-te! Permanece no amor! E tudo será diferente». [70] Este amor a Deus, que abraça com paixão a vida inteira, é possível graças ao Espírito Santo, porque «o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rm 5,5).

 

  1. Ele é o manancial da melhor juventude. Porque aquele que confia no Senhor é «como árvore plantada perto da água, que estende as raízes para a corrente; não teme quando vem o calor, e a sua folhagem fica sempre verdejante» (Jr 17,8). Enquanto «os jovens se cansam e se fatigam» (Is 40,30), aos que esperam, confiantes, no Senhor, «Ele renovará as suas forças, terão asas como a água, correrão sem se fatigar e caminharão sem desfalecer» (Is 40,31).

 

 

 

Capítulo Quinto

 

caminhos de juventude

 

 

 

  1. Como se vive a juventude quando nos deixamos iluminar e transformar pelo grande anúncio do Evangelho? É importante interrogarmo-nos sobre isto, porque a juventude, mais do que um orgulho, é um presente de Deus: «Ser jovem é uma graça, uma fortuna». [71] É um dom que podemos desbaratar inutilmente, ou então que podemos receber agradecidos e vivê-lo em plenitude.

 

  1. Deus é o autor da juventude e atua em cada jovem. A juventude é um tempo abençoado para o jovem e uma bênção para a Igreja e para o mundo. É uma alegria, um cântico de esperança e uma bem-aventurança. Apreciar a juventude implica ver esse período da vida como um momento valioso e não como uma etapa de passagem onde os jovens se sentem empurrados para a idade adulta.

 

 

Tempo de sonhos e de escolhas

 

  1. Na época de Jesus, a saída da infância era uma passagem sumamente esperada na vida, que se celebrava e se desfrutava bastante. Daí que Jesus, quando devolveu a vida a uma «criança» (Mc 5,39), fez-lhe dar um passo em frente, promoveu-a, convertendo-a em «menina» (Mc 5,41). Ao mesmo tempo que lhe dizia «menina, levanta-te!» (talitá kum), tornou-a mais responsável pela sua vida, abrindo-lhe as portas da juventude.

 

  1. «A juventude, fase do desenvolvimento da personalidade, caracteriza-se por sonhos que vão tomando corpo, por relações que adquirem cada vez mais consistência e equilíbrio, por propósitos e experiências, por escolhas que vão construindo gradualmente um projeto de vida. Neste período da vida, os jovens são chamados a projetar-se para a frente sem cortarem as suas raízes, a construir autonomia, mas não na solidão». [72]

 

  1. O amor de Deus e a nossa relação com Cristo vivo não nos privam de sonhar, não nos exigem que reduzamos os nossos horizontes. Pelo contrário, esse amor

promove-nos, estimula-nos, lança-nos para uma vida melhor e mais bela. A palavra «inquietação» resume muitas das buscas dos corações dos jovens. Como dizia São Paulo VI, «nas insatisfações que os atormentam […] há, precisamente, um elemento de luz». [73] A inquietação insatisfeita, juntamente com o assombro pelo novo que se delineia no horizonte, abre passagem à ousadia que os leva a assumirem-se a si mesmos, a tornarem-se responsáveis por uma missão. Esta sã inquietação que desperta de modo especial na juventude continua a ser a característica de qualquer coração que se mantém jovem, disponível, aberto. A verdadeira paz interior convive com essa profunda insatisfação. Dizia Santo Agostinho: «Senhor, Tu nos criaste para ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não descansa em ti». [74]

 

  1. Há tempos, um amigo perguntou-me o que vejo quando penso num jovem. A minha resposta foi que «vejo um rapaz ou uma rapariga que procura o seu próprio caminho, que quer voar com os pés, que assoma sobre o mundo e olha o horizonte com os olhos cheios de esperança, cheios de futuro e também de ilusões. O jovem caminha com dois pés, como os adultos, mas, ao contrário dos adultos, que os mantêm paralelos, põe um à frente do outro, disposto a ir, a partir. Olhando sempre em frente. Falar de jovens significa falar de promessas e também significa falar de alegria. Os jovens têm muita força, são capazes de olhar com muita esperança. Um jovem é uma promessa de vida que tem incorporado um certo grau de tenacidade; tem loucura suficiente para se poder enganar a si próprio e capacidade suficiente para se poder curar da desilusão que daí possa derivar». [75]

 

  1. Alguns jovens talvez rejeitem essa etapa da vida, porque gostariam de continuar a ser crianças, ou talvez desejem «um prolongamento indefinido da adolescência e o adiamento das decisões; o medo do definitivo gera assim uma espécie de paralisia na tomada de decisões. A juventude, porém, não pode ser um tempo em suspenso: é a idade das decisões e precisamente nisso consiste a sua atração e o seu principal papel. Os jovens tomam decisões no âmbito profissional, social, político e outras mais radicais, que imprimirão uma configuração determinante à sua existência». [76] Também tomam decisões relativamente ao amor, à escolha do seu par e na opção de ter os primeiros filhos. Aprofundaremos estes temas nos últimos capítulos, sobre a vocação de cada um e o seu discernimento.

 

  1. No entanto, contrapondo-se aos sonhos que mobilizam decisões, «existe sempre a ameaça do lamento, da resignação. Deixamos isso para aqueles que seguem a “deusa lamentação” […]. É um engano: faz-te tomar o caminho errado. Quando tudo parece paralisado e estagnado, quando os problemas pessoais nos inquietam, os mal-estares sociais não encontram as devidas respostas, não é bom dar-se por vencido. O caminho é Jesus: fazê-lo subir para a nossa barca e remar mar adentro com ele. Ele é o Senhor! Ele muda a perspetiva da vida. A fé em Jesus conduz a uma esperança que vai mais longe, a uma certeza fundada não só nas nossas qualidades e aptidões, mas na Palavra de Deus, no convite que vem dele. Sem fazermos demasiados cálculos humanos nem nos preocuparmos em verificar se a realidade que vos rodeia coincide com as vossas seguranças. Remai mar adentro, saí de vós mesmos». [77]

 

  1. Devemos perseverar no caminho dos sonhos. Para isso, devemos estar atentos a uma tentação que nos costuma passar uma rasteira: a ansiedade. Pode ser uma grande inimiga quando nos leva a baixar os braços porque descobrimos que os resultados não são imediatos. Os sonhos mais belos conquistam-se com esperança, paciência e empenho, renunciando às pressas. Ao mesmo tempo, não nos devemos deter por insegurança, não devemos ter medo de apostar nem de cometer erros. Devemos ter medo, isso sim, de viver paralisados, como mortos ainda em vida, convertidos em seres que não vivem porque não querem arriscar, porque não perseveram nos seus compromissos ou porque têm medo de se equivocar. Mesmo que te equivoques poderás sempre levantar a cabeça e começar de novo, porque ninguém tem o direito de te roubar a esperança.

 

  1. Jovens, não renuncieis ao melhor da vossa juventude, não observeis a vida de uma varanda. Não confundais a felicidade com um sofá nem passeis toda a vossa vida diante de um ecrã. Tampouco vos deveis converter no triste espetáculo de um veículo abandonado. Não sejais automóveis estacionados, pelo contrário, deixai brotar os sonhos e tomai decisões. Arriscai, mesmo que vos equivoqueis. Não sobrevivais com a alma anestesiada nem olheis o mundo como se fôsseis turistas. Fazei barulho! Deitai fora os medos que vos paralisam, para que não vos convertais em jovens mumificados. Vivei! Entregai-vos ao melhor da vida! Abri a porta da gaiola e saí a voar! Por favor, não vos aposenteis antes de tempo.

 

 

A vontade de viver e de experimentar

 

  1. Esta projeção no futuro sonhado não significa que os jovens estejam completamente lançados para a frente, porque, ao mesmo tempo, há neles um forte desejo de viver o presente, de aproveitar ao máximo as possibilidades que esta vida lhes oferece. Este mundo está repleto de beleza! Como se poderiam desprezar os presentes de Deus?

 

  1. Contrariamente ao que muitos pensam, o Senhor não quer debilitar esta vontade de viver. É saudável recordar aquilo que ensinava um sábio do Antigo Testamento: «Meu filho, se tens com quê, trata-te bem […]. Não te prives da felicidade presente» (Sir 14,11.14). O verdadeiro Deus, aquele que te ama, quer-te feliz. Por isso, também encontramos na Bíblia este conselho dirigido aos jovens: «Jovem, regozija-te na tua mocidade e alegra o teu coração na flor dos teus anos […]. Lança fora do teu coração a tristeza» (Ecl 11,9-10). Porque é Deus que «nos dá tudo com abundância para nosso usufruto» (1Tm 6,17).

 

  1. Como poderá ser agradecido para com Deus alguém que não é capaz de desfrutar dos seus pequenos presentes de cada dia, alguém que não se sabe deter diante das coisas simples e agradáveis que encontra a cada passo? Porque «não há pior do que aquele que se tortura a si mesmo» (Sir 14,6). Não se trata de ser um insaciável que está sempre obcecado por mais e mais prazeres. Pelo contrário, porque isso te impedirá de viver o presente. A questão é saber abrir os olhos e deteres-te para viver plenamente e com gratidão cada pequeno dom da vida.

 

  1. É óbvio que a Palavra de Deus te convida a viver o presente e não só a preparar o amanhã: «Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã já terá as suas preocupações. Basta a cada dia o seu problema.» (Mt 6,34). Isto, porém, não se refere a lançarmo-nos num desenfreamento irresponsável, que nos deixa vazios e sempre insatisfeitos, mas a viver o presente em plenitude, utilizando as energias para coisas boas, cultivando a fraternidade, seguindo Jesus e valorizando cada pequena alegria da vida como um presente do amor de Deus.

 

  1. Neste sentido, quero recordar que o cardeal Francisco Xavier Nguyên Van Thuân, quando o encerraram num campo de concentração, não quis que os seus dias consistissem apenas em esperar e esperar um futuro. A sua opção foi «viver o momento presente enchendo-o de amor»; e o modo como o punha em prática era: «Aproveito as ocasiões que se apresentam em cada dia para realizar atos ordinários de forma extraordinária». [78] Enquanto lutas para dar forma aos teus sonhos, vive plenamente o hoje, entrega-lhe tudo e enche cada momento de amor. Porque é verdade que este dia da tua juventude pode ser o último, e então vale a pena vivê-lo com toda a garra e com toda a profundidade possível.

 

  1. Isto também inclui os momentos duros, que devem ser vividos a fundo para chegar a aprender a sua mensagem. Como ensinam os Bispos suíços: «Ele está ali onde nós pensávamos que nos tinha abandonado e que já não havia salvação alguma. É um paradoxo, mas o sofrimento e as trevas têm-se convertido para muitos cristãos […] em lugares de encontro com Deus». [79] Além disso, o desejo de viver e de experimentar refere-se de modo especial a muitos jovens em condições de incapacidade física, mental e sensorial. Inclusive, mesmo que nem sempre possam fazer as mesmas experiências que os seus companheiros, dispõem de recursos surpreendentes e inimagináveis, que por vezes superam os comuns. O Senhor Jesus enche-os de outros dons, que a comunidade é chamada a valorizar, para que possam descobrir o seu plano de amor para cada um deles.

 

 

Em amizade com Cristo

 

  1. Por mais que tu vivas e experimentes, não chegarás ao fundo da juventude, não conhecerás a verdadeira plenitude de ser jovem, se não encontras em cada dia o grande amigo, se não vives em amizade com Jesus.

 

  1. A amizade é um presente da vida e um dom de Deus. Através dos amigos o Senhor vai-nos polindo e fazendo amadurecer. Ao mesmo tempo, os amigos fiéis que permanecem ao nosso lado nos momentos duros são um reflexo do carinho do Senhor, da sua consolação e da sua amável presença. Ter amigos ensina-nos a abrir-nos, a compreender, a cuidar de outros, a sair da nossa comodidade e do isolamento, a partilhar a vida. Por isso «um amigo fiel não tem preço» (Sir 6,15).

 

  1. A amizade não é uma relação fugaz ou passageira, mas estável, firme, fiel, que amadurece com o passar do tempo. É uma relação de afeto que nos faz sentir unidos e, ao mesmo tempo, é um amor generoso, que nos leva a procurar o bem do amigo. Embora os amigos possam ser muito diferentes entre si, há sempre algumas coisas em comum que os levam a sentir-se próximos e há uma intimidade que se partilha com sinceridade e confiança.

 

  1. É tão importante a amizade que o próprio Jesus se apresenta como amigo: «Já não vos chamo servos, mas amigos» (Jo 15,15). Pela graça que Ele nos oferece, somos de tal maneira elevados que nos tornamos realmente seus amigos. Com o mesmo amor que Ele derrama em nós podemos amá-lo, levando o seu amor aos outros, com a esperança de que também eles encontrem o seu lugar na comunhão de amizade fundada por Jesus Cristo. [80] E embora Ele já seja plenamente feliz, ressuscitado, é possível ser generosos com Ele, ajudando-o a construir o seu Reino neste mundo, sendo seus instrumentos para levar a sua mensagem e a sua luz e, sobretudo, o seu amor aos outros (cf. Jo 15,16). Os discípulos escutaram o chamamento de Jesus à amizade com Ele. Foi um convite que não os forçou, mas que foi delicadamente proposto à sua liberdade: «Vinde e vereis», disse-lhes Jesus, e «eles foram, viram onde morava e ficaram com Ele nesse dia» (Jo 1,39). Depois desse encontro, íntimo e inesperado, deixaram tudo e foram com Ele.

 

  1. A amizade com Jesus é inquebrantável. Ele nunca se afasta, embora por vezes pareça que faz silêncio. Quando precisamos dele, deixa-se encontrar por nós (cf. Jr 29,14) e está ao nosso lado para onde quer que formos (cf. Js 1,9). Porque Ele nunca quebra a sua aliança.

A nós, pede-nos que não o abandonemos: «Permanecei em mim» (Jo 15,4). Todavia, se nós nos afastamos, «Ele permanecerá fiel, pois não se pode negar a si mesmo» (2Tm 2,13).

 

  1. Com o amigo falamos, partilhamos as coisas mais secretas. Com Jesus também conversamos. A oração é um desafio e uma aventura. E que aventura! Permite que o conheçamos cada vez melhor, que entremos na sua densidade e que cresçamos numa união cada vez mais forte. A oração permite-nos contar-lhe tudo o que nos acontece e ficarmos, confiantes, nos seus braços, e, ao mesmo tempo, oferece-nos instantes de preciosa intimidade e afeto, em que Jesus derrama em nós a sua própria vida. Rezando, «abrimos-lhe o jogo» a Ele, damos-lhe lugar «para que Ele possa agir, possa entrar e possa vencer». [81]

 

  1. Assim é possível chegar a experimentar uma unidade constante com Ele, que supera tudo o que possamos viver com outras pessoas: «Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim» (Gl 2,20). Não prives a tua juventude desta amizade. Poderás senti-lo a teu lado, não só quando orares. Reconhecerás que Ele caminha contigo a cada momento. Tenta descobri-lo e viverás a bela experiência de saberes que estás sempre acompanhado. Foi o que viveram os discípulos de Emaús quando, enquanto caminhavam e conversavam, desorientados, Jesus se fez presente e «se pôs a caminho com eles» (Lc 24,15). Dizia certo santo que «o Cristianismo não é um conjunto de verdades em que devemos crer, de leis que devemos cumprir ou de proibições. Isso torna-se muito repugnante. O Cristianismo é uma Pessoa que me amou tanto que reclama o meu amor. O Cristianismo é Cristo». [82]

 

  1. 157. Jesus é capaz de unir todos os jovens da Igreja num único sonho, «um sonho grande e um sonho capaz de acolher a todos. Esse sonho pelo qual Jesus deu a vida na cruz e o Espírito Santo foi derramado e tatuou a fogo o dia de Pentecostes no coração de cada homem e de cada mulher, no coração de cada um […]. Tatuou-o esperando que ele encontre espaço para crescer e para se desenvolver. Um sonho, um sonho chamado Jesus, semeado pelo Pai, Deus como Ele – como o Pai –, enviado pelo Pai com a confiança de que crescerá e viverá em cada coração. Um sonho concreto, que é uma pessoa, que corre nas nossas veias, que faz o coração estremecer e bailar». [83]

 

 

Crescimento e amadurecimento

 

  1. Muitos jovens preocupam-se com o seu corpo, procurando o desenvolvimento da força física ou da aparência. Outros inquietam-se, desejosos de desenvolver as suas capacidades e conhecimentos, sentindo-se assim mais seguros. Alguns apontam mais alto, tentam comprometer-se mais, procurando um desenvolvimento espiritual. Dizia São João: «Escrevo-vos, jovens, porque sois fortes, porque conservais a Palavra de Deus» (1Jo 2,14). Procurar o Senhor, guardar a sua Palavra, tentar responder-lhe com a própria vida, crescer nas virtudes, isso torna fortes os corações dos jovens. Para isso é necessário manter a ligação com Jesus, estar alinhados com Ele, visto que não crescerás em felicidade e santidade só pelas tuas forças e pela tua mente. Assim como te preocupa não perder a ligação à Internet, cuida que esteja ativa a tua ligação com o Senhor, e isso significa não cortar o diálogo, escutá-lo, contar-lhe as tuas coisas e, quando não souberes claramente que deverias fazer, perguntar-lhe: «Jesus, que farias Tu em meu lugar?» [84]

 

  1. Espero que possas valorizar-te tanto a ti mesmo, tomar-te tão a sério, que procures o teu crescimento espiritual. Além dos entusiasmos próprios da juventude, também há a beleza de procurar «a justiça, a fé, o amor e a paz» (2Tm 2,22). Isto não significa perder a espontaneidade, a frescura, o entusiasmo e a ternura. Porque tornar-se adulto não implica abandonar os melhores valores desta etapa da vida: «Recordo-me da tua fidelidade no tempo da tua juventude, dos amores do tempo do teu noivado, quando me seguias no deserto» (Jr 2,2).

 

  1. Por outro lado, até um adulto deve amadurecer, sem perder os valores da juventude. Porque, na realidade, cada etapa da vida é uma graça permanente, encerra um valor que não deve passar. Uma juventude bem vivida permanece como experiência interior e, na vida adulta, é assumida, é aprofundada e continua a dar frutos. Se é próprio do jovem sentir-se atraído pelo infinito que se abre e que começa [85], um risco da vida adulta, com as suas seguranças e comodidades, é delimitar cada vez mais esse horizonte e perder esse valor próprio dos anos jovens. Mas deveria suceder o contrário: amadurecer, crescer e organizar a própria vida sem perder essa atração, essa abertura ampla, esse fascínio por uma realidade que é sempre mais. Em cada momento da vida poderemos renovar e acrescentar a juventude. Quando iniciei o meu ministério como Papa, o Senhor ampliou-me os horizontes e ofereceu-me uma juventude renovada. O mesmo pode suceder a um casamento de muitos anos ou a um monge no seu mosteiro. Há coisas que precisam de «assentar» com os anos, mas esse amadurecimento pode conviver com um fogo que se renova, com um coração sempre jovem.

 

  1. Crescer é conservar e alimentar as coisas mais preciosas que a juventude te oferece, mas, ao mesmo tempo, é estar aberto a purificar aquilo que não é bom e a receber novos dons de Deus, que te chama a desenvolver aquilo que tem valor. Por vezes, os complexos de inferioridade podem levar-te a não querer ver os teus defeitos e debilidades e, desse modo, podes fechar-te ao crescimento e ao amadurecimento. É preferível deixares-te amar por Deus, que te ama tal como és, que te valoriza e respeita, mas que também te oferece mais e mais: mais da sua amizade, mais fervor na oração, mais fome da sua Palavra, mais desejos de receber Cristo na Eucaristia, mais vontade de viver o seu Evangelho, mais fortaleza interior, mais paz e alegria espiritual.

 

  1. Recordo-te, porém, que não serás santo nem completo copiando outros. Nem sequer imitar os santos significa copiar a sua maneira de ser e de viver a santidade: «Há testemunhos que são úteis para nos estimular e motivar, mas não para que os tentemos copiar, porque isso até nos poderia afastar do caminho único e diferente que o Senhor tem para nós». [86] Tu tens de descobrir quem és e de desenvolver a tua forma própria de ser santo, para lá daquilo que disserem e opinarem os demais. Chegar a ser santo é chegar a ser mais plenamente tu próprio, a ser esse que Deus quis sonhar e criar, não uma fotocópia. A tua vida deve ser um estímulo profético, que impulsione outros, que deixe uma marca neste mundo, essa marca única que só tu poderás deixar. Pelo contrário, se copiares, privarás esta terra, e também o céu, daquilo que mais ninguém além de ti poderá oferecer. Recordo que São João da Cruz, no seu Cântico Espiritual, escrevia que cada um devia aproveitar os seus conselhos espirituais «a seu modo» [87], porque o próprio Deus quis manifestar a sua graça «a uns de uma maneira e a outros de outra». [88]

 

 

Sendas de fraternidade

 

  1. O teu desenvolvimento espiritual manifesta-se, antes de mais, crescendo no amor fraterno, generoso, misericordioso. Dizia-o São Paulo: «O Senhor vos faça crescer e superabundar de caridade uns para com os outros e para com todos» (1Ts 3,12). Oxalá vivas cada vez mais esse «êxtase» que é sair de ti mesmo para procurar o bem dos outros, até dar a vida.

 

  1. Quando um encontro com Deus se chama «êxtase» é porque nos arranca de nós mesmos e nos eleva, cativados pelo amor e pela beleza de Deus. Mas também podemos ser arrancados de nós mesmos para reconhecer a beleza oculta em cada ser humano, a sua dignidade, a sua grandeza como imagem de Deus e filho do Pai. O Espírito Santo quer impelir-nos para que nós saiamos de nós mesmos, abracemos os outros com amor e procuremos o seu bem. Portanto, é sempre melhor viver a fé juntos e expressar o nosso amor numa vida comunitária, partilhando com outros jovens o nosso afeto, o nosso tempo, a nossa fé e as nossas inquietações. A Igreja oferece muitos espaços diferentes para viver a fé em comunidade, porque tudo é mais fácil juntos.

 

  1. As feridas recebidas podem levar-te à tentação do isolamento, a dobrares-te sobre ti mesmo, a acumular rancores, mas nunca deixes de escutar o chamamento de Deus ao perdão. Como bem ensinaram os Bispos do Ruanda, «a reconciliação com o outro requer, antes de mais, que se descubra nele o esplendor da imagem de Deus […]. Nesta perspetiva, é vital distinguir o pecador do seu pecado e da sua ofensa, para chegar à verdadeira reconciliação. Isto significa que deves odiar o mal que o outro te inflige, mas que continues a amá-lo porque reconheces a sua debilidade e vês a imagem de Deus nele». [89]

 

  1. Por vezes, toda a energia, os sonhos e o entusiasmo da juventude debilitam-se pela tentação de nos encerrarmos em nós mesmos, nos nossos problemas, sentimentos feridos, lamentações e comodidades. Não deixes que isso te aconteça, porque te tornarás velho por dentro e antes de tempo. Cada idade tem a sua formosura, e à juventude não podem faltar a utopia comunitária, a capacidade de sonhar unidos, os grandes horizontes que olhamos juntos.

 

  1. Deus ama a alegria dos jovens e convida-os de modo especial a essa alegria que se vive em comunhão fraterna, a esse gozo superior daquele que sabe partilhar, porque «a felicidade está mais em dar do que em receber» (At 20,35) e «Deus ama quem dá com alegria» (2Cor 9,7). O amor fraterno multiplica a nossa capacidade de gozo, visto que nos torna capazes de nos alegrarmos com o bem dos outros: «Alegrai-vos com os que se alegram» (Rm 12,15). Que a espontaneidade e o impulso da tua juventude se convertam cada dia mais na espontaneidade do amor fraterno, na frescura para reagir sempre com perdão, com generosidade, com vontade de construir comunidade. Diz um provérbio africano: «Se queres andar depressa, caminha sozinho. Se queres chegar longe, caminha com os outros.» Não deixemos que nos roubem a fraternidade.

 

 

Jovens comprometidos

 

  1. É verdade que às vezes, frente a um mundo tão cheio de violência e de egoísmo, os jovens podem correr o risco de se encerrarem em pequenos grupos, privando-se assim dos desafios da vida em sociedade, de um mundo vasto, desafiante e necessitado. Sentem que vivem o amor fraterno, mas talvez o seu grupo se tenha convertido num mero prolongamento do seu eu. Isto agrava-se se a vocação do leigo for concebida apenas como um serviço no interior da Igreja (leitores, acólitos, catequistas, etc.), esquecendo que a vocação laical é, sobretudo, a caridade na família, a caridade social e a caridade política: é um compromisso concreto a partir da fé para a construção de uma sociedade nova, é viver no meio do mundo e da sociedade para evangelizar as suas diversas instâncias, para fazer crescer a paz, a convivência, a justiça, os direitos humanos, a misericórdia e, assim, estender o Reino de Deus no mundo.

 

  1. Proponho aos jovens irem além dos grupos de amigos e construírem a «amizade social, procurarem o bem comum. A inimizade social destrói. E uma família destrói-se pela inimizade. Um país destrói-se pela inimizade. O mundo destrói-se pela inimizade. E a maior inimizade é a guerra. Ora, hoje em dia, vemos que o mundo se está a destruir pela guerra. Porque as pessoas são incapazes de se sentar e de falar […]. Sede capazes de criar a amizade social». [90] Não é fácil, é sempre necessário renunciar a alguma coisa, é necessário negociar, mas se o fizermos pensando no bem de todos poderemos chegar à experiência magnífica de pôr de lado as diferenças para lutarmos juntos por qualquer coisa comum. Se conseguimos procurar pontos de coincidência no meio de muitas dissidências, nesse empenho artesanal e por vezes difícil de estender pontes, de construir uma paz que seja boa para todos, é esse o milagre da cultura do encontro que os jovens podem atrever-se a viver com paixão.

 

  1. O Sínodo reconheceu que, «embora de forma diferente em relação às gerações passadas, o compromisso social é uma característica específica dos jovens de hoje. Ao lado de alguns indiferentes, há muitos outros dispostos a comprometer-se em iniciativas de voluntariado, de cidadania ativa e de solidariedade social, que devem ser acompanhados e animados para que brotem os talentos, as competências e a criatividade dos jovens e para incentivar que assumam responsabilidades. O compromisso social e o contacto direto com os pobres continuam a ser uma ocasião fundamental para descobrir ou aprofundar a fé e discernir a própria vocação […]. Foi também referida a disponibilidade para o compromisso no campo político, em prol da construção do bem comum». [91]

 

  1. Hoje, graças a Deus, os grupos de jovens em paróquias, colégios, movimentos ou grupos universitários costumam sair para acompanhar idosos e doentes, ou visitam bairros pobres, ou saem juntos para ajudar os indigentes nas chamadas «noites da caridade». É frequente eles reconhecerem que nessas missões é mais o que recebem do que aquilo que dão, porque as pessoas aprendem e amadurecem muito quando se atrevem a entrar em contacto com o sofrimento dos outros. Além disso, nos pobres há uma sabedoria oculta, e eles, com palavras simples, podem ajudar-nos a descobrir valores que nós não vemos.

 

  1. Outros jovens participam em programas sociais orientados para a construção de casas para os que não têm teto, ou para o saneamento de lugares contaminados, ou para a recolha de ajudas para os mais necessitados. Seria bom que essa energia comunitária se aplicasse não só a ações esporádicas, mas de uma forma estável, com objetivos claros e uma boa organização, que ajude a levar a cabo uma obra mais continuada e eficiente. Os universitários podem unir-se de maneira interdisciplinar para aplicar o seu saber à resolução de problemas sociais e, nessa missão, podem trabalhar lado a lado com jovens de outras Igrejas ou de outras religiões.

 

  1. Como no milagre de Jesus, os pães e os peixes dos jovens podem multiplicar-se (cf. Jo 6,4-13). Tal como na parábola, as pequenas sementes dos jovens convertem-se em árvore e colheita (cf. Mt 13,23.31-32). Tudo isso, a partir da fonte viva da Eucaristia, na qual o nosso pão e o nosso vinho se transfiguram para nos dar Vida eterna. Pede-se aos jovens uma tarefa imensa e difícil. Com a fé no Ressuscitado, poderão enfrentá-la com criatividade e esperança, e colocando-se sempre no lugar do serviço, como os servos daquela boda, surpreendidos colaboradores do primeiro sinal de Jesus, que apenas seguiram a recomendação da sua Mãe: «Fazei o que Ele vos disser» (Jo 2,5). Misericórdia, criatividade e esperança fazem crescer a vida.

 

  1. Quero animar-te a este compromisso, pois sei que «o teu coração, coração jovem, quer construir um mundo melhor. Sigo as notícias do mundo e vejo que tantos jovens, em muitas partes do Globo, têm saído para as ruas para manifestar o desejo de uma civilização mais justa e fraterna. Os jovens na rua. São jovens que querem ser protagonistas da mudança. Por favor, não deixeis que outros sejam os protagonistas da mudança. Sois vós que tendes o futuro. Peço-vos que também vós sejais protagonistas desta mudança. Continuai a superar a apatia e a oferecer uma resposta cristã às inquietações sociais e políticas que se vão tornando patentes em diversas partes do mundo. Peço-vos que sejais construtores do futuro, que deiteis mãos ao trabalho por um mundo melhor. Queridos jovens, por favor, não vejam a vida da varanda, entrem nela. Jesus não ficou à varanda, entrou na vida; não olhem da varanda para a vida, metam-se nela, como fez Jesus». [92] Mas sobretudo, de uma forma ou de outra, sede lutadores pelo bem comum, sede servidores dos pobres, sede protagonistas da revolução da caridade e do serviço, capazes de resistir às patologias do individualismo consumista e superficial.

 

 

Missionários valentes

 

  1. Enamorados de Cristo, os jovens são chamados a dar testemunho do Evangelho em toda a parte, com a sua própria vida. Dizia Santo Alberto Hurtado que «ser apóstolos não significa usar uma insígnia na lapela do casaco, não significa falar da verdade, mas vivê-la, encarnar nela, transformar-se em Cristo. Ser apóstolo não é levar um archote na mão, possuir a luz, mas ser a luz […]. O Evangelho, mais que uma lição, é um exemplo. A mensagem convertida em vida vivente». [93]

 

  1. O valor do testemunho não significa que se deva calar a palavra. Porque não falar de Jesus, porque não contar aos outros que Ele nos dá forças para viver, que é bom conversar com Ele, que nos faz bem meditar as suas palavras? Jovens, não deixeis que o mundo vos arraste para partilhar apenas as coisas más ou superficiais. Tornai-vos capazes de ir contra a corrente e partilhai Jesus, comunicai a fé que Ele vos ofereceu. Oxalá possais sentir no coração o mesmo impulso irresistível que movia São Paulo, quando dizia: «Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!» (1Cor 9,16).

 

  1. «Onde nos envia Jesus? Não há fronteiras, não há limites: Ele envia-nos a todos. O Evangelho não é para alguns, mas para todos. Não é apenas para os que nos parecem mais próximos, mais recetivos, mais acolhedores. É para todos. Não tenhais medo de ir e levar Cristo a qualquer ambiente, até às periferias existenciais, inclusive a quem parece mais distante, mais indiferente. O Senhor procura a todos, quer que todos sintam o calor da sua misericórdia e do seu amor». [94] E convida-nos a ir sem medo com o anúncio missionário onde quer que nos encontremos e com quem estivermos, no bairro, no estúdio, no desporto, nas saídas com os amigos, no voluntariado ou no trabalho, é sempre bom e oportuno partilhar a alegria do Evangelho. É assim que o Senhor se vai aproximando de todos. E a vós, jovens, quer-vos como seus instrumentos para derramar luz e esperança, porque quer contar com a vossa valentia, frescura e entusiasmo.

 

  1. Não se deve esperar que a missão seja fácil e cómoda. Alguns jovens deram a vida para não travar o seu impulso missionário. Assim se expressaram os Bispos da Coreia: «Esperamos poder ser grãos de trigo e instrumentos para a salvação da humanidade, seguindo o exemplo dos mártires. Mesmo que a nossa fé seja tão pequena como uma semente de mostarda, Deus fá-la-á crescer e utilizá-la-á como instrumento para a sua obra de salvação». [95] Amigos, não espereis por amanhã para colaborar na transformação do mundo com a vossa energia, audácia e criatividade. A vossa vida não é um “entretanto”. Vós sois o agora de Deus, que vos quer fecundos. [96] Porque «é dando que se recebe», [97] e a melhor maneira de preparar um bom futuro é viver bem o presente, com entrega e generosidade.

 

 

 

Capítulo Sexto

 

jovens com raízes

 

 

 

  1. Tenho visto, por vezes, árvores jovens, belas, que elevavam os seus ramos para o céu, procurando sempre mais e parecendo um campo de esperança. Mais adiante, depois de uma tempestade, encontrei-as caídas, sem vida. Porque tinham poucas raízes, tinham estendido os seus ramos sem se enraizarem bem na terra, e assim sucumbiram frente aos embates da natureza. Por isso me dói ver que alguns proponham aos jovens construir um futuro sem raízes, como se o mundo começasse agora. Porque «é impossível que alguém cresça se não tiver raízes fortes que o ajudem a estar bem preso e agarrado à terra. É fácil “sumir-se no ar” quando não há onde agarrar-se, onde apoiar-se». [98]

 

 

Que não te arranquem da terra

 

  1. Esta não é uma questão secundária, e parece-me bem dedicar-lhe um breve capítulo. Compreender isto permite distinguir a alegria da juventude de um falso culto à juventude que alguns utilizam para seduzir os jovens e utilizá-los para os seus fins.

 

  1. Pensem nisto: se uma pessoa vos fizer uma proposta pedindo-vos que ignoreis a história, que desprezeis todo o passado e que só olheis o futuro que ela vos oferece, não será uma forma fácil de vos apanhar com essa proposta para que façais o que ela vos disser? Essa pessoa precisa que estejais vazios, desenraizados, desconfiados de tudo, para que só confieis nas suas promessas e vos submetais aos seus planos. Assim funcionam as ideologias de diversas cores, que destroem (ou des-constroem) tudo o que seja diferente e, desse modo, podem impor-se sem oposição. Para isto precisam de jovens que desprezem a história, que rejeitem a riqueza espiritual e humana que se foi transmitindo ao longo das gerações, que façam por ignorar tudo aquilo que os precedeu.

 

  1. Ao mesmo tempo, os manipuladores utilizam outro recurso: uma adoração da juventude, como se tudo o que não seja jovem se convertesse numa coisa detestável e caduca. O corpo jovem torna-se o símbolo deste novo culto, e, então, tudo o que tiver que ver com esse corpo é idolatrado e desejado sem limites, e o que não for jovem é olhado com desprezo. Contudo, é uma arma que em primeiro lugar acaba por degradar os jovens, os esvazia de valores reais e os utiliza para serem obtidos benefícios pessoais, económicos ou políticos.

 

  1. Queridos jovens, não aceiteis que usem a vossa juventude para fomentar uma vida superficial, que confunde a beleza com a aparência. Saibam antes descobrir que há formosura no trabalhador que volta a casa sujo e desalinhado, mas com a alegria de ter ganhado o pão dos seus filhos. Há uma beleza extraordinária na comunhão da família à volta da mesa e do pão partilhado com generosidade, mesmo que a mesa seja muito pobre. Há formosura na esposa despenteada e envelhecida, que continua a cuidar do seu esposo doente, sem olhar às suas forças e à sua própria saúde. Mesmo tendo passado a primavera do noivado, há formosura na fidelidade dos casais que se amam no outono da vida, nesses velhinhos que caminham de mão dada. Há formosura, para lá da aparência ou da estética da moda, em cada homem e em cada mulher que vivem com amor a sua vocação pessoal, no serviço desinteressado em favor da comunidade ou da pátria, no trabalho generoso pela felicidade da família, empenhados no árduo trabalho anónimo e gratuito de restaurar a amizade social. Descobrir, mostrar e pôr em destaque esta beleza, que se assemelha à de Cristo na cruz, é colocar os alicerces da verdadeira solidariedade social e da cultura do encontro.

 

  1. Juntamente com as estratégias do falso culto da juventude e da aparência, hoje promove-se uma espiritualidade sem Deus, uma afetividade sem comunidade e sem compromisso com os que sofrem, um medo dos pobres, vistos como seres perigosos, e uma série de ofertas que pretendem fazer-vos crer num futuro paradisíaco que sempre se protelará para mais tarde. Não vos quero propor isso e, com todo o meu afeto, quero recomendar-vos que não vos deixeis dominar por esta ideologia que não vos tornará mais jovens, mas que vos converterá em escravos. Proponho-vos outro caminho, feito de liberdade, de entusiasmo, de criatividade, de novos horizontes, mas cultivando ao mesmo tempo essas raízes que alimentam e sustentam.

 

  1. Nesta linha, quero destacar que «numerosos Padres sinodais provenientes de contextos não-ocidentais referem que nos seus países a globalização implica autênticas formas de colonização cultural, que desenraízam os jovens da pertença às realidades culturais e religiosas das quais provêm. É necessário um compromisso da Igreja para acompanhá-los nesta passagem sem que percam os traços mais valiosos da sua identidade». [99]

 

  1. Hoje vemos uma tendência para «homogeneizar» os jovens, para dissolver as diferenças próprias do seu lugar de origem, para convertê-los em seres manipuláveis feitos em série. Assim se produz uma destruição cultural, que é tão grave como o desaparecimento das espécies animais e vegetais. [100] Por isso, numa mensagem dirigida a jovens indígenas, reunidos no Panamá, exortei-os a «cuidar das próprias raízes, porque das raízes vem a força que vos vai fazer crescer, florescer e frutificar». [101]

 

 

A tua relação com os idosos

 

  1. No Sínodo, referiu-se que «os jovens estão projetados para o futuro e enfrentam a vida com energia e dinamismo. No entanto, […] por vezes, prestam pouca atenção à memória do passado donde provêm, em particular aos numerosos dons que os seus pais e avós lhes transmitiram, à bagagem cultural da sociedade em que vivem. Ajudar os jovens a descobrir a riqueza viva do passado, fazendo memória e servindo-se deste para as próprias decisões e possibilidades, é um verdadeiro ato de amor para com eles, tendo em vista o seu crescimento e as decisões que deverão tomar». [102]

 

  1. A Palavra de Deus recomenda que não se perca o contacto com os idosos, para se poder aproveitar a sua experiência: «Frequenta a assembleia dos anciãos; se encontrares algum sábio, faz-te amigo dele […]. Se vires alguém sensato, madruga e vai ter com ele, e desgastem os teus pés o limiar da sua porta» (Sir 6,34.36). Seja como for, os longos anos que eles viveram e tudo o que passaram na vida devem levar-nos a olhá-los com respeito: «Levanta-te perante uma cabeça branca» (Lv 19,32). Porque «a força é a glória dos jovens, e a glória dos anciãos são os cabelos brancos» (Pr 20,29).

 

  1. A Bíblia pede-nos: «Escuta o pai que te gerou e não desprezes a tua mãe quando for idosa» (Pr 23,22). O mandato de honrar o pai e a mãe «é o primeiro mandamento com promessa» (Ef 6,2; cf. Ex 20,12; Dt 5,16; Lv 19,3), e a promessa é: «para que sejas feliz e gozes de longa vida sobre a terra» (Ef 6,3).

 

  1. Isto não significa que tenhas de concordar com tudo o que eles dizem, nem que devas aprovar todas as suas ações. Um jovem deveria ter sempre um espírito crítico. São Basílio Magno, referindo-se aos antigos autores gregos, recomendava aos jovens que os estimassem, mas que aceitassem apenas o bom que eles lhes pudessem ensinar. [103] Trata-se, simplesmente, de estar abertos para acolher uma sabedoria que se comunica de geração em geração, que pode conviver com algumas misérias humanas, e que não há razões para desaparecer frente às novidades do consumo e do mercado.

 

  1. Ao mundo nunca aproveitou nem aproveitará a rutura entre gerações. São os cantos de sereia de um futuro sem raízes, sem arraigamento. É a mentira que te faz pensar que só o novo é bom e belo. A existência das relações intergeracionais implica que nas comunidades se possua uma memória coletiva, pois cada geração retoma os ensinamentos dos seus antecessores, deixando assim um legado aos seus sucessores. Isto constitui marcos de referência para cimentar solidamente uma sociedade nova. Como diz o ditado: «Se o jovem soubesse e o velho pudesse, não haveria coisa que não se fizesse.»

 

 

Sonhos e visões

 

  1. Na profecia de Joel encontramos um anúncio que nos permite entender isto de uma forma muito bela. Diz assim: «Derramarei o meu espírito sobre toda a humanidade. Os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos anciãos terão sonhos e os vossos jovens terão visões» (Jl 3,1; cf. At 2,17). Se os jovens e os velhos se abrem ao Espírito Santo, ambos produzem uma combinação maravilhosa. Os anciãos sonham e os jovens têm visões. Como se complementam estas duas coisas?

 

  1. Os anciãos têm sonhos construídos com recordações, com imagens de tantas coisas vividas, com a marca da experiência e dos anos. Se os jovens se enraízam nesses sonhos dos anciãos, conseguem ver o futuro, podem ter visões que lhes abrem o horizonte e lhes mostram novos caminhos. Se os anciãos, pelo contrário, não sonham, os jovens já não podem olhar claramente o horizonte.

 

  1. É maravilhoso encontrar entre aquilo que os nossos pais guardaram alguma recordação que nos permita imaginar aquilo que sonharam para nós os nossos avós e as nossas avós. Todo o ser humano, ainda antes de nascer, recebeu da parte dos seus avós, como presente, a bênção de um sonho cheio de amor e de esperança: o sonho de uma vida melhor para ele. E se não o recebeu de nenhum dos seus avós, certamente algum bisavô o terá sonhado e se alegrou por ele, contemplando no berço os seus filhos e depois os seus netos. O sonho primordial, o sonho criador de Deus, nosso Pai, precede e acompanha a vida de todos os seus filhos. Fazer memória desta bênção, que se estende de geração em geração, é uma herança preciosa que devemos saber conservar viva para também nós a podermos transmitir.

 

  1. Por isso é bom deixar que os anciãos façam longas narrações, que por vezes parecem mitológicas, fantasiosas – são sonhos de velhos –, mas que muitas vezes estão cheias de uma rica experiência, de símbolos eloquentes, de mensagens ocultas. Essas narrações requerem tempo, que nos disponhamos a escutar gratuitamente e a interpretar com paciência, porque não cabem numa mensagem das redes sociais. Temos de aceitar que toda a sabedoria de que precisamos para a vida não se pode encerrar nos limites impostos pelos atuais recursos de comunicação.

 

  1. No livro La sabiduría de los años, [104] manifestei alguns desejos em forma de pedidos. «Que peço aos anciãos, entre os quais me conto eu próprio? Peço que sejamos guardiães da memória. Os avôs e as avós precisamos de formar um coro. Imagino os anciãos como o coro permanente de um importante santuário espiritual, em que as orações de súplica e os cânticos de louvor sustentam a comunidade inteira que trabalha e luta no terreno da vida». [105] É bonito que «os jovens e as donzelas, os velhos e as crianças, louvem todos o nome do Senhor» (Sl 148,12-13).

 

  1. Que lhes podemos dar, nós, os anciãos? «Aos jovens de hoje em dia, que vivem a sua própria mistura de ambições heroicas e de inseguranças, podemos recordar-lhes que uma vida sem amor é uma vida infecunda». [106] Que lhes podemos dizer? «Aos jovens temerosos, podemos dizer que a ansiedade frente ao futuro pode ser vencida». [107] Que lhes podemos ensinar? «Aos jovens excessivamente preocupados consigo mesmos podemos ensinar-lhes que se experimenta maior alegria em dar do que em receber, e que o amor não se demonstra apenas com palavras, mas também com obras». [108]

 

 

Arriscar juntos

 

  1. O amor que se dá e que opera, muitas vezes equivoca-se. Aquele que atua, aquele que arrisca, talvez cometa erros. Aqui, neste momento, pode ser interessante apresentar o testemunho de Maria Gabriela Perin, órfã de pai desde recém-nascida, que reflete como isso influenciou a sua vida, numa relação que não durou, mas que a tornou mãe e agora avó: «Aquilo que eu sei é que Deus cria histórias. Na sua genialidade e na sua misericórdia, Ele toma os nossos triunfos e fracassos e tece belas tapeçarias, cheias de ironia. O avesso do pano pode parecer desordenado, com os seus fios ensarilhados – os acontecimentos da nossa vida – e talvez seja esse lado que nos deixa obcecados quando temos dúvidas. No entanto, o lado bom da tapeçaria mostra uma história magnífica, e esse é o lado que Deus vê.» [109] Quando as pessoas idosas olham a vida com atenção, muitas vezes sabem de modo instintivo aquilo que há por trás dos fios ensarilhados e reconhecem aquilo que Deus faz criativamente, mesmo com os nossos erros.

 

  1. Se caminharmos juntos, jovens e anciãos, poderemos estar bem enraízados no presente e, a partir daqui, frequentar o passado e o futuro: frequentar o passado, para aprender com a história e para sarar as feridas que por vezes nos condicionam; frequentar o futuro, para alimentar o entusiasmo, fazer germinar sonhos, suscitar profecias, fazer florescer esperanças. Desse modo, unidos, poderemos aprender uns com os outros, aquecer os corações, inspirar as nossas mentes com a luz do Evangelho e dar nova força às nossas mãos.

 

  1. As raízes não são âncoras que nos prendem a outras épocas e nos impedem de encarnar no mundo atual para fazer nascer algo novo. Pelo contrário, são um ponto de enraízamento, que nos permite desenvolver-nos e responder aos novos desafios. Então também não devemos «sentar-nos a chorar os tempos passados; devemos assumir com realismo e amor a nossa cultura e enchê-la de Evangelho. Somos enviados hoje para anunciar a Boa Notícia de Jesus aos novos tempos. Devemos amar a nossa hora com as suas possibilidades e riscos, com as suas alegrias e dores, com as suas riquezas e limitações, com os seus acertos e os seus erros». [110]

 

  1. No Sínodo, um dos jovens auditores, proveniente das ilhas Samoa, disse que a Igreja é uma canoa, na qual os velhos ajudam a manter a direção, interpretando a posição das estrelas, e os jovens remam com força, imaginado aquilo que os espera mais além. Não nos deixemos levar nem pelos jovens que pensam que os adultos são um passado que já não conta, que já caducou, nem pelos adultos que julgam saber sempre como é que os jovens se devem comportar. É preferível que todos subamos para a mesma canoa e que entre todos procuremos um mundo melhor, sob o impulso sempre novo do Espírito Santo.

 

 

 

Capítulo Sétimo

 

a pastoral dos jovens

 

 

 

  1. A pastoral juvenil, tal como estávamos habituados a levá-la por diante, tem sofrido o embate das mudanças sociais e culturais. Os jovens, nas estruturas habituais, muitas vezes não encontram respostas para as suas inquietações, necessidades, problemáticas e feridas. A proliferação e o crescimento de associações e movimentos com características predominantemente juvenis podem ser interpretados como uma ação do Espírito que abre novos caminhos. No entanto, torna-se necessário aprofundar a participação destes na pastoral de conjunto da Igreja, bem como numa maior comunhão entre eles, numa melhor coordenação da ação. Embora nem sempre seja fácil abordar os jovens, tem-se vindo a crescer em dois aspetos: a consciência de que é toda a comunidade que os evangeliza e a urgência de que eles tenham maior protagonismo nas propostas pastorais.

 

 

Uma Pastoral sinodal

 

  1. Quero destacar que os próprios jovens são agentes da pastoral juvenil, acompanhados e guiados, mas livres para encontrar caminhos sempre novos com criatividade e audácia. Por conseguinte, seria exagerado deter-me aqui a propor alguma espécie de manual de pastoral juvenil ou um guia de pastoral prática. Trata-se, antes, de mobilizar a astúcia, o engenho e o conhecimento que os próprios jovens têm da sensibilidade, da linguagem e das problemáticas dos outros jovens.

 

  1. Eles mostram-nos a necessidade de assumir novos estilos e novas estratégias. Por exemplo, enquanto os adultos se costumam preocupar em ter tudo planificado, com reuniões periódicas e horários fixos, a maioria dos jovens, hoje, dificilmente se sente atraída por esses esquemas pastorais. A pastoral juvenil precisa de adquirir outra flexibilidade e de convocar os jovens para eventos, para acontecimentos que de vez em quando lhes ofereçam um lugar onde não só recebam formação, mas que também lhes permitam partilhar a vida, celebrar, cantar, escutar testemunhos reais e experimentar o encontro comunitário com o Deus vivo.

 

  1. Por outro lado, seria muito desejável reunir as boas práticas: aquelas metodologias, aquelas linguagens, aquelas motivações que têm sido realmente atrativas, capazes de aproximar os jovens de Cristo e da Igreja. Pouco importa a cor das mesmas, se são «conservadoras ou progressistas», se são «de direita ou de esquerda». O importante é que reunamos tudo o que tiver dado bons resultados e seja eficaz para comunicar a alegria do Evangelho.

 

  1. A pastoral juvenil só pode ser sinodal, quer dizer, só pode conformar um «caminhar juntos» que implica uma «valorização dos carismas que o Espírito concede segundo a vocação e o papel de cada um dos membros [da Igreja], mediante um dinamismo de corresponsabilidade […]. Animados por este espírito, poderemos encaminhar-nos para uma Igreja participativa e corresponsável, capaz de valorizar a riqueza da variedade que a compõe, que acolha com gratidão o contributo dos fiéis leigos, incluindo os jovens e as mulheres, o contributo da vida consagrada masculina e feminina, dos grupos, associações e movimentos. Não se deve excluir ninguém, nem deixar que ninguém se autoexclua». [111]

 

  1. Deste modo, aprendendo uns com os outros, poderemos refletir melhor esse poliedro maravilhoso que deve ser a Igreja de Jesus Cristo. Ela pode atrair os jovens precisamente por não ser uma unidade monolítica, mas uma trama de dons variados que o Espírito derrama incessantemente sobre ela, tornando-a sempre nova, apesar das suas misérias.

 

  1. No Sínodo apareceram muitas propostas concretas orientadas para renovar a pastoral juvenil e para a libertar de esquemas que já não são eficazes porque não entram em diálogo com a cultura atual dos jovens. Compreende-se que eu não as poderia reunir aqui todas, e algumas delas podem ser encontradas no Documento final do Sínodo.

 

 

Grandes linhas de Ação

 

  1. Gostaria apenas de destacar brevemente que a pastoral juvenil implica duas grandes linhas de ação. Uma é a busca, a convocação, o chamamento, capaz de atrair novos jovens para a experiência do Senhor. A outra é o crescimento, o desenvolvimento de um caminho de amadurecimento daqueles que já fizeram essa experiência.

 

  1. Em relação ao primeiro, a busca, confio na capacidade dos próprios jovens, que sabem encontrar os caminhos atrativos para a convocação. Sabem organizar festivais, provas desportivas e até sabem evangelizar nas redes sociais através de mensagens, canções, vídeos e outras intervenções. Só é preciso estimular os jovens e dar-lhes liberdade para que eles se entusiasmem missionando nos âmbitos juvenis. O primeiro anúncio pode despertar uma profunda experiência de fé durante um «retiro de impacto», numa conversa de bar, num intervalo na faculdade, ou através de qualquer um dos insondáveis caminhos de Deus. O mais importante, porém, é que cada jovem se atreva a semear o primeiro anúncio nessa terra fértil que é o coração de outro jovem.

 

  1. Nesta busca deve-se privilegiar o idioma da proximidade, a linguagem do amor desinteressado, relacional e existencial que toca o coração e chega à vida, despertando esperança e desejos. É necessário aproximarmo-nos dos jovens com a gramática do amor, não com o proselitismo. A linguagem que a gente jovem entende é a linguagem daqueles que dão a vida, de quem está ali por eles e para eles, e de quem, apesar das suas limitações e fragilidades, tenta viver a sua fé com coerência. Ao mesmo tempo, ainda temos de procurar com maior sensibilidade como encarnar o kerygma na linguagem falada pelos jovens de hoje.

 

  1. Em relação ao crescimento, quero fazer uma importante advertência. Em alguns lugares acontece que, depois de ter provocado nos jovens uma intensa experiência de Deus, um encontro com Jesus, que tocou os seus corações, e depois apenas se lhes oferecem encontros de «formação» onde se abordam apenas questões doutrinais e morais: sobre os males do mundo atual, sobre a Igreja, sobre a Doutrina Social, sobre a castidade, sobre o matrimónio, sobre o controlo da natalidade e sobre outros temas. O resultado é que muitos jovens se aborrecem, perdem o fogo do encontro com Cristo e a alegria de segui-lo, muitos abandonam o caminho e outros tornam-se tristes e negativos. Acalmemos a obsessão por transmitir um excesso de conteúdos doutrinais e tentemos, em primeiro lugar, suscitar e enraizar as grandes experiências que sustentam a vida cristã. Como dizia Romano Guardini: «na experiência de um grande amor […] tudo o que acontece converte-se num episódio dentro do seu âmbito». [112]

 

  1. Qualquer projeto formativo, qualquer caminho de crescimento para os jovens, deve incluir, certamente, uma formação doutrinal e moral. É igualmente importante que esteja centrado em dois grandes eixos: um é o aprofundamento do kerygma, a experiência fundante do encontro com Deus através de Cristo morto e ressuscitado. O outro é o crescimento no amor fraterno, na vida comunitária, no serviço.

 

  1. Insisti muito sobre isto em Evangelii gaudium, e creio que é oportuno recordá-lo. Por um lado, seria um grave erro pensar que na pastoral juvenil «o kerygma é abandonado em prol de uma formação supostamente mais “sólida”. Nada há mais sólido, mais profundo, mais seguro, mais denso e mais sábio do que esse anúncio. Toda a formação cristã é, sobretudo, o aprofundamento do kerygma, que se vai fazendo carne cada vez mais e melhor». [113] Por conseguinte, a pastoral juvenil deve sempre incluir momentos que ajudem a renovar e a aprofundar a experiência pessoal do amor de Deus e de Jesus Cristo vivo. Fá-lo-á com diversos recursos: testemunhos, canções, momentos de adoração, espaços de reflexão espiritual com a Sagrada Escritura e até com diversos estímulos através das redes sociais. No entanto, nunca se deve substituir esta experiência gozosa do encontro com o Senhor por uma espécie de «doutrinação».

 

  1. Por outro lado, qualquer plano de pastoral juvenil deve incorporar claramente meios e recursos variados para ajudar os jovens a crescerem na fraternidade, a viverem como irmãos, a ajudarem-se mutuamente, a criarem comunidade, a servirem os outros, a estarem perto dos pobres. Se o amor fraterno é o «mandamento novo» (Jo 13,34), se é «a plenitude da Lei» (Rm 13,10), se é aquilo que melhor manifesta o nosso amor a Deus, então deve ocupar um lugar relevante em todo o plano de formação e de crescimento dos jovens.

 

 

Ambientes adequados

 

  1. Em todas as nossas instituições precisamos de desenvolver e de potenciar muito mais a nossa capacidade de acolhimento cordial, porque muitos dos jovens que chegam o fazem numa profunda situação de orfandade. E não me refiro a determinados conflitos familiares, mas a uma experiência que abarca por igual crianças, jovens e adultos, mães, pais e filhos. Para muitos órfãos e órfãs, nossos contemporâneos – porventura nós próprios? –, comunidades tais como a paróquia e a escola deveriam oferecer caminhos de amor gratuito e promoção, de afirmação e crescimento. Muitos jovens sentem-se hoje filhos do fracasso, porque os sonhos dos seus pais e avós foram queimados na fogueira da injustiça, da violência social, do «salve-se quem puder». Quanto desenraizamento! Se os jovens cresceram num mundo de cinzas, não é fácil que possam alimentar o fogo de grandes ilusões e projetos. Se cresceram num deserto vazio de sentido, como poderão ter vontade de se sacrificar para semear? A experiência de descontinuidade e de desenraizamento e a queda das certezas básicas, fomentada na cultura mediática atual, provocam aquela sensação de profunda orfandade à qual devemos responder criando espaços fraternos e atraentes onde se viva com um sentido.

 

  1. Criar um «lar» é, em suma, «criar família; é aprender a sentirmo-nos unidos aos outros para lá de vínculos utilitários ou funcionais, de tal modo unidos que sintamos a vida um pouco mais humana. Criar lares, «casas de comunhão», é permitir que a profecia tome corpo e torne as nossas horas e dias menos inóspitos, menos indiferentes e anónimos. É tecer laços que se constroem com gestos simples, quotidianos, e que todos nós podemos realizar. Um lar, todos o sabemos muito bem, precisa da colaboração de todos. Ninguém pode ser indiferente ou permanecer alheado, visto que cada um é uma pedra necessária na sua construção. E isso implica pedir ao Senhor que nos ofereça a graça de aprender a ter paciência uns com os outros, de aprender a perdoar; aprender todos os dias a recomeçar. E quantas vezes perdoar ou recomeçar? Setenta vezes sete, todas as vezes que forem necessárias. Criar laços fortes requer confiança que se alimenta todos os dias da paciência e do perdão. E assim se produz o milagre de experimentar que aqui se nasce de novo, aqui todos nascemos de novo, porque sentimos a carícia de Deus atuante, permitindo-nos sonhar o mundo mais humano e, portanto, mais divino». [114]

 

  1. Neste âmbito, nas nossas instituições precisamos de oferecer lugares próprios aos jovens, que eles possam arranjar a seu gosto e onde possam entrar e sair com liberdade, lugares que os acolham e onde se possam aproximar espontaneamente e com confiança, indo ao encontro de outros jovens tanto nos momentos de sofrimento ou de tédio, como quando desejem celebrar as suas alegrias. Qualquer coisa semelhante a isto têm conseguido alguns Oratórios e outros centros juvenis, que, em muitos casos, constituem o ambiente de amizades e de namoro, de reencontros, onde os jovens podem partilhar a música, a diversão, o desporto e também a reflexão e a oração com pequenas ajudas e diversas propostas. Deste modo, abre-se caminho àquele indispensável anúncio pessoa a pessoa que não pode ser substituído por nenhum recurso ou estratégia pastoral.

 

  1. «A amizade e as relações, muitas vezes também em grupos mais ou menos estruturados, oferecem a oportunidade de reforçar competências sociais e relacionais num contexto em que não se avalia nem se julga a pessoa. A experiência de grupo constitui, por sua vez, um recurso para partilhar a fé e para uma interajuda mediante o testemunho. Os jovens são capazes de guiar outros jovens e de viver um verdadeiro apostolado entre os seus amigos». [115]

 

  1. Isto não significa que se isolem e que percam todo o contacto com as comunidades paroquiais, movimentos e outras instituições eclesiais. Contudo, integrar-se-ão melhor em comunidades abertas, vivas na fé, desejosas de irradiar Jesus Cristo, alegres, livres, fraternas e comprometidas. Estas comunidades poderão ser os canais onde eles sintam que é possível cultivar relações preciosas.

 

A pastoral das instituições educativas

 

  1. A escola constitui, sem dúvida, uma plataforma de aproximação das crianças e dos jovens. É um lugar privilegiado para a promoção da pessoa e, por isso, a comunidade cristã tem-lhe dedicado uma grande atenção, quer formando docentes e dirigentes, quer instituindo escolas próprias de qualquer grau e tipo. Neste campo, o Espírito tem suscitado inúmeros carismas e testemunhos de santidade. Todavia, a escola precisa de uma urgente autocrítica se tivermos em conta os resultados produzidos pela pastoral de muitas delas, uma pastoral concentrada na instrução religiosa que muitas vezes é incapaz de suscitar experiências de fé perduráveis. Além disso, há alguns colégios católicos que parecem estar organizados apenas para a preservação. O medo da mudança faz com que não consigam tolerar a incerteza e se retraiam frente aos perigos, reais ou imaginários, que toda a mudança traz consigo. A escola convertida num «bunker» que protege dos erros «de fora» é a expressão caricaturada da referida tendência. Essa imagem reflete de um modo assustador aquilo que experimentam muitíssimos jovens ao sair de alguns estabelecimentos educativos: uma irremediável inadequação entre aquilo que lhes ensinaram e o mundo em que lhes compete viver. As próprias propostas religiosas e morais que receberam não os prepararam para confrontá-las com um mundo que as ridiculariza, e não aprenderam formas de orar e de viver a fé que possam ser facilmente sustentadas frente ao ritmo desta sociedade. Na realidade, uma das maiores alegrias de um educador ocorre quando ele pode ver um estudante constituindo-se como uma pessoa forte, integrada, protagonista e capaz de dar.

 

  1. A escola católica continua a ser essencial como espaço de evangelização dos jovens. É importante ter em conta alguns critérios inspiradores apontados na Veritatis gaudium em vista de uma renovação e de um relançamento das escolas e universidades «em saída» missionária, tais como: a experiência do kerygma, o diálogo a todos os níveis, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade, o fomento da cultura do encontro, a necessidade urgente de «criar redes» e a opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e rejeita. [116] E também a capacidade de integrar os saberes da cabeça, do coração e das mãos.

 

  1. Por outro lado, não podemos separar a formação espiritual da formação cultural. A Igreja sempre quis desenvolver espaços para a melhor cultura dos jovens. Não deve renunciar a fazê-lo, porque os jovens têm direito a ela. E «hoje em dia, sobretudo, o direito à cultura significa proteger a sabedoria, quer dizer, um saber humano que humaniza. Com demasiada frequência estamos condicionados por modelos de vida triviais e efémeros que impelem as pessoas a perseguir o êxito a baixo preço, desacreditando o sacrifício, inculcando a ideia de que o estudo não é necessário, se não der imediatamente alguma coisa concreta. Não, o estudo serve para suscitar interrogações, para não nos deixarmos anestesiar pela banalidade, para procurar o sentido da vida. Deve-se reclamar o direito de que não prevaleçam as inúmeras sereias que hoje nos distraem dessa busca. Para não se render ao canto das sereias que seduziam os marinheiros e os faziam chocar contra as rochas, Ulisses atou-se à árvore do navio e tapou os ouvidos dos seus companheiros de viagem. Orfeu, pelo contrário, para contrariar o canto das sereias, fez outra coisa: entoou uma melodia ainda mais bela, que encantou as sereias. É esta a vossa grande missão: responder aos estribilhos paralisantes do consumismo cultural com opções dinâmicas e fortes, com a investigação, o conhecimento e a partilha». [117]

 

 

Diversos âmbitos para desenvolvimentos pastorais

 

  1. Muitos jovens são capazes de aprender a saborear o silêncio e a intimidade com Deus. Também têm aumentado os grupos que se reúnem para adorar o Santíssimo ou para rezar com a Palavra de Deus. Não devemos menosprezar os jovens como se fossem incapazes de se abrir a propostas contemplativas. Só é necessário encontrar os estilos e as modalidades adequadas para ajudá-los a iniciarem-se nesta experiência de valor tão elevado. Em relação aos âmbitos de culto e de oração, «em diversos contextos, os jovens católicos pedem propostas de oração e momentos sacramentais que incluam a sua vida quotidiana numa liturgia fresca, autêntica e alegre». [118] É importante aproveitar os momentos mais fortes do ano litúrgico, em particular a Semana Santa, o Pentecostes e o Natal. Eles também apreciam outros encontros festivos, que quebram a rotina e que ajudam a experimentar a alegria da fé.

 

  1. Uma oportunidade única para o crescimento e também de abertura ao dom divino da fé e da caridade é o serviço: muitos jovens sentem-se atraídos pela possibilidade de ajudar outros, especialmente as crianças e os pobres. Muitas vezes este serviço é o primeiro passo para descobrir ou redescobrir a vida cristã e eclesial. Muitos jovens cansam-se dos nossos itinerários de formação doutrinal, e inclusive espiritual, e por vezes reivindicam a possibilidade de serem mais protagonistas em atividades que façam alguma coisa pelas pessoas.

 

  1. Não podemos esquecer as expressões artísticas, como o teatro, a pintura, etc. «Completamente peculiar é a importância da música, que representa um verdadeiro ambiente em que os jovens estão constantemente imersos, bem como uma cultura e uma linguagem capazes de suscitar emoções e de moldar a identidade. A linguagem musical também representa um recurso pastoral, que interpela de modo particular a liturgia e a sua renovação». [119] O canto pode ser um grande estímulo para a caminhada dos jovens. Dizia Santo Agostinho: «Canta, mas caminha; alivia com o canto o teu trabalho, não ames a preguiça: canta e caminha […]. Tu, se avanças, caminhas; mas avança no bem, na fé reta, nas boas obras: canta e caminha». [120]

 

  1. «É igualmente significativa a relevância que tem entre os jovens a prática desportiva, cujas potencialidades em matéria educativa e formativa a Igreja não deve subestimar, mas manter uma sólida presença neste campo. O mundo do desporto precisa de ser ajudado a superar as ambiguidades que o golpeiam, como a mitificação dos campeões, a sujeição a lógicas comerciais e a ideologia do êxito a qualquer preço.» [121] Na base da experiência desportiva está «a alegria: a alegria de se mover, a alegria de estar juntos, a alegria pela vida e pelos dons que o Criador nos concede em cada dia». [122] Por outro lado, alguns Padres da Igreja aproveitaram o exemplo das práticas desportivas para convidar os jovens a crescerem em fortaleza e a dominarem a apatia ou a comodidade. Dirigindo-se aos jovens, São Basílio Magno dava o exemplo do esforço que o desporto requer, inculcando-lhes assim a capacidade de se sacrificarem para crescer nas virtudes: «Após milhares e milhares de sofrimentos e de terem aumentado a sua fortaleza através de muitos métodos, depois de terem suado muito em cansativos exercícios de ginástica […] e de levarem em tudo o resto, para não me alongar nas minhas palavras, uma existência tal que a sua vida antes da competição não é senão uma preparação para esta, […] arrostam com todo o tipo de fadigas e perigos para ganhar uma coroa […]. E nós, que temos à nossa frente uns prémios da vida tão maravilhosos em número e grandeza que é impossível defini-los por palavras, dormindo a sono solto e vivendo na ausência total de perigos, porventura dignar-nos-emos a tomá-los na mão?» [123]

 

  1. 228. Em muitos adolescentes e jovens desperta especial atenção o contacto com a criação, e são sensíveis até ao cuidado do ambiente, como acontece com os Escuteiros e com outros grupos que organizam jornadas de contacto com a natureza, acampamentos, caminhadas, expedições e campanhas ambientais. No espírito de São Francisco de Assis, são experiências que podem significar um caminho de iniciação na escola da fraternidade universal e na oração contemplativa.

 

  1. Estas e diversas outras possibilidades que se abrem à evangelização dos jovens não nos deveriam fazer esquecer que, para lá das mudanças da história e da sensibilidade dos jovens, há presentes de Deus que são sempre atuais, que contêm uma força que transcende todas as épocas e todas as circunstâncias: a Palavra do Senhor, sempre viva e eficaz, a presença de Cristo na Eucaristia que nos alimenta e o Sacramento do Perdão, que nos liberta e fortalece. Podemos mencionar ainda a inesgo-tável riqueza espiritual que a Igreja conserva no testemunho dos seus santos e no ensinamento dos grandes mestres espirituais. Mesmo que tenhamos de respeitar diversas etapas e que por vezes precisemos de esperar com paciência o momento oportuno, não poderemos deixar de convidar os jovens para estes mananciais de vida nova, não temos o direito de privá-los de tanto bem.

 

 

Uma pastoral popular juvenil

 

  1. Além da pastoral habitual realizada pelas paróquias e pelos movimentos, segundo determinados esquemas, é muito importante dar lugar a uma «pastoral popular juvenil», que tem outro estilo, outros tempos, outro ritmo, outra metodologia. Consiste numa pastoral mais ampla e flexível que estimule, nos diversos lugares onde se movem os jovens reais, aquelas lideranças naturais e aqueles carismas que o Espírito Santo já semeou entre eles. Trata-se, antes de mais, de não levantar tantos obstáculos, estabelecendo normas, controlos e marcos obrigatórios a esses jovens crentes que são líderes naturais nos bairros e em diversos ambientes. Basta acompanhá-los e incentivá-los, confiando um pouco mais na genialidade do Espírito Santo, que atua como quer.

 

  1. Falamos de líderes realmente «populares», não elitistas nem enclausurados em pequenos grupos de escolhidos. Para que sejam capazes de gerar uma pastoral popular no mundo dos jovens, é necessário que «aprendam a auscultar o sentir do povo, a constituir-se seus porta-vozes e a trabalhar pela sua promoção». [124] Quando falamos de «povo» não se deve entender as estruturas da sociedade ou da Igreja, mas o conjunto de pessoas que não caminham como indivíduos, mas como a trama de uma comunidade de todos e para todos, que não pode deixar que os mais pobres e débeis fiquem para trás: «O povo deseja que todos participem dos bens comuns e, por isso, aceita adaptar-se ao ritmo dos últimos para chegarem todos juntos». [125] Os líderes populares, então, são aqueles que têm a capacidade de incorporar todos, incluindo na marcha juvenil os mais pobres, débeis, limitados e feridos. Não sentem repugnância nem medo dos jovens feridos e crucificados.

 

  1. Nesta mesma linha, de modo especial com os jovens que não cresceram em famílias ou instituições cristãs, e estão num caminho de lento amadurecimento, devemos incentivá-los ao «bem possível». [126] Cristo recomendou-nos que não pretendêssemos que tudo fosse apenas trigo (cf. Mt 13,24-30). Às vezes, por pretendermos uma pastoral juvenil assética, pura, marcada por ideias abstratas, afastada do mundo e preservada de toda a mancha, convertemos o Evangelho numa oferta insípida, incompreensível, distante, separada das culturas juvenis e apta apenas para uma elite juvenil cristã, que se sente diferente, mas que, na realidade, flutua num isolamento sem vida nem fecundidade. Assim, com o joio que rejeitamos, arrancamos ou sufocamos milhares de rebentos que tentam crescer no meio das limitações.

 

  1. Em vez de «sufocá-los com um conjunto de regras que transmitem uma imagem estreita e moralista do Cristianismo, somos chamados a investir na sua audácia e a educá-los para que assumam as suas responsabilidades, seguros de que até o erro, o fracasso e as crises são experiências capazes de fortalecer a sua humanidade». [127]

 

  1. No Sínodo, exortou-se à construção de uma pastoral juvenil capaz de criar espaços inclusivos, onde haja lugar para todo o tipo de jovens e onde se manifeste realmente que somos uma Igreja de portas abertas. Nem sequer faz falta que alguém assuma completamente todos os ensinamentos da Igreja para que possa usufruir de alguns dos nossos espaços para jovens. Basta que participe numa atividade aberta a todos os que sintam o desejo e a disposição de se deixarem encontrar pela verdade revelada por Deus. Algumas propostas pastorais podem supor um caminho já percorrido na fé, mas precisamos de uma pastoral popular juvenil que abra portas e ofereça espaço a todos e a cada um com as suas dúvidas, os seus traumas, os seus problemas e a sua busca de identidade, os seus erros, a sua história, as suas experiências de pecado e todas as suas dificuldades.

 

  1. Também deve haver lugar para «todos aqueles que têm outras perspetivas da vida, que professam outros credos ou que se declaram alheios ao horizonte religioso. Todos os jovens, sem exclusão, estão no coração de Deus e, por isso, no coração da Igreja. Reconhecemos com franqueza que nem sempre esta afirmação que ressoa nos nossos lábios encontra uma expressão real na nossa ação pastoral: com frequência ficamos encerrados nos nossos ambientes, onde a sua voz não chega, ou dedicamo-nos a atividades menos exigentes e mais gratificantes, sufocando essa sã inquietação pastoral que nos faz sair das nossas supostas seguranças. Contudo, aquilo que o Evangelho nos pede é que sejamos audazes, e nós queremos sê-lo, sem presunção e sem fazer proselitismo, dando testemunho do amor do Senhor e estendendo a mão a todos os jovens do mundo». [128]

 

  1. A pastoral juvenil, quando deixa de ser elitista e aceita ser «popular», é um processo lento, respeitador, paciente, esperançado, incansável e compassivo. No Sínodo foi apresentado o exemplo dos discípulos de Emaús (cf. Lc 24,13-35), que também pode ser um modelo daquilo que acontece na pastoral juvenil.

 

  1. «Jesus caminha com os dois discípulos que não compreenderam o sentido do sucedido e que se estão a afastar de Jerusalém e da comunidade. Para estar na sua companhia, percorre o caminho com eles. Interroga-os e dispõe-se a uma paciente escuta da sua versão dos factos para ajudá-los a reconhecer aquilo que estão a viver. Depois, com afeto e energia, anuncia-lhes a Palavra, guiando-os na interpretação dos acontecimentos que viveram à luz das Escrituras. Aceita o convite a ficar com eles ao entardecer: entra na sua noite. Na escuta, o coração deles reconforta-se e a sua mente ilumina-se, ao partir do pão abrem-se-lhes os olhos. Eles próprios escolhem empreender sem demora o caminho em direção oposta, para voltar à comunidade e partilhar a experiência do encontro com Jesus ressuscitado». [129]

 

  1. As diversas manifestações de piedade popular, de modo especial as peregrinações, atraem os jovens que não se costumam inserir facilmente nas estruturas eclesiais e que são uma expressão concreta da confiança em Deus. Estas formas de busca de Deus, presentes de modo particular nos jovens mais pobres, mas também nos restantes setores da sociedade, não devem ser desprezadas, mas alentadas e estimuladas. Porque a piedade popular «é uma forma legítima de viver a fé» [130] e é «expressão da ação missionária espontânea do Povo de Deus». [131]

 

 

Sempre missionários

 

  1. Quero recordar que não é necessário percorrer um longo caminho para que os jovens sejam missionários. Até os mais débeis, limitados e feridos podem sê-lo à sua maneira, porque sempre se deve permitir que o bem se comunique, mesmo convivendo com muitas fragilidades. Um jovem que vai a uma peregrinação pedir ajuda à Virgem e que convida um amigo ou companheiro para que o acompanhe, com esse simples gesto está a praticar uma valiosa ação missionária. A par da pastoral popular juvenil há, indissociavelmente, uma missão popular, incontrolável, que rompe todos os esquemas eclesiásticos. Acompanhemo-la, incentivemo-la, mas não pretendamos regulá-la demasiado.

 

  1. Se sabemos escutar aquilo que nos está a dizer o Espírito, não podemos ignorar que a pastoral juvenil deve ser sempre uma pastoral missionária. Os jovens enriquecem-se muito quando vencem a timidez e se atrevem a visitar outras casas e, desse modo, entrar em contacto com a vida das pessoas fora da sua família e do seu grupo, começando a entender a vida de uma maneira mais ampla. Ao mesmo tempo, a sua fé e o seu sentido de pertença à Igreja são fortalecidos. As missões juvenis, que se costumam organizar durante as férias, depois de um período de preparação, podem provocar uma renovação da experiência de fé e, inclusive, sérias interrogações vocacionais.

 

  1. Os jovens, porém, são capazes de criar novas formas de missão, nos âmbitos mais diversos. Por exemplo, como eles se movem tão bem nas redes sociais, devem ser convocados para que as encham de Deus, de fraternidade e de compromisso.

 

 

O acompanhamento dos adultos

 

  1. Os jovens precisam de ser respeitados na sua liberdade, mas também precisam de ser acompanhados. A família deveria ser o primeiro espaço de acompanhamento. A pastoral juvenil propõe um projeto de vida a partir de Cristo: a construção de uma casa, de um lar edificado sobre a rocha (cf. Mt 7,24-25). Esse lar, esse projeto, para a maioria deles, concretizar-se-á no matrimónio e no amor conjugal. Por isso é necessário que a pastoral juvenil e a pastoral familiar tenham uma continuidade natural, trabalhando de maneira coordenada e integrada para poder acompanhar de forma adequada o processo vocacional.

 

  1. A comunidade desempenha um papel muito importante no acompanhamento dos jovens, e é a comunidade inteira que se deve sentir responsável por acolhê-los, motivá-los, animá-los e estimulá-los. Isso implica que se olhe para os jovens com compreensão, apreço e afeto, sem os julgar permanentemente nem lhes exigir uma perfeição que não corresponde à sua idade.

 

  1. No Sínodo, «muitos chamaram a atenção para a falta de pessoas especializadas dedicadas ao acompanhamento. Crer no valor teológico e pastoral da escuta implica uma reflexão destinada a renovar as formas com que habitualmente se exerce o ministério presbiteral e a rever as suas prioridades. Além disso, o Sínodo reconhece a necessidade de preparar consagrados e leigos, homens e mulheres, que sejam qualificados para o acompanhamento dos jovens. O carisma da escuta que o Espírito Santo suscita nas comunidades também poderia receber uma forma de reconhecimento institucional para o serviço eclesial». [132]

 

  1. Além disso, deve acompanhar-se de modo especial os jovens que se destacam como líderes, para que se possam formar e qualificar. Os jovens que se reuniram antes do Sínodo pediram que fossem desenvolvidos «programas de liderança juvenil para a formação e o desenvolvimento contínuo de jovens líderes. Algumas mulheres jovens sentem a necessidade de maiores exemplos de liderança feminina dentro da Igreja e desejam contribuir com os seus dons intelectuais e profissionais, servindo a Igreja. Entendemos também que os seminaristas, os religiosos e as religiosas deveriam ter maior capacidade para acompanhar os jovens líderes». [133]

 

  1. Os próprios jovens descreveram-nos quais são as características que esperam encontrar num acompanhante, e expressaram-no com muita clareza: «As qualidades de tal orientador incluem: que seja um autêntico cristão comprometido com a Igreja e com o mundo; que procure constantemente a santidade; que compreenda, sem julgar; que saiba escutar ativamente as necessidades dos jovens e possa responder-lhes com gentileza; que seja muito bondoso e consciente de si próprio; que re-conheça as suas limitações e que conheça a alegria e o sofrimento que todo o caminho espiritual implica. Uma característica especialmente importante num orientador é o reconhecimento da sua própria humanidade. O facto de serem seres que cometem erros: pessoas imperfeitas que se reconhecem como pecadores perdoados. Algumas vezes, os orientadores são colocados sobre um pedestal, por isso, quando caem, provocam um impacto devastador na capacidade dos jovens de se envolverem na Igreja. Os orientadores não deviam levar os jovens a ser seguidores passivos, mas antes a caminharem a seu lado, deixando-os ser os protagonistas do seu próprio caminho. Devem respeitar a liberdade que o jovem tem no seu processo de discernimento e oferecer-lhe ferramentas para que o faça bem. Um orientador deve confiar sinceramente na capacidade que tem cada jovem de participar na vida da Igreja. Por isso, um orientador deve, pura e simplesmente, plantar a semente da fé nos jovens, sem querer ver imediatamente os frutos do trabalho do Espírito Santo. Tal papel não deveria ser exclusivo dos sacerdotes e da vida consagrada, mas os leigos deveriam poder exercê-lo igualmente. Por último, todos estes orientadores deveriam beneficiar de uma boa formação permanente». [134]

 

  1. As instituições educativas da Igreja constituem, sem dúvida, um âmbito comunitário de acompanhamento que permite orientar muitos jovens, sobretudo quando «tentam acolher todos os jovens, independentemente das suas opções religiosas, proveniência cultural e situação pessoal, familiar ou social. Deste modo, a Igreja dá um contributo fundamental para a educação integral dos jovens nas mais diversas partes do mundo». [135] Reduziriam indevidamente a sua função se estabelecessem critérios rígidos para o ingresso de estudantes ou para a sua permanência nelas, pois privariam muitos jovens de um acompanhamento que os ajudaria a enriquecer a sua vida.

 

Capítulo Oitavo

 

A VOCAÇÃO

 

 

 

  1. É verdade que a palavra «vocação» se pode entender num sentido lato, como chamamento de Deus. Inclui o chamamento à vida, o chamamento à amizade com Ele, o chamamento à santidade, etc. Isto é valioso, porque situa toda a nossa vida frente ao Deus que nos ama e permite-nos entender que nada é fruto de um caos sem sentido, mas que tudo pode ser integrado num caminho de resposta ao Senhor, que tem um plano precioso para nós.

 

  1. Na Exortação Gaudete et exsultate quis deter-me na vocação de todos crescerem para glória de Deus, e propus-me «fazer ressoar uma vez mais o chamamento à santidade, procurando encarná-la no contexto atual, com os seus riscos, desafios e oportunidades». [136] O Concílio Vaticano II ajudou-nos a renovar a consciência desse chamamento dirigido a cada um: «Todos os fiéis, cristãos, de qualquer condição e estado, fortalecidos com tantos e tão poderosos meios de salvação, são chamados pelo Senhor, cada um pelo seu caminho, à perfeição daquela santidade pela qual o próprio Pai é perfeito». [137]

 

 

O seu chamamento à amizade com Ele

 

  1. O fundamental é discernir e descobrir que aquilo que Jesus quer de cada jovem é, antes de mais, a sua amizade. É esse o discernimento fundamental. No diálogo do Senhor ressuscitado com o seu amigo Simão Pedro, a grande pergunta era: «Simão, filho de João, tu amas-me?» (Jo 21,16). Quer dizer: Queres-me como amigo? A missão que Pedro recebe de cuidar das suas ovelhas e cordeiros estará sempre ligada a esse amor gratuito, a esse amor de amizade.

 

  1. E se fosse necessário um exemplo oposto, recordemos o encontro-desencontro do Senhor com o jovem rico, que nos diz claramente que aquilo que esse jovem não percebeu foi o olhar amoroso do Senhor (cf. Mc 10,21). Afastou-se contristado, depois de ter seguido um bom impulso, porque não conseguiu afastar os olhos das muitas coisas que possuía (cf. Mt 19,22). Ele perdeu a oportunidade daquilo que certamente poderia ter sido uma grande amizade. E nós ficamos sem saber o que ele poderia ter sido para nós, o que poderia ter feito pela humanidade, esse jovem único a quem Jesus olhou com amor, estendendo-lhe a mão.

 

  1. Porque «a vida que Jesus nos oferece é uma história de amor, uma história de vida que se quer misturar com a nossa e criar raízes na terra de cada um. Essa vida não é uma salvação suspensa «nas nuvens», à espera de ser descarregada, nem uma nova «aplicação» a descobrir ou um exercício mental, fruto de técnicas de autossuperação. A vida que Deus nos oferece também não é um «tutorial» com o qual se aprende a última novidade. A salvação que Deus nos oferece é um convite a fazer parte de uma história de amor que se entretece com as nossas histórias, que vive e quer nascer no meio de nós, para que dêmos fruto onde quer que estejamos, como estivermos e com quem estivermos. Aí vem o Senhor para plantar e para se plantar». [138]

O teu ser para os outros

 

  1. Gostaria de me debruçar agora sobre a vocação entendida no sentido preciso do chamamento ao serviço missionário dos outros. Somos chamados pelo Senhor a participar na sua obra criadora, dando o nosso contributo para o bem comum a partir das capacidades que recebemos.

 

  1. Esta vocação missionária tem a ver com o nosso serviço aos outros. Porque a nossa vida na terra alcança a sua plenitude quando se converte em oferenda. Recordo que «a missão no coração do povo não é uma parte da minha vida, ou um adorno que eu posso tirar; não é um apêndice ou um simples momento da existência. É algo que eu não posso arrancar do meu ser se não me quero destruir. Eu sou uma missão nesta terra e para isso estou neste mundo». [139] Por conseguinte, devemos pensar que toda a pastoral é vocacional, toda a formação é vocacional e toda a espiritualidade é vocacional.

 

  1. A tua vocação não consiste apenas nos trabalhos que tiveres de fazer, mesmo que se manifeste através deles. É mais do que isso, é um caminho que orientará muitos esforços e muitas ações numa direção de serviço. Por isso, no discernimento de uma vocação é importante ver se uma pessoa reconhece em si mesma as capacidades necessárias para esse serviço específico.

 

  1. Isto confere um valor muito grande a essas missões, visto que estas deixam de ser uma soma de ações que uma pessoa realiza para ganhar dinheiro, para estar ocupado ou para agradar a outros. Tudo isso constitui uma vocação porque somos chamados, há algo mais do que uma nossa mera escolha pragmática. Trata-se, em suma, de reconhecer para que fui criado, qual o sentido da minha passagem por esta terra, qual o projeto do Senhor para a minha vida. Ele não me indicará todos os lugares, os tempos e os detalhes, que eu escolherei com prudência, mas há, isso sim, uma orientação da minha vida que Ele me deve indicar porque é o meu Criador, o meu oleiro, e eu preciso de escutar a sua voz para me deixar moldar e conduzir por Ele. Então, sim, serei aquilo que devo ser, e também serei fiel à minha própria realidade.

 

  1. Para cumprir a própria vocação é necessário desenvolver-se, fazer brotar e crescer tudo aquilo que se é. Não se trata de inventar-se, de criar-se a si mesmo a partir do nada, mas de descobrir-se a si próprio à luz de Deus e de fazer florescer o próprio ser: «Nos desígnios de Deus, cada homem é chamado a promover o seu próprio progresso, porque a vida de todo o homem é uma vocação.» [140] A tua vocação orienta-te para extraíres o melhor de ti para glória de Deus e para bem dos outros. O importante não é apenas fazer coisas, mas fazê-las com um sentido, com uma orientação. A este respeito, dizia Santo Alberto Hurtado aos jovens que o rumo tem de ser tomado muito a sério: «Num barco, o piloto que se distrai é despedido sem apelo, porque está a arriscar algo demasiado sagrado. E na vida, cuidamos do nosso rumo? Qual é o teu rumo? Se for necessário desenvolver ainda mais esta ideia, eu peço a cada um de vós que lhe dê a máxima importância, porque acertar nisto é, pura e simplesmente, acertar, e falhar nisto é, pura e simplesmente, falhar». [141]

 

  1. Este «ser para os outros», na vida de cada jovem, normalmente está relacionado com duas questões básicas: a formação de uma nova família e o trabalho. Os diversos questionários que se fizeram aos jovens confirmam, uma e outra vez, que estes são os dois grandes temas que os preocupam e seduzem. Ambos devem ser objeto de um especial discernimento. Debrucemo-nos brevemente sobre eles.

 

 

O Amor e a família

 

  1. Os jovens sentem fortemente o apelo do amor e sonham encontrar a pessoa adequada com quem formar uma família e construir uma vida juntos. É, sem dúvida, uma vocação que o próprio Deus propõe através dos sentimentos, dos desejos, dos sonhos. Na Exortação Amoris laetitia detive-me longamente sobre este tema, e convido todos os jovens a lerem sobretudo os capítulos 4 e 5.

 

  1. Gosto de pensar que «dois cristãos que se casam reconheceram na sua história de amor o chamamento do Senhor, a vocação para formar de dois, homem e mulher, uma só carne, uma só vida. E o Sacramento do Matrimónio envolve este amor com a graça de Deus, enraíza-o no próprio Deus. Com este dom, com a certeza deste chamamento, é possível partir seguros, não se ter medo de nada, pode-se enfrentar tudo, juntos!» [142]

 

  1. Neste contexto, recordo que Deus nos criou sexuados. Ele próprio «criou a sexualidade, que é um presente maravilhoso para as suas criaturas». [143] Dentro da vocação para o matrimónio devemos reconhecer e agradecer o facto de «a sexualidade, o sexo, serem um dom de Deus. Nada de tabus. São um dom de Deus, um dom que o Senhor nos dá. Têm dois propósitos, amar-se e gerar vida. É uma paixão, é o amor apaixonado. O verdadeiro amor é apaixonado. O amor entre um homem e uma mulher, quando é apaixonado, leva-te a dar a vida para sempre. Sempre! E a dá-la com corpo e alma». [144]

 

  1. O Sínodo ressaltou que «a família continua a ser o principal ponto de referência para os jovens. Os filhos apreciam o amor e o cuidado dos pais, dão importância aos vínculos familiares e esperam conseguir, por sua vez, formar uma família. Não há dúvida que o aumento das separações, dos divórcios, das segundas uniões e das famílias monoparentais pode causar grandes sofrimentos e crises de identidade aos jovens. Por vezes, devem assumir responsabilidades desproporcionadas para a sua idade, que os obrigam a ser adultos antes de tempo. É frequente os avós serem uma ajuda decisiva no afeto e na educação religiosa: com a sua sabedoria, constituem um elo decisivo na relação entre gerações». [145]

 

  1. É verdade que estas dificuldades que muitos jovens sofrem na sua família de origem os levam a interrogar-se sobre se vale a pena formar uma nova família, ser fiéis, ser generosos. Quero dizer-lhes que sim, que vale a pena apostar na família e que nela encontrarão os melhores estímulos para amadurecer e as mais belas alegrias para partilhar. Não deixeis que vos roubem o amor a sério. Não vos deixeis enganar por aqueles que vos propõem uma vida de desenfreamento individualista, que, por fim, conduz ao isolamento e à pior solidão.

 

  1. Hoje, reina uma cultura do provisório, que é uma ilusão. Crer que nada pode ser definitivo é um engano e uma mentira. Muitas vezes «há quem diga que hoje em dia o matrimónio “passou de moda” […]. Na cultura do provisório, do relativo, muitos pregam que o importante é “desfrutar” o momento, que não vale a pena comprometer-se para toda a vida, fazer opções definitivas […]. Eu, pelo contrário, peço-vos que sejais revolucionários, peço-vos que caminheis contra a corrente; sim, neste sentido, peço-vos que vos rebeleis contra esta cultura do provisório que, no fundo, julga que vós não sois capazes de assumir responsabilidades, julga que não sois capazes de amar verdadeiramente». [146] Eu, sim, tenho confiança em vós, por isso vos animo a optar pelo matrimónio.

 

  1. É necessário preparar-se para o matrimónio, e isso requer educar-se a si mesmo, desenvolver as melhores virtudes, sobretudo o amor, a paciência, a capacidade de diálogo e de serviço. Também implica educar a própria sexualidade, para que seja cada vez menos um instrumento para usar os outros e cada vez mais uma capacidade de se entregar plenamente a uma pessoa, de modo exclusivo e generoso.

 

  1. Os Bispos da Colômbia ensinaram-nos que «Cristo sabe que os esposos não são perfeitos e precisam de superar a sua fragilidade e inconstância para que o seu amor possa crescer e durar. Por isso, concede aos cônjuges a sua graça que é, ao mesmo tempo, luz e força que lhes permite irem realizando o seu projeto de vida matrimonial de acordo com o plano de Deus». [147]

 

  1. Para aqueles que não são chamados ao matrimónio ou à vida consagrada, devemos recordar sempre que a primeira e mais importante vocação é a vocação batismal. Os solteiros, mesmo que o não sejam intencionalmente, podem converter-se em testemunho particular

de tal vocação no seu próprio caminho de crescimento pessoal.

 

 

O trabalho

 

  1. Os Bispos dos Estados Unidos indicaram claramente que a juventude, depois de chegada a maioridade, «marca, amiúde, a entrada de uma pessoa no mundo do trabalho. “Como ganhas a vida?” é um tema de conversa constante, porque o trabalho é uma parte muito importante das suas vidas. Para os jovens adultos, esta experiência é muito fluida porque mudam de um trabalho para outro e, inclusive, podem até mudar de carreira. O trabalho pode definir o uso do tempo e pode determinar aquilo que podem fazer ou comprar. Também pode determinar a qualidade e a quantidade do tempo livre. O trabalho define e influencia a identidade e o autocontrolo de um adulto jovem e é um lugar fundamental onde se desenvolvem amizades e outras relações porque geralmente não se trabalha sozinho. Homens e mulheres jovens falam do trabalho como cumprimento de uma função e como algo que proporciona um sentido. Permite aos adultos jovens satisfazerem as suas necessidades práticas, mas, ainda mais importante, procurarem o significado e o cumprimento dos seus sonhos e visões. Embora o trabalho possa não os ajudar a alcançar os seus sonhos, é importante para os adultos jovens cultivarem uma visão, aprenderem a trabalhar de uma maneira realmente pessoal e satisfatória para a sua vida, e continuar a discernir o chamamento de Deus». [148]

 

  1. Peço aos jovens que não vivam sem trabalhar, apenas dependendo da ajuda de outros. Isso não faz bem, porque «o trabalho é uma necessidade, faz parte do sentido da vida nesta terra, caminho de amadurecimento, de desenvolvimento humano e de realização pessoal. Neste sentido, ajudar com dinheiro os pobres deve ser sempre uma solução provisória para resolver urgências». [149] Daí que «a espiritualidade cristã, juntamente com a admiração contemplativa das criaturas que encontramos em São Francisco de Assis, também desenvolveu uma rica e sã compreensão do trabalho, como podemos encontrar, por exemplo, na vida do Beato Charles de Foucauld e dos seus discípulos». [150]

 

  1. O Sínodo sublinhou que o mundo do trabalho é um âmbito onde os jovens «experimentam formas de exclusão e de marginalização. A primeira e a mais grave é o desemprego juvenil que, em alguns países, atinge níveis exorbitantes. Além de empobrecê-los, a falta de trabalho cerceia, nos jovens, a capacidade de sonhar e de esperar e priva-os da possibilidade de contribuírem para o desenvolvimento da sociedade. Em muitos países, esta situação deve-se ao facto de algumas franjas da população juvenil se encontrarem desprovidas das capacidades profissionais adequadas, também devido às deficiências do sistema educativo e formativo. Com frequência, a precariedade ocupacional que aflige os jovens corresponde à exploração laboral por interesses económicos». [151]

 

  1. Trata-se de uma questão muito delicada, que a política deve considerar como tema de primeira ordem, de modo particular hoje, que a velocidade dos desenvolvimentos tecnológicos, juntamente com a obsessão por reduzir os custos laborais, pode levar rapidamente a substituir inúmeros postos de trabalho por máquinas. E trata-se de um assunto fundamental da sociedade porque o trabalho, para um jovem, não é simplesmente uma função destinada a obter receitas. É expressão da dignidade humana, é caminho de amadurecimento e de inserção social, é um estímulo constante para crescer em responsabilidade e em criatividade, é uma proteção frente à tendência para o individualismo e para a comodidade e também é dar glória a Deus com o desenvolvimento das próprias capacidades.

 

  1. Nem sempre um jovem tem a possibilidade de decidir a que vai dedicar os seus esforços, em que funções vai gastar as suas energias e a sua capacidade de inovar. Porque, para lá dos seus próprios desejos, e ultrapassando até as próprias capacidades e o discernimento que realize, estão os duros limites da realidade. É verdade que tu não podes viver sem trabalhar e que, por vezes, tens de aceitar aquilo que encontres, mas nunca renuncies aos teus sonhos, nunca enterres definitivamente uma vocação, nunca te dês por vencido. Continua sempre a procurar, pelo menos, modos parciais ou mesmo imperfeitos de viver aquilo que, segundo o teu discernimento, reconheces como uma verdadeira vocação.

 

  1. Quando alguém descobre que Deus o chama a alguma coisa, que foi feito para isso – quer para a enfermagem, quer para a carpintaria, a comunicação, a engenharia, a docência, a arte ou para qualquer outro trabalho – será capaz de fazer brotar as suas melhores capacidades de sacrifício, de generosidade e de entrega. Saber que não faz as coisas automaticamente, mas com sentido, como resposta a um chamamento que ressoa no mais profundo do seu ser, para dar alguma coisa aos outros, faz com que essas tarefas deem ao seu próprio coração uma experiência especial de plenitude. Assim o dizia o antigo livro bíblico do Eclesiastes: «reconheci que não há felicidade maior para o homem do que alegrar-se com o seu trabalho» (Ecl 3,22).

 

 

Vocações para uma consagração especial

 

  1. Se partimos da convicção de que o Espírito continua a suscitar vocações para o sacerdócio e para a vida religiosa, podemos «voltar a lançar as redes» em nome do Senhor, com toda a confiança. Podemos atrever-nos, e devemos fazê-lo, a dizer a cada jovem que se interrogue sobre a possibilidade de seguir este caminho.

 

  1. Algumas vezes fiz esta proposta a jovens que me responderam quase troçando, dizendo: «Não, a verdade é que eu não vou por esse caminho.» No entanto, anos mais tarde, alguns deles estavam no Seminário. O Senhor não pode faltar à sua promessa de que não deixará a Igreja privada dos pastores sem os quais não poderia viver nem realizar a sua missão. E se alguns sacerdotes não dão um bom testemunho, não é por isso que o Senhor deixará de chamar. Pelo contrário, Ele duplica a aposta, porque não deixa de cuidar da sua amada Igreja.

 

  1. No discernimento de uma vocação não se deve descartar a possibilidade da consagração a Deus no sacerdócio, na vida religiosa ou noutras formas de consagração. Porquê excluí-lo? Podes ter a certeza que, se reconheces um chamamento de Deus e o segues, será isso que te tornará completo.

 

  1. Jesus caminha no meio de nós como fazia na Galileia. Ele passa pelas nossas ruas, detém-se e olha-nos nos olhos, sem pressa. O seu chamamento é atraente, é fascinante. Todavia, hoje, a ansiedade e a velocidade de tantos estímulos que nos bombardeiam faz com que não reste lugar para esse silêncio interior onde se percebe o olhar de Jesus e se escuta o seu chamamento. Entretanto, chegar-te-ão muitas propostas maquilhadas, que parecem belas e intensas, mas que, com o tempo, só te deixarão vazio, cansado e sozinho. Não deixes que isso te aconteça, porque o turbilhão deste mundo te força a uma corrida sem sentido, sem orientação, sem objetivos claros, e assim se malograrão muitos dos teus esforços. Procura, antes, esses espaços de calma e de silêncio que te permitam refletir, orar, olhar melhor o mundo que te rodeia, e então sim, com Jesus, poderás reconhecer qual é a tua vocação nesta terra.

 

 

 

Capítulo Nono

 

o discernimento

 

 

 

  1. Sobre o discernimento em geral, já me detive na Exortação Apostólica Gaudete et exsultate. Permiti-me que retome algumas dessas reflexões, aplicando-as ao discernimento da própria vocação no mundo.

 

  1. Recordo que todos, mas «especialmente os jovens, estão expostos a um zapping constante. É possível navegar em dois ou três ecrãs simultaneamente e interagir ao mesmo tempo em diversos cenários virtuais. Sem a sabedoria do discernimento podemos converter-nos facilmente em marionetas à mercê das tendências do momento». [152] E «isto revela-se especialmente importante quando aparece uma novidade na própria vida, e então é preciso discernir se é o vinho novo que vem de Deus ou se é uma novidade enganadora do espírito do mundo ou do espírito do diabo». [153]

 

  1. Esse discernimento, «embora inclua a razão e a prudência, supera-as, porque se trata de entrever o mistério do projeto único e irrepetível que Deus tem para cada um […]. Está em jogo o sentido da minha vida diante do Pai que me conhece e me ama, o verdadeiro sentido da minha existência, que ninguém conhece melhor do que Ele». [154]

 

  1. É neste âmbito que se situa a formação da consciência, que permite que o discernimento cresça em profundidade e em fidelidade a Deus: «Formar a consciência é caminho de uma vida inteira, no qual se aprende a nutrir os sentimentos próprios de Jesus Cristo, assumindo os critérios das suas decisões e as intenções da sua maneira de agir (cf. Fl 2,5)». [155]

 

  1. Esta formação implica deixar-se transformar por Cristo e, ao mesmo tempo, «uma prática habitual do bem, valorizada no exame de consciência: um exercício em que não se trata apenas de identificar os pecados, mas também de reconhecer a obra de Deus na própria experiência quotidiana, nos acontecimentos da história e das culturas das quais fazemos parte, no testemunho de tantos homens e mulheres que nos precederam ou que nos acompanham com a sua sabedoria. Tudo isso ajuda a crescer na virtude da prudência, articulando a orientação global da existência com escolhas concretas, com a consciência serena dos próprios dons e limitações». [156]

 

 

Como discernir a tua vocação

 

  1. Uma expressão do discernimento é o empenho em reconhecer a própria vocação. É um trabalho que requer espaços de solidão e silêncio, porque se trata de uma decisão muito pessoal que outros não podem tomar em lugar do próprio. Embora o Senhor nos fale de modos muito variados no meio do nosso trabalho, através dos outros e a cada momento, não é possível prescindir do silêncio da oração prolongada para perceber melhor essa linguagem, para interpretar o significado real das inspirações que julgamos ter recebido, para acalmar as ansiedades e recompor o conjunto da própria existência à luz de Deus». [157]

 

  1. Este silêncio não é uma forma de isolamento, porque «devemos recordar que o discernimento orante requer que se parta de uma disposição para escutar: o Senhor, os outros, a própria realidade que sempre nos desafia de maneiras novas. Só quem está disposto a escutar tem liberdade para renunciar ao seu próprio ponto de vista parcial ou insuficiente […]. Assim, está realmente disponível para acolher um chamamento que rompe as suas seguranças, mas que o conduz a uma vida melhor, porque não basta que tudo corra bem, que tudo esteja tranquilo. Deus pode estar a oferecer alguma coisa mais, e, na nossa cómoda distração, não o reconhecermos». [158]

 

  1. Quando se trata de discernir a própria vocação, é necessário fazer a si próprio várias perguntas. Não deveríamos começar por nos interrogarmos sobre onde poderíamos ganhar mais dinheiro, ou onde poderíamos alcançar maior fama e prestígio social, mas também não convém começarmos por nos interrogarmos sobre que funções nos dariam mais prazer pessoal. Para não nos equivocarmos, devemos começar a partir de outro lugar, perguntando-nos: eu conheço-me a mim mesmo, para lá das aparências ou das minhas sensações? Conheço aquilo que alegra ou entristece o meu coração? Quais são as minhas fortalezas e as minhas fragilidades? Seguem-se imediatamente outras perguntas: como posso servir melhor e ser mais útil ao mundo e à Igreja? Qual é o meu lugar nesta terra? Que poderia eu oferecer à sociedade? Depois seguem-se outras, mais realistas: tenho as capacidades necessárias para prestar esse serviço ou poderia adquiri-las e desenvolvê-las?

 

  1. Estas perguntas devem situar-se não tanto em relação à própria pessoa e às suas inclinações, mas aos outros, frente a eles, de tal modo que o discernimento analise a sua vida na sua relação com os outros. Por isso, quero recordar qual é a grande pergunta: «Muitas vezes, na vida, perdemos tempo interrogando-nos: “Mas afinal, quem sou eu?” E tu podes interrogar-te sobre quem és e passar uma vida inteira a procurar a tua própria identidade. Interroga-te, antes: “Para quem sou eu?”» [159] És para Deus, sem dúvida. Mas Ele quis que também sejas para os outros, e pôs em ti muitas qualidades, inclinações, dons e carismas que não são para ti, mas para os outros.

 

 

O chamamento do Amigo

 

  1. Para discernir a própria vocação, deve-se reconhecer que essa vocação é o chamamento de um amigo: Jesus. Quando se oferece alguma coisa aos amigos, oferece-se-lhes o melhor. E esse melhor não é necessariamente o mais caro ou o mais difícil de conseguir, mas aquilo que uma pessoa sabe que alegrará o outro. Um amigo percebe isto de forma tão clara que pode visualizar na sua imaginação o sorriso do seu amigo quando abrir o seu presente. Este discernimento de amizade é o que eu proponho aos jovens como modelo, se procuram descobrir qual é a vontade de Deus para as suas vidas.

 

  1. Quero que saibais que quando o Senhor pensa em cada um, naquilo que desejaria oferecer-lhe, pensa nele como seu amigo pessoal. E se planeou oferecer-te uma graça, um carisma que te fará viver a tua vida em plenitude e transformar-te numa pessoa útil para os outros, em alguém que deixe uma marca na história, será certamente alguma coisa que te alegrará no mais íntimo e que te entusiasmará mais do que qualquer outra coisa neste mundo. Não porque aquilo que te vai dar seja um carisma extraordinário ou raro, mas porque será precisamente à tua medida, à medida de toda a vida.

 

  1. O presente da vocação será, sem dúvida, um presente exigente. Os presentes de Deus são interativos e, para gozá-los, é preciso pôr muita coisa em jogo, é preciso arriscar. Contudo, não será a exigência de um dever imposto por outro, a partir de fora, mas algo que te estimulará a crescer e a optar, para que esse presente amadureça e se converta em dom para os outros. Quando o Senhor suscita uma vocação, não pensa apenas naquilo que tu és, mas em tudo aquilo que juntamente com Ele e com os outros poderás chegar a ser.

 

  1. O poder da vida e a força da própria personalidade alimentam-se mutuamente no interior de cada jovem, impelindo-o a ultrapassar todos os limites. A inexperiência permite que isso flua, mesmo que muito rapidamente se transforme em experiência, muitas vezes dolorosa. É importante pôr em contacto este desejo de «infinito do começo ainda não posto à prova» [160] com a amizade incondicional que Jesus nos oferece. Antes de toda a lei e de todo o dever, aquilo que Jesus nos propõe que escolhamos é um seguimento como o dos amigos que se seguem, se procuram e se encontram por pura amizade. Tudo o resto vem depois, e até os fracassos da vida poderão ser uma experiência inestimável dessa amizade que nunca se rompe.

 

 

Escuta e acompanhamento

 

  1. Há sacerdotes, religiosos, religiosas, leigos, profissionais e até jovens capacitados, que podem acompanhar os jovens no seu discernimento vocacional. Quando nos toca ajudar outro a discernir o caminho da sua vida, a primeira coisa é escutar. E essa escuta supõe três sensibilidades ou atenções diferentes e complementares.

 

  1. A primeira sensibilidade ou atenção é à pessoa. Trata-se de escutar o outro que se nos está a dar a si próprio através das suas palavras. O sinal dessa escuta é o tempo que dedico ao outro. Não é questão de quantidade, mas de que o outro sinta que o meu tempo é dele: aquilo de que necessita para me manifestar aquilo que quiser. Ele deve sentir que o escuto incondicionalmente, sem me ofender, sem me escandalizar, sem me aborrecer, sem me cansar. Essa escuta é a que o Senhor exerce quando se põe a caminhar ao lado dos discípulos de Emaús e os acompanha durante muito tempo, por um caminho que seguia na direção oposta à direção correta (cf. Lc 24,13-35). Quando Jesus faz menção de seguir adiante, porque eles já tinham chegado a casa, compreendem que Ele lhes tinha oferecido o seu tempo, e então oferecem-lhe o deles, propondo-lhe hospedagem. Esta escuta atenta e desinteressada indica o valor que a outra pessoa tem para nós, para lá das suas ideias e das suas opções de vida.

 

  1. A segunda sensibilidade ou atenção é a do discernimento. Trata-se de encontrar o ponto certo em que se discerne a graça ou a tentação, porque, às vezes, as coisas que nos passam pela imaginação são apenas tentações que nos afastam do nosso verdadeiro caminho. Aqui preciso de interrogar-me sobre aquilo que me está a dizer exatamente essa pessoa, sobre o que me quer dizer, sobre o que deseja que eu compreenda daquilo que lhe está a acontecer. São perguntas que ajudam a entender onde se encadeiam os argumentos que movem o outro e a sentir o peso e o ritmo dos seus afetos influenciados por esta lógica. Esta escuta orienta-se para discernir as palavras salvadoras do bom Espírito, que nos propõe a verdade do Senhor, mas também as armadilhas do espírito mau – os seus enganos e as suas seduções. É preciso ter a coragem, o carinho e a delicadeza necessários para ajudar o outro a reconhecer a verdade e os enganos ou desculpas.

 

  1. A terceira sensibilidade ou atenção inclina-se para escutar os impulsos «para a frente» que o outro experimenta. É a escuta profunda de «até onde o outro quer ir verdadeiramente». Para lá daquilo que sente e pensa no presente e daquilo que fez no passado, a atenção orienta-se para aquilo que gostaria de ser. Por vezes, isso implica que a pessoa não olhe tanto para aquilo que lhe agrada, para os seus desejos superficiais, mas para aquilo que mais agrada ao Senhor, para o seu próprio projeto de vida, que se exprime numa inclinação do coração, para lá da aparência dos gostos e dos sentimentos. Tal escuta é atenção à intenção última, que é aquela que, em última análise, decide a vida, porque existe Alguém como Jesus que entende e valoriza essa intenção última do coração. Por isso, Ele está sempre disposto a ajudar cada um para que a reconheça e, para isso, basta-lhe que alguém lhe peça: «Senhor, salva-me! Tem misericórdia de mim!»

 

  1. Então, sim, o discernimento converte-se num instrumento de luta para seguir melhor o Senhor. [161] Desse modo, o desejo de reconhecer a própria vocação adquire uma intensidade suprema, uma qualidade diferente e um nível superior, que corresponde muito melhor à dignidade da própria vida. Porque, decididamente, um bom discernimento é um caminho de liberdade que faz aflorar esse carácter único de cada pessoa, isso que é tão seu, tão pessoal, que só Deus conhece. Os outros não podem compreender plenamente nem prever, a partir de fora, como se desenvolverá.

 

  1. Portanto, quando alguém escuta outro desta maneira, em determinado momento tem de desaparecer para deixar que ele siga esse caminho que descobriu. Desaparecer, como desaparece o Senhor da vista dos seus discípulos e os deixa sozinhos com o ardor do coração, que se converte em impulso irresistível para se porem a caminho (cf. Lc 24,31-33). De regresso à comunidade, os discípulos de Emaús receberão a confirmação de que o Senhor ressuscitou verdadeiramente (cf. Lc 24,34).

 

  1. Já que «o tempo é superior ao espaço», [162] é preciso suscitar e acompanhar processos, não impor trajetos. E são processos de pessoas que são sempre únicas e livres. Por isso, é difícil preparar livros de receitas, mesmo quando todos os sinais forem positivos, visto que «se trata de submeter os próprios fatores positivos a um cuidadoso discernimento, para que não se isolem um do outro nem se contraponham entre si, absolutizando-se e opondo-se reciprocamente. O mesmo se pode dizer dos fatores negativos: não os devemos rejeitar em bloco e sem distinção, porque em cada um deles se pode esconder algum valor, que espera ser descoberto e reconduzido à sua verdade plena». [163]

 

  1. No entanto, para acompanhar outros neste caminho, primeiro precisas de ter o hábito de tu próprio o percorreres. Maria assim fez, enfrentando as suas interrogações e as suas próprias dificuldades quando era muito jovem. Que ela renove a tua juventude com a força da sua oração e te acompanhe sempre com a sua presença de Mãe.

*  *  *

 

E no fim… um desejo

 

  1. Queridos jovens, ficarei feliz vendo-vos correr mais rápido do que os lentos e temerosos. Correi «atraídos por esse Rosto tão amado, que adoramos na Sagrada Eucaristia e que reconhecemos na carne do irmão sofredor. Que o Espírito Santo vos empurre nesta corrida para a frente. A Igreja precisa do vosso entusiasmo, das vossas intuições, da vossa fé. Fazeis-nos falta! E quando chegardes onde nós ainda não chegámos, tende paciência para esperar por nós». [164]

 

 

Loreto, junto ao Santuário da Santa Casa,

25 de março, Solenidade da Anunciação do Senhor,

do ano 2019, sétimo do pontificado

 

 

 

Índice

 

 

 

Cristo, nossa esperança, está vivo [1-4]

 

Capítulo Primeiro

O QUE DIZ A PALAVRA DE DEUS SOBRE OS JOVENS? [5]

 

No Antigo Testamento [6-11]

No Novo Testamento [12-21]

 

Capítulo Segundo

JESUS CRISTO SEMPRE JOVEM [22]

 

A juventude de Jesus [23-29]

A sua juventude ilumina-nos [30-33]

A juventude da Igreja [34]

Uma Igreja que se deixa renovar [35-38]

Uma Igreja atenta aos sinais dos tempos [39-42]

Maria, a jovem de Nazaré [43-48]

Jovens santos [49-63]

 

Capítulo Terceiro

VÓS SOIS O AGORA DE DEUS [64]

 

Aspetos positivos [65-67]

Muitas juventudes [68-70]

Algumas coisas que sucedem aos jovens [71]

Jovens de um mundo em crise [72-80]

Desejos, feridas e procuras [81-85]

O ambiente digital [86-90]

Os migrantes como paradigma do nosso tempo [91-94]

Pôr termo a todo o tipo de abusos [95-102]

Há saída [103-110]

 

Capítulo Quarto

O GRANDE ANÚNCIO PARA TODOS OS JOVENS [111]

 

Um Deus que é Amor [112-117]

Cristo salva-te [118-123]

Ele vive! [124-129]

O Espírito dá vida [130-133]

 

Capítulo Quinto

CAMINHOS DE JUVENTUDE [134-135]

 

Tempo de sonhos e de escolhas [136-143]

A vontade de viver e de experimentar [144-149]

Em amizade com Cristo [150-157]

Crescimento e amadurecimento [158-162]

Sendas de fraternidade [163-167]

Jovens comprometidos [168-174]

Missionários valentes [175-178]

 

Capítulo Sexto

JOVENS COM RAÍZES [179]

 

Que não te arranquem da terra [180-186]

A tua relação com os idosos [187-191]

Sonhos e visões [192-197]

Arriscar juntos [198-201]

 

Capítulo Sétimo

A PASTORAL DOS JOVENS [202]

 

Uma Pastoral sinodal [203-208]

Grandes linhas de Ação [209-215]

Ambientes adequados [216-220]

A pastoral das instituições educativas [221-223]

Diversos âmbitos para desenvolvimentos pastorais [224-229]

Uma pastoral popular juvenil [230-238]

Sempre missionários [239-241]

O acompanhamento dos adultos [242-247]

 

Capítulo Oitavo

A VOCAÇÃO [248-249]

 

O seu chamamento à amizade com Ele [250-252]

O teu ser para os outros [253-258]

O Amor e a família [259-267]

O trabalho [268-273]

Vocações para uma consagração especial [274-277]

 

Capítulo Nono

O DISCERNIMENTO [278-282]

 

Como discernir a tua vocação [283-286]

O chamamento do Amigo [287-290]

Escuta e acompanhamento [291-298]

E no fim… um desejo [299]

 

[1] A mesma palavra grega que se traduz por «novo» também se utiliza para significar «jovem».

[2] Confissões, X, 27: PL 32,795.

[3] Santo Ireneu, Contra as heresias, II, 22,4: PG 7,784.

[4] Documento Final da XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, n. 60. Daqui por diante, este documento será citado com a sigla DF. Pode ser encontrado em: http://www.vatican.va /roman_curia/synod/documents/rc_synod_doc_20181027_doc-final-instrumentum-xvassemblea-giovani_ sp.html.

[5] Catecismo da Igreja Católica, n. 515.

[6] Ibid., n. 517.

[7] Catequese (27 de junho de 1990), nn. 2-3: Insegnamenti 13,1 (1990), pp. 1680-1681.

[8] Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris laetitia (19 de março de 2016), n. 182: AAS 108 (2016), p. 384.

[9] DF, n. 63.

[10]  Conc. Ecum. Vat. II, Mensagem à humanidade e aos jovens (7 de dezembro de 1965): AAS 58 (1966), p. 18.

[11] Ibid.

[12] DF, n. 1.

[13] Ibid., n. 8.

[14] Ibid., n. 50.

[15] Ibid., n. 53.

[16] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição Dogmática Dei Verbum, sobre a Divina Revelação, n. 8.

[17] DF, n. 150.

[18] Discurso na Vigília com os jovens na XXXIV Jornada Mundial da Juventude no Panamá (26 de janeiro de 2019), in L’Osservatore Romano (1 de fevereiro de 2019).

[19] Oração conclusiva da Via-Sacra na XXXIV Jornada Mundial da Juventude no Panamá (25 de janeiro de 2019), in L’Osservatore Romano (1 de fevereiro de 2019).

[20] DF, n. 65.

[21] Ibid., n. 167.

[22] S. João Paulo II, Discurso aos jovens em Turim (13 de abril de 1980), n. 4: Insegnamenti 3,1 (1980), 905.

[23] Bento XVI, Mensagem para a XXVII Jornada Mundial da Juventude (15 de março de 2012): AAS 104 (2012), p. 359.

[24] DF, n. 8.

[25] Ibid.

[26] Ibid., n. 10.

[27] Ibid., n. 11.

[28] Ibid., n. 12.

[29] Ibid., n. 41.

[30] Ibid., n. 42.

[31] Discurso aos jovens em Manila (18 de janeiro de 2015), in L’Osservatore Romano (23 de janeiro de 2015).

[32] DF, n. 34.

[33] Documento da Reunião pré-sinodal para a preparação da XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos (24 de março de 2018), I, 1.

[34] DF, n. 39.

[35] Ibid., n. 37.

[36] Cf. Carta Encíclica Laudato si’ (24 de maior de 2015), n. 106: AAS 107 (2015), pp. 889-890.

[37] DF, n. 37.

[38] Ibid., n. 67.

[39] Ibid., n. 21.

[40] Ibid., n. 22.

[41] Ibid., n. 23.

[42] Ibid., n. 24.

[43] Documento da Reunião pré-sinodal para preparação da XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos (24 de março de 2018), I, 4.

[44] DF, n. 25.

[45] Ibid.

[46] Ibid., n. 26.

[47] Ibid., n. 27.

[48] Ibid., n. 28.

[49] Ibid., n. 29.

[50] Discurso conclusivo do encontro sobre «A proteção de menores na Igreja» (24 de fevereiro de 2019), in L’Osservatore Romano (1 de março de 2019).

[51] DF, n. 29.

[52] Carta ao Povo de Deus (20 de agosto de 2018), n. 2, in L’Osservatore Romano (24 de agosto de 2018).

[53] DF, n. 30.

[54] Discurso à primeira Congregação geral da XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos (3 de outubro de 2018), in L’Osservatore Romano (5 de outubro de 2018).

[55] DF, n. 31.

[56] Ibid.

[57] Conc. Ecum. Vat. II, Constituição Pastoral Gaudium et spes, Sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo, n. 1.

[58] DF, n. 31.

[59] Ibid., n. 31.

[60] Discurso conclusivo do encontro sobre «A proteção de menores na Igreja» (24 de fevereiro de 2019), in L’Osservatore Romano (1 de março de 2019).

[61] Francisco Luis Bernárdez, «Soneto», in Cielo de tierra, Buenos Aires, 1937.

[62] Exortação Apostólica Gaudete et exsultate (19 de março de 2018), n. 140.

[63] Exortação Apostólica Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n.1: AAS 105 (2013), p. 1019.

[64] Discurso na cerimónia de abertura da XXXIV Jornada Mundial da Juventude no Panamá (24 de janeiro de 2019) in L’Osservatore Romano (25 de janeiro de 2019).

[65] Exortação Apostólica Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n.1: AAS 105 (2013), p. 1019.

[66] Ibid., 3, p. 1020.

[67] Discurso na Vigília com os jovens durante a XXXIV Jornada Mundial da Juventude no Panamá (26 de janeiro de 2019) in L’Osservatore Romano (1 de fevereiro de 2019).

[68] Discurso no encontro com os jovens durante o Sínodo (6 de outubro de 2018), in L’Osservatore Romano (12 de outubro de 2018).

[69] Bento XVI, Carta Encíclica Deus caritas est (25 de dezembro de 2005), n. 1: AAS 98 (2006), p. 217.

[70] Pedro Arrupe, Enamórate.

[71] S. Paulo VI, Alocução aquando da beatificação de Nunzio Sulprizio (1 de dezembro de 1963): AAS 56 (1964), p. 28.

[72] DF, n. 65.

[73] Homilia durante a Santa Missa com os jovens em Sidney (2 de dezembro de 1970): AAS 63 (1971), p. 64.

[74] Confissões, I, 1, 1: PL 32, 661.

[75] Dios es joven. Una conversación con Thomas Leoncini, Barcelona, Planeta, 2018, pp. 16-17.

[76] DF, n. 68.

[77] Encontro com os jovens em Cagliari (22 de setembro de 2013): AAS 105 (2013), pp. 904-905.

[78] Cinco panes y dos peces: un gozoso testimonio de fe desde el sufrimiento en la cárcel, México, 1999, p. 21.

[79] Conferência Episcopal Suíça, Prendre le temps: pour toi, pour moi, pour nous (2 de fevereiro de 2018).

[80] Cf. S. Tomás de Aquino, Summa Theologiae II-II, q. 23, art. 1.

[81] Discurso aos voluntários da XXXIV Jornada Mundial da Juventude no Panamá (27 de janeiro de 2019), in L’Osservatore Romano (1 de fevereiro de 2019).

[82] S. Óscar Romero, Homilia (6 de novembro de 1977), in Su pensamiento, I-II, San Salvador, 2000, p. 312.

[83] Discurso na cerimónia de abertura da XXXIV Jornada Mundial da Juventude no Panamá (24 de janeiro de 2019), in L’Osservatore Romano (25 de janeiro de 2019).

[84] Cf. Encontro com os jovens no Santuário Nacional Maipú, Santiago do Chile (17 de janeiro de 2018), in L’Osservatore Romano (19 de janeiro de 2018).

[85] Cf. Romano Guardini, Le età della vita, em Opera omnia IV, 1, Bréscia, 2015, p. 209.

[86] Exortação Apostólica Gaudete et exsultate (19 de março de 2018), n. 11.

[87] Cântico Espiritual B, Prólogo, p. 2.

[88] Ibid., XIV-XV, p. 2.

[89] Conferência Episcopal do Ruanda, Carta dos Bispos católicos aos fiéis durante o ano especial da reconciliação no Ruanda, Kigali (18 de janeiro de 2018), n. 17.

[90] Saudação aos jovens do Centro Cultural Padre Félix Varela em Havana (20 de setembro de 2015), in L’Osservatore Romano (25 de setembro de 2015).

[91] DF, n. 46.

[92] Discurso na Vigília da XXVIII Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro (27 de julho de 2013): AAS 105 (2013), p. 663.

[93] Vós sois a luz do mundo, Discurso no Cerro San Cristóbal, no Chile, 1940, in https://www.padrealbertohurtado.cl/escritos-2/.

[94] Homilia durante a Santa Missa da XXVIII Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro (28 de julho de 2013): AAS 105 (2013), p. 665.

[95] Conferência Episcopal da Coreia, Carta pastoral por ocasião dos 150 anos do martírio, durante a perseguição Byeong-in (30 de março de 2016).

[96] Cf. Homilia durante a Santa Missa da XXXIV Jornada Mundial da Juventude no Panamá (27 de janeiro de 2019), in L’Osservatore Romano (1 de fevereiro de 2019).

[97] Oração «Senhor, faz de mim um instrumento da tua paz», atribuída a S. Francisco de Assis.

[98] Discurso na Vigília com os jovens durante a XXXIV Jornada Mundial da Juventude no Panamá (26 de janeiro de 2019), in L’Osservatore Romano (1 de fevereiro de 2019).

[99] DF, n. 14.

[100] Cf. Carta Encíclica Laudato si’ (24 de maio de 2015), n. 145: AAS 107 (2015), p. 906.

[101] Videomensagem para o Encontro Mundial da Juventude Indígena no Panamá (17-21 de janeiro de 2019), in L’Osservatore Romano (25 de janeiro de 2019).

[102] DF, n. 35.

[103] Cf. Carta aos jovens, I, 2: PG 31, 566.

[104] Cf. Papa Francisco e amigos, La sabiduría de los años, Bilbau, Mensajero, 2018.

[105] Ibid., p. 12.

[106] Ibid., p. 13.

[107] Ibid., p. 108.

[108] Ibid.

[109] Ibid., pp. 162-163.

[110] Eduardo Pironio, Mensagem aos jovens argentinos no Encontro Nacional de Jovens em Córdoba (12-15 de setembro de 1985), p. 2.

[111] DF, n. 123.

[112] La esencia del cristianismo, Madrid, Cristiandad, 2002, p. 17.

[113] N. 165: AAS 105 (2013), p. 1089.

[114] Discurso durante a visita ao Lar Bom Samaritano, no Panamá (27 de janeiro de 2019) in L’Osservatore Romano (1 de fevereiro de 2019).

[115] DF, n. 36.

[116] Cf. Constituição Apostólica Veritatis gaudium (8 de dezembro de 2017), n. 4: AAS 110 (2018), pp. 7-8.

[117] Discurso durante o encontro com os estudantes e o mundo académico na Praça San Domenico de Bolonha (1 de outubro de 2017): AAS 109 (2017), p. 1115.

[118] DF, n. 51.

[119] Ibid., n. 47.

[120] Sermo 256, 3: PL 38, 1193.

[121] DF, n. 47.

[122] Discurso a uma delegação da “Special Olympics International” (16 de fevereiro de 2017) in L’Osservatore Romano (17 de fevereiro de 2017), p. 8.

[123] Carta aos jovens, VIII, 11-12: PG 31, 580.

[124] Conferência Episcopal Argentina, Declaração de San Miguel, Buenos Aires, 1969, X, n. 1.

[125] Rafael Tello, La nueva evangelización, tomo ii (Anexos I e II), Buenos Aires, 2013, p. 111.

[126] Cf. Exortação Apostólica Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), nn. 44-45: AAS 105 (2013), pp. 1038-1039.

[127] DF, n. 70.

[128] Ibid., n. 117.

[129] Ibid., n. 4.

[130] Exortação Apostólica Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 124: AAS 105 (2013), p. 1072.

[131] Ibid., n. 122: p. 1071.

[132] DF, n. 9.

[133] Documento da Reunião pré-sinodal para preparação da XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos (24 de março de 2018), n. 12.

[134] Ibid., n. 10.

[135] DF, n. 15.

[136] N. 2.

[137] Constituição Dogmática Lumen gentium, sobre a Igreja, n. 11.

[138] Discurso na Vigília com os jovens, durante a XXXIV Jornada Mundial da Juventude no Panamá (26 de janeiro de 2019) in L’Osservatore Romano (1 de fevereiro de 2019).

[139] Exortação Apostólica Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 273: AAS 105 (2013), p. 1130.

[140] São Paulo VI, Carta Encíclica Populorum progressio (26 de março de 1967), n. 15: AAS 59 (1967), p. 265.

[141] Meditação da Semana Santa para jovens, escrita a bordo de um navio de mercadorias, de regresso dos Estados Unidos, em 1946, in https://www.padrealbertohurtado.cl/escritos-2/.

[142] Encontro com os jovens da Úmbria, em Assis (4 de outubro de 2013): AAS 105 (2013), p. 921.

[143] Exortação Apostólica pós-Sinodal Amoris laetitia (19 de março de 2016), n. 150: AAS 108 (2016), p. 369.

[144] Audiência concedida aos jovens da diocese de Grenoble-Vienne (17 de setembro de 2018) in L’Osservatore Romano (19 de setembro de 2018).

[145] DF, n. 32.

[146] Encontro com os voluntários da XXVIII Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro (28 de julho de 2013) in Insegnamenti, 1,2 (2013), p. 125.

[147] Conferência Episcopal da Colômbia, Mensagem cristã sobre o matrimónio (14 de maio de 1981).

[148] Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, Sons and Daughters of Light: A Pastoral Plan for Ministry with Young Adults (12 de novembro de 1996), I, n. 3.

[149] Carta Encíclica Laudato si’ (24 de maio de 2015), n. 128: AAS 107 (2015), p. 898.

[150] Ibid., 125: p. 897.

[151] DF, n. 40.

[152] Exortação Apostólica Gaudete et exsultate (19 de março de 2018), n. 167.

[153] Ibid., n. 168.

[154] Ibid., n. 170.

[155] DF, n. 108.

[156] Ibid.

[157] Exortação Apostólica Gaudete et exsultate (19 de março de 2018), n. 171.

[158] Ibid., n. 172.

[159] Discurso durante a Vigília de oração em preparação da XXXIV Jornada Mundial da Juventude, Basílica de Santa Maria Maior (8 de abril de 2017): AAS 109 (2017), p. 447.

[160] Romano Guardini, Le età della vita, em Opera omnia IV, 1, Bréscia 2015, p. 209.

[161] Cf. Exortação Apostólica Gaudete et exsultate (19 de março de 2018), n. 169.

[162] Exortação Apostólica Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 222: AAS 105 (2013), p. 1111.

[163] S. João Paulo II, Exortação Apostólica pós-Sinodal Pastores dabo vobis (25 de março de 1992), n. 10: AAS 84 (1992), p. 672.

[164] Encontro e oração com jovens italianos no Circo Máximo de Roma (11 de agosto de 2018): L’Osservatore Romano (13-14 de agosto de 2018), p. 6.