Entrevista publicada por El Mercurio, 13 de Outubro de 2019

Monsenhor Ivo Scapolo, Núncio Apostólico: “Como Igreja, várias vezes não tivemos a coragem de acolher as denúncias”.

A escassos dias de deixar o Chile, o representante do Papa fala do seu difícil tempo aqui, que define como sendo de “luzes e sombras”. Diz que nunca foi encobridor e que concorda quer com a judicialização dos casos de abuso sexual quer com o facto de ser um juiz a determinar se houve ou não encobrimento. Juan Antonio Muñoz H.

Nunca tinha dado uma entrevista antes. A sua voz pública, até agora, provinha fundamentalmente da sua actividade pastoral. Monsenhor Ivo Scapolo chegou ao Chile em 2011, nomeado núncio apostólico pelo Papa Bento XVI. A sua primeira actividade foi presidir, a 25 de Setembro desse ano, à procissão de Nossa Senhora do Carmo. Oito anos mais tarde – e daqui por dois dias – parte para Roma, para seguidamente assumir a representação diplomática vaticana em Portugal.

Desde o momento da sua chegada, Scapolo (Terrassa Padovana, 1953) – desdobrou-se pelas dioceses do país; visitou-as todas e assistiu também à maior parte das celebrações religiosas nacionais, incluindo as peregrinações cuasimodistas e a Festa da Tirana. Passado pouco tempo, teve de se ocupar da nomeação de novos bispos e da crise da Igreja Católica chilena no âmbito das denúncias de abusos sexuais.

De conduta silenciosa e reflectida, a muitos pareceu que Scapolo se distanciava das dificuldades e não realizava gestos de condenação. Foi acusado de indolência em relação às vítimas e também apontado como encobridor de abusos sexuais. Sucederam-se vários factos, entre os quais, em 2014, o pedido de informação que fez ao arcebispo de Santiago, Ricardo Ezzati, sobre declarações realizadas pelos sacerdotes Mariano Puga, Felipe Berríos e o falecido José Aldunate. A sua figura foi igualmente questionada durante a investigação levada a cabo por Jordi Bertomeu e Charles Scicluna; pela ruidosa nomeação de Juan Barros para bispo de Osorno, ligado ao caso Karadima, e pela controversa visita ao Chile do Papa Francisco, em Janeiro de 2018, em pleno conflito pelo caso Barros.

Ivo Scapolo — que define a sua passagem pelo Chile como “uma experiência com luzes e sombras”— recebe o El Mercurio na casa da Nunciatura em Providencia. Não põe limites ás preguntas, mas reserva-se o direito de não responder a algumas e de não entrar em pormenores específicos relativamente a outras. É conciso e directo.

 

Como viu a irrupção das denúncias de abusos sexuais da Igreja no Chile?

— Foi muito doloroso constatar a realidade dos abusos na Igreja. Impressionou-me o grande número de denúncias surgidas ultimamente, embora na maioria dos casos os factos não sejam recentes. Tentei compreender e partilhar o difícil caminho percorrido pelas vítimas ao tomar consciência do abuso que sofreram e chegar a denunciá-lo. Partilho a sua vontade de que sejam esclarecidos, julgados e sejam reparadas estas atrocidades.

 

O tema dos abusos não é exclusivo da Igreja. No entanto, os católicos viram sempre a Igreja como um lugar de acolhimento, onde as crianças, em particular, estavam salvaguardadas. Não acha natural a indignação social com isto?

— Sim. Todos devíamos sentir raiva, dor e vergonha se alguém comete um abuso, mais ainda se é contra um menor de idade, e ainda por cima se é cometido por uma pessoa que, como o sacerdote, tem uma especial responsabilidade. Além disso, segundo as informações públicas disponíveis, só em 2018 as denúncias por delitos sexuais no Chile foram mais de 28.000. É um número impressionante! É urgente unir esforços e continuar a promover medidas eficazes, a começar pela Igreja.

 

Como representante do Papa, que autocrítica faz em relação a este tema? 

— Desde a minha chegada tratei de vários casos de abuso. Porém, após a visita do Papa tive de encarar uma avalanche de denúncias, petições e queixas. Penso ter feito o que é humanamente possível para a enfrentar. Tentei agir conforme à verdade, justiça e caridade. Sempre se pode fazer melhor; mas, creiame, fez-se o que era possível.

 

Falta de coragem? 

— Como Igreja, várias vezes não tivemos a coragem de acolher as denúncias e tomar a tempo as devidas medidas.

 

O que é que a Igreja aprendeu depois de ter conhecimento destes casos?

— Aprendemos muito do relato doloroso das vítimas: por exemplo, a necessidade de sermos mais empáticos, o dever de acompanhar as vítimas, o assegurar procedimentos mais adequados, o trabalhar na prevenção. E por isso a Igreja tomou medidas: novas normas, cursos de formação, centros de escuta, de denúncia e de acompanhamento a nível nacional e diocesano.

 

“Se uma pessoa foi bem formada para a castidade é difícil que cometa um abuso”

A Igreja assumiu internamente que é preciso mudar e acelerar os procedimentos ao receber denúncias?

— Sim. Há um esforço para melhorar os procedimentos, superando as dificuldades que existem, sobretudo por falta de tempo e de pessoal idóneo.

 

Enquanto sacerdote, como se explica esta onda de abusos na Igreja?

— As causas são várias. Entre elas, erros na selecção de candidatos; a carência de acompanhamento e de formação permanente dos sacerdotes e consagrados; a falta de controle e de correcção fraterna; a inadequada formação espiritual, moral e ascética; a falta de fé e de uma intensa vida de oração; a influência de correntes de pensamento e modelos de conduta contrários à antropologia cristã.

 

Tem a ver com o celibato, o poder, o endeusamento de alguns sacerdotes…? 

— O problema não é o celibato. Se uma pessoa foi bem formada para a castidade, é difícil que cometa um abuso. E o abuso de poder e o endeusamento dos sacerdotes podem ser evitados com uma adequada formação humana e espiritual, com controle e avaliação justos.

 

“Lamento ter causado sofrimento a algumas pessoas”

O senhor foi apontado como encobridor. Como responde a isso?

— Digo simplesmente que não é verdade. Em consciência, posso afirmar que cumpri até o fundo o meu dever como representante pontifício e que os meus superiores não deixaram de apreciar o meu trabalho.

 

Os dois últimos arcebispos de Santiago, os cardeais Errázuriz e Ezzati, também foram investigados pela justiça por eventuais responsabilidades de encobrimento. Qual o seu parecer acerca das actuações de ambos?

— Tratando-se de um processo ainda em curso, prefiro não emitir um juízo a esse respeito. Espero que este e outros casos semelhantes sejam esclarecidos quanto antes pela justiça.

 

Comentou-se que o senhor não recebeu as vítimas. É verdade?

— Recebi várias pessoas que entregaram o seu testemunho, como vítimas ou denunciantes. Lamento que em alguns casos isso não tenha sido possível e que tenha causado sofrimento em algumas pessoas.

 

É função de um núncio receber as vítimas em casos como estes ou outros? 

— Essa é uma função que corresponde em geral ao bispo ou ao Superior Maior. A função do núncio é ajudar para que se realizem de maneira adequada os procedimentos, ajudando e acompanhando, se necessário, as vítimas ou os denunciantes.

 

O senhor está de acordo com a judicialização dos casos?

— Sim. É recomendável que se proceda segundo o ordenamento civil e canónico.

 

—E que seja um juiz civil a resolver se houve o não encobrimento?  — Sim. E melhor até se for resolvido em prazos razoáveis.

 

Outro tema é a reparação às vítimas. Costuma-se entender isto somente como uma reparação económica. 

— Compete-nos acolher e ter uma atitude de sincera compreensão, que se traduza em gestos concretos de apoio espiritual, moral e material.

 

“O núncio é uma das fontes de informação da Santa Sé”

— Após a visita do Papa houve críticas sobre como correu esse périplo. Em particular acerca da participação dos cidadãos, que se viu menos maciça do que se esperava, como sucedeu em Iquique.

— Em Iquique não houve muita gente no local da missa. Mas houve uma maré de gente na entrada da cidade. Eu pude apreciar a mesma participação e entusiasmo em Temuco e Santiago.

 

Comentou-se que a visita foi um fracasso.

— Não partilho dessa avaliação. O Papa por duas vezes manifestou-me a sua satisfação ao ver a quantidade de fiéis e o ambiente festivo nas ruas e nos encontros. Espero que, num clima de maior serenidade, a Igreja no Chile possa tornar a reflectir sobre as homilias e os discursos do Papa, nos quais trata temas tão importantes como a vida de fé, o testemunho da caridade, a justiça social, os migrantes, os povos originários e os jovens.

 

Para além das dificuldades e da polémica, o Papa Francisco disse que a visita ao Chile foi muito importante para ele porque lhe fez abrir os olhos.  — Sem dúvida.

 

O Papa Francisco — sobre o caso do bispo Juan Barros— disse não ter recebido informação suficiente; mais ainda, disse ter sido “desinformado”. O senhor assume alguma responsabilidade neste assunto?

— O que lhe posso dizer é que o núncio é uma das fontes de informação da Santa Sé.

 

Foi a Igreja chilena que desinformou? 

—Não tenho elementos para responder a essa pregunta.

 

O senhor concordou com a nomeação de Juan Barros Madrid em Osorno? 

— A essa pregunta não lhe posso responder.

 

Porquê?

— Por razões de segredo pontifício que tenho o dever de respeitar.

 

Sente que foram colocados à disposição do Papa todos os antecedentes necessários?

— Posso garantir-lhe novamente que procurei cumprir o meu dever e que, portanto, tenho a consciência tranquila.

 

Como foi a sua experiência em Osorno, quando o bispo Barros tomou posse do cargo?

— Fui a Osorno porque era meu dever cumprir o que o Papa havia decidido. Pude, assim, ser testemunha da grave falta de respeito cometida à Catedral, aos bispos concelebrantes, bem como à Liturgia da Palavra e à Eucaristia. Sei que estavam incomodados, mas essa não era a forma de se exprimirem.

 

É verdade que o senhor tinha pensado pedir a renúncia a Barros em 2014, quando era bispo castrense? E que o senhor teria exortado Barros a gozar um período sabático antes de assumir nova responsabilidade pastoral como bispo diocesano? 

— Posso dizer que agi segundo se lê numa carta do Santo Padre à Comissão Permanente da Conferência Episcopal do Chile em Janeiro de 2015. A missiva foi publicada poucos dias antes da chegada do Papa ao Chile, pela agência internacional The Associated Press.

(Nota da Redacção: Na missiva, dirigida à Comissão Permanente da Conferência Episcopal do Chile, o Papa Francisco refere conhecer a controvérsia gerada em torno da nomeação do bispo Barros em Osorno e que o núncio apostólico no Chile, Ivo Scapolo, tentou encontrar uma maneira de conter os danos antes que o caso viesse a público em 2015).

 

Aldunate, Puga e Berríos

— Causou um intenso debate o facto de o senhor requerer informação sobre os sacerdotes José Aldunate, Mariano Puga e Felipe Berríos. Foi encarado como uma intrusão. A que se deveu isso?

— Em 2014 intervim porque chegaram à nunciatura centenas de reclamações de fieis que se sentiram escandalizados pelas declarações dos três sacerdotes, contrárias ao magistério de a Igreja relativamente à dignidade da vida e da família.

 

Foi realizada uma investigação a esses sacerdotes ou só foram revistas as suas afirmações? 

— Enviei à Santa Sé o texto das declarações, explicando o seu contexto bem como os passos que os respectivos Superiores tinham dado.

 

— O senhor reuniu-se com eles? A ter existido, como foi esse encontro? 

— Nos últimos dois anos encontrei-me mais de uma vez com um deles, num clima cordial e de respeito.

 

Desde que chegou ao Chile, o senhor dedicou-se a percorrer as dioceses para conhecer o seu funcionamento interno. É uma coisa habitual nas actividades dos núncios? Pergunto-lhe porque houve quem o acusasse de afectar a independência de a hierarquia eclesiástica local. 

— Nunca tinha ouvido essa acusação. Na Bolívia, no Ruanda e no Chile manifestei aos bispos a minha disponibilidade para realizar uma visita às suas dioceses para fortalecer a comunhão eclesial. Acolhida a minha proposta, tive a oportunidade de visitar quase todas as circunscrições eclesiásticas dos três países. O próprio Papa Francisco, em Dezembro de 2013, recomendou-me que prosseguisse as visitas às Diocese do Chile.

 

Nomeação de bispos: “Não há prazos”

A nomeação de bispos no Chile foi muito lenta. De 27 dioceses há nove com administradores apostólicos e uma com administrador diocesano. Que se passa? Não há quem possa assumir certos cargos?

— Devendo prover dez dioceses em pouco tempo, o trabalho para reunir a informação necessária para encontrar candidatos dignos e idóneos é longo e minucioso.

 

Há prazos para as nomeações? 

— Não há prazos. Embora seja verdade que é melhor um novo bispo ser nomeado o mais cedo possível. Entretanto, os administradores apostólicos, com as faculdades de um bispo diocesano, estão a realizar um valioso trabalho pastoral.

 

Vai ter saudades de alguma coisa do Chile depois da sua passagem pelo país?

— Foram oito anos em que conheci, apreciei e partilhei inúmeros aspectos da realidade chilena. Não esquecerei as visitas às diocese, as belas amizades, a valiosa ajuda da pequena equipa da nunciatura, a visita do Papa e a dolorosa realidade dos abusos na Igreja. Termino uma experiência com luzes e sombras. O que lhe posso assegurar é que levarei o Chile no coração.

 

“A Igreja não é possível sem a presença da mulher”

— Na sua opinião, o papel da mulher na Igreja deve ser analisado ou alterado?

— A Igreja nasce do “sim” de Maria. Não é possível sem a presença da mulher. Ao visitar o Chile, vi o grande contributo das mulheres nas comunidades cristãs. Espero que a Igreja possa reflectir profundamente sobre a responsabilidade da mulher.

 

A que considera que se deve a falta de vocações? 

— Em África e na Ásia, a Igreja está numa etapa de grande vitalidade e tem muitas vocações. Sobretudo na Europa e na América é que se está a viver um momento crítico. A falta de vocações nestes continentes é consequência da secularização, que afecta todas as denominações religiosas. Só a centralidade de Cristo fará renascer na juventude o desejo de entrega a Deus e aos irmãos.

 

No Chile, a Igreja desempenhou um papel importante no acolhimento aos migrantes. Para além do acolhimento em si mesmo, que é algo que tem a ver com participar do sofrimento do outro, o senhor vê limites a esse acolhimento?

— Quatro verbos definem os cristãos na sua atitude para com os migrantes: acolher, proteger, promover e integrar. Os governos devem agir com prudência e responsabilidade para definir a maneira adequada de receber os migrantes. Nesse sentido, são iluminadoras as palavras do Papa Francisco em Iquique: “Esta terra é terra de sonhos, mas procuremos que continue a ser também terra de hospitalidade”.

 

Que significa para si o regresso a Portugal como núncio? 

— Regresso com agrado à nunciatura em Portugal onde fui Secretário nos fins dos anos 80. Como o Chile, também Portugal é um lindo país, com uma gloriosa história e um rico património artístico. Além disso alegra-me saber que poderei visitar de novo o fascinante Santuário de Fátima e os lugares donde viveu Santo António, por quem tenho uma especial devoção.

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A entrevista de Mons. Ivo Scapolo, novo Núncio Apostólico em Portugal, publicada antes de sair do Chile, encontra-se noutras línguas em:
http://iglesia.cl/39311-mons-ivo-scapolo-termino-una-experiencia-con-luces-y-sombras.html