À luz da Páscoa que vivemos, realizamos a 194ª Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa. Temos presentes as mensagens e homilias dos Bispos das nossas Dioceses e o seu instante apelo para que a Páscoa de Jesus Cristo nos leve a todos a “passar” verdadeiramente para Deus e para o cabal cumprimento do seu desígnio em relação à humanidade inteira e à vida de cada um nas suas várias articulações: familiares, profissionais ou sociais em geral.

É um apelo sempre renovado, que a Liturgia da Semana Santa traduz com particular intensidade. Pela participação nas celebrações e também pelos media, boa parte da nossa sociedade foi tocada pelo anúncio pascal, que constitui certamente um sinal de esperança para muitos e um motivo de reforçada conversão espiritual e prática para os que se querem discípulos de Jesus Cristo. Têm especial impacto as palavras e atitudes do Papa Francisco, que tanto nos estimulam nesse sentido. O Santo Padre é reconhecidamente uma das vozes que o mundo escuta e mais nos desperta para as exigências daquela justiça que, só ela, garantirá a paz.

Saudando todos os participantes nesta Assembleia e também os profissionais da Comunicação Social aqui presentes, refiro particularmente o Senhor D. Manuel da Silva Rodrigues Linda, até agora Bispo das Forças Armadas e de Segurança, que o Papa Francisco há pouco nomeou para Bispo do Porto. Com todos os colegas de Episcopado desejo-lhe as maiores felicidades no novo ministério, já garantidas pelas muitas qualidades demonstradas.

Teremos também muito presente o Senhor D. António dos Santos, Bispo emérito da Guarda, recentemente falecido. Deus o recompensará pelos seus muitos trabalhos pastorais, sempre marcados pela constante entrega ao ministério e a muita proximidade a todos, na vida eclesial e social.

A agenda desta Assembleia Plenária tem vários pontos, com particular menção das informações e comunicações por parte dos Presidentes das Comissões Episcopais.

Na verdade, é no seu âmbito – além do Conselho Permanente e do Secretariado Geral – que decorre o trabalho habitual da nossa Conferência, acompanhando, estimulando e aproximando mutuamente o dia-a-dia das Igrejas diocesanas e da vida católica em geral. Ouvir, ainda que sucintamente, as respetivas informações, reforça em cada um de nós e nesta instância o indispensável sentido do conjunto pastoral à escala do país. Tanto mais quanto o quadro diocesano tem geografia fixa, mas a nossa população vive em grande mobilidade “interdiocesana”, por motivos profissionais, escolares e outros.

Dentro dos pontos da agenda, destaco agora três. Em primeiro lugar, a proposta de um Plano de Formação de Catequistas. Detenho-me neste um pouco mais, pela sua particular importância na vida da Igreja.

Nem sempre se presta a devida atenção ao facto de a catequese incluir no seu exercício a maior parte do que poderíamos chamar o catolicismo comunitário e ativo no nosso país. Refiro-me às dezenas de milhar de catequistas que – semana após semana, ano após ano – transmitem a crianças, adolescentes, jovens e adultos a fé em Cristo e a vivência eclesial. Merecem-nos um particular reconhecimento e toda a colaboração na sua formação adequada, nas atuais circunstâncias. Apresentada pela Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé, a proposta acentua pontos de especial relevo, como os seguintes:

Antes de mais, «a convicção de que a qualidade da catequese depende, em grande parte, de catequistas bem formados». Catequizar significa ecoar a mensagem de Cristo, quer no seu primeiro anúncio quer no seu desenvolvimento doutrinal e prático, na comunidade cristã e na sociedade em que há de ser fermento.

Noutros tempos, a fixação nos lugares físicos e mentais onde em geral se nascia e vivia, com grande permanência de mentalidades e costumes, fazia o ato catequético parecer simples e decorrente, da família para a paróquia de cada um. Hoje em dia, a variação quase constante de situações locais e culturais, mediaticamente potenciada, desafia o crente, e em especial os transmissores da mensagem cristã, para o aprofundamento das convicções e suas bases, bem como para ganhar linguagem e comunicação eficientes. É um desafio permanente que exige formação contínua. A “boa formação” é aquela que nunca desiste de aprender mais para comunicar melhor.

Sobretudo para melhor testemunhar o encontro com Cristo vivo, que é a substância do ser cristão. A catequese não se fica pela transmissão de conteúdos e enunciados. Inclui-os necessariamente, como todo o conhecimento implica. Mas são consequência de algo vivencial e convivente, resultante do encontro com Alguém realmente vivo e testemunhado por quem O encontre e comunique.

É assim que a Proposta que analisaremos cita o Papa Bento XVI: «Esta formação tem como base o encontro com Jesus Cristo que dá à vida do catequista “um novo horizonte e, desta forma, um rumo decisivo”» (Deus Caritas est, 1). E o Papa Francisco: «Consciente disso, o catequista, “que não deixa jamais de ser discípulo, sabe que Jesus caminha com ele, fala com ele, respira com ele, trabalha com ele. Sente Jesus vivo com ele, no meio do compromisso missionário”» (Evangelii Gaudium, 266).

A Proposta refere documentos básicos desta Conferência Episcopal sobre o tema. Especialmente a Carta Pastoral Catequese: A alegria do encontro com Jesus Cristo, há um ano publicada, que se desenvolve a partir dessa mesma categoria do “encontro” – com Cristo vivo e, nele, com a Igreja e com a vida em geral. Encontro sempre aprofundado, como toda a experiência mística e existencial cristã confirma, nos dois milénios que já leva. Fiéis e, por isso mesmo, criativos, como acontece nas amizades fecundas.

O documento adianta cinco “opções formativas”, para «potenciar a identidade do catequista, discípulo missionário, inserido na comunidade cristã». Requer uma abordagem: Querigmática, em que o anúncio de Cristo vivo prevaleça sempre. Mistagógica, em que experiência cristã e sinais litúrgicos se vão acompanhando mutuamente. Sempre fundamentada na Palavra de Deus – lida, refletida e rezada. Eclesial, numa comunidade que acompanha cada um no aprofundamento da fé. Processada de modo sistemático, orgânico e integral.

Uma catequese assim pede a formação contínua dos catequistas, em que o que ensinam e o que aprendem caminhem sempre a par. Pode parecer demasiado exigente, mas não o será tanto se corresponder à exigência interior do próprio catequista, interessado, também ele, em aprofundar o conhecimento de Jesus Cristo, como realidade total e totalizante. Como escrevia São Paulo: «… para que tenham ânimo nos seus corações, vivendo bem unidos no amor, e assim atinjam toda a riqueza, que é a plena compreensão, o conhecimento do mistério de Deus: Cristo, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento» (Cl 2, 2-3).

Analisaremos também um “Plano de Comunicação Social da Igreja” que, nas palavras do Presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, visa articular iniciativas, protagonistas e meios:

A Igreja Católica em Portugal tem «várias iniciativas, vários protagonistas, vários meios, mas falta a harmonização, que o projeto tem de incorporar e planificar». Sendo importante fazer parcerias, tal «nunca vai tirar aquilo que é a originalidade de cada meio ou de cada grupo, de cada instituição». Pretende-se sim que, em parceria, «o mesmo acontecimento, a mesma notícia, ou a mesma reflexão possa circular por mais intervenientes e possa atingir mais públicos» (cf. Ecclesia, 10 de janeiro de 2018).

Também neste sentido teremos de corresponder à sociocultura atual, que tanto inclui a pluralidade das abordagens como requer a definição dos interlocutores, no essencial da respetiva mensagem e na precisão dos posicionamentos. A própria vivência interna da comunidade eclesial pode e deve ser uma escola de comunicação nesse sentido, projetada depois no mundo mediático em geral.

O último ponto que refiro é relativo à próxima Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos, que decorrerá em Roma no próximo mês de outubro.

Da parte da Comissão Episcopal Laicado e Família ser-nos-á apresentada uma “leitura das respostas ao Questionário”, provindas das Dioceses e de jovens individualmente. Também elegeremos dois Bispos da CEP para o Sínodo, que tem como tema “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”.

Importa ter presente a articulação dos três tópicos: jovens, fé e discernimento vocacional complementam o que dissemos atrás sobre a catequese como caminho discipular. A descoberta do mundo, tão intensa na fase juvenil da vida, define-se cristãmente como vocação divina e resposta de cada um. Ou, como escreveu São Paulo: «fomos feitos por Deus, criados em Cristo Jesus, para vivermos na prática das boas obras que Deus de antemão preparou para nelas caminharmos» (Ef 2, 11).

Serão estes os pontos estruturais da Assembleia que iniciamos. Incidem na vida da Igreja, como iniciação e difusão evangélica, na vida dos crentes e na relação com a sociedade em que se integram. Tanto nos definem a nós como nos definem a comunicação.

 

Fátima, 9 de abril de 2018
+ Manuel Clemente
Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa

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