Muito bom dia a todos os Senhores Cardeais, Bispos e convidados para esta 199.ª Assembleia Plenária da CEP, bem como aos representantes dos órgãos de comunicação.

Pela primeira vez, a Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa reúne-se de forma parcialmente presencial, mas maioritariamente em ligação digital, para permitir uma participação segura de todos os bispos, residenciais, auxiliares e eméritos, atendendo à preocupante situação de pandemia em que se encontra o país e o mundo exigindo redobrados cuidados da parte de todos e medidas que assegurem a superação da crise, em todas as dimensões humanas, sociais e espirituais que ela afeta.

Este é mesmo um dos temas fundamentais de que se ocupará a Assembleia. Na última reunião deste órgão colegial, os bispos refletiram e publicaram um documento sobre a dimensão económico-social das consequências da pandemia e sobre os desafios que se colocam a toda a humanidade. O que então foi exposto representa uma visão sintética do momento que estamos a viver, avançando algumas perspetivas para encetar um modelo renovado de atenção, atitude e esperança e projetar o futuro pós-pandémico.

A reflexão continua nesta sessão, lançando o olhar mais próximo sobre a realidade e os desafios do presente e as perspetivas de futuro, que a crise representa para toda a Igreja; concretamente para a Igreja em Portugal. Esta pandemia que paralisou e ainda continua a impedir dramaticamente o normal desenrolar das atividades da humanidade requer atitudes e medidas de caráter sanitário, social, económico, cultural e espiritual.

Precisamos urgentemente de vacinas e de tratamentos eficazes, mas não somos apenas organismos doentes do coronavírus. Somos pessoas que precisam de integrar o sofrimento, os esforços e sacrifícios e a beleza dramática da solidariedade num sentido de viver e num caminho de futuro. Que não amanheçamos um dia apenas curados, exaustos e vazios da pandemia, e naturalmente sedentos de voltar sôfregos e saudosos ao que já era. Tanto sacrifício, tanta luta e tanta vontade de ajudar e mesmo tantos erros e atitudes irresponsáveis não podem simplesmente ficar escritos nas páginas dum livro que se fecha e arquiva, ou numa página das redes sociais onde a memória recusa fazer um clique. Devem desabrochar num mundo, numa sociedade, numa economia, numa Igreja mais solidários, mais atentos, com mais esperança. Temos de voltar a socializar, temos de voltar às nossas igrejas, mais humanos, mais fraternos, mais crentes e consequentes ao Deus que caminha com a humanidade, sempre atento aos mais frágeis e sempre promotor de renovação e de esperança.

Durante os meses passados – certamente com falhas e de forma que deve sempre ser melhorada – a Igreja em Portugal procurou ser sinal de esperança. Nunca se fechou com medo nem comodismo, mas tomou as medidas necessárias para evitar a expansão da pandemia, afirmando, na palavra e no comportamento, que é possível viver e celebrar juntos, com a contenção e as medidas necessárias, reafirmando a própria fé, traduzida na atitude responsável de cuidar uns dos outros e do mundo no seu conjunto.

Não foi apenas na criatividade da celebração, da partilha e do aprofundamento da fé que fomos vivendo e crescendo, com recurso generalizado aos meios de comunicação social. Foi igualmente na sensibilidade para assistir quem precisa, de estar atentos às vítimas económicas, sociais e do isolamento que estes meses foram lançando sementes de esperança, baseada na presença do Espírito de Deus, no meio das crises dos homens. Sinal de esperança foi a dedicação dos sacerdotes, diáconos e de tantas e tantos cristãos que têm permitido manter e desenvolver as celebrações e os contatos, estar com os mais isolados e atender os que mais perderam com a pandemia. É motivo particular de esperança que, neste contexto, inúmeros jovens tenham despertado para uma participação ativa na vida das comunidades, através dos serviços em que foram participando, com especial relevo no acolhimento, nas plataformas de redes sociais e na assistência a quem precisa.

No meio dos sacrifícios e esforços das instituições e pessoas, a começar pelo Serviço Nacional de Saúde e pelos profissionais que têm sido de uma abnegação que ficará na memória e no coração de todos nós, quando tantos e com total dedicação se esforçam por dar razões e condições para “ajudar a viver”, não encontro lógica no facto de se escolher precisamente este momento para dizer aos que tocam o mais fundo da dor e do abandono: “tem coragem, ajudamos-te a morrer; estamos a caminho de aprovar uma opção que aceita a tua eutanásia”. Respeito profundamente o drama de quem sofre e não estou pronto para condenar ninguém pelas atitudes tomadas em consequência da dor, da falta de sentido, de condições e de esperança: aquilo de que essas pessoas precisam não é de mais condenação nem de estigmas. Mas também não são as soluções facilitadoras e “legalizadas” que ajudarão a criar uma sociedade mais humana. O que é preciso é acompanhar e oferecer condições e razões para viver. Que se tenha retomado esta iniciativa precisamente neste momento e se tenha negado a discussão pública integrada num pronunciamento da vontade do povo, em assunto tão importante e fraturante, não abona a nossa democracia nem a promoção de uma cidadania que se quer participativa e interventiva.

É sobre essas sombras e sobre as luzes que nelas brilham que queremos refletir e partilhar o compromisso e a esperança, com que nos propomos estar presentes e empenhados. Cremos que o Evangelho nos chama a estar ativos na construção do país e do mundo, através de uma cultura de humanização e dignidade que sabe integrar a diversidade e promover o respeito pela Terra onde vivemos, para que seja “casa comum da humanidade”, dando especial atenção aos mais frágeis e desprotegidos. Mas, ao mesmo tempo, continuamos a afirmar que a existência e o futuro não se fecham apenas nas realizações que podemos originar a controlar, mas que têm uma origem e um horizonte de concretização que nos fazem olhar com confiança e esperança, para o Senhor da vida e do universo, que Jesus nos fez conhecer com o Pai, que torna possível que todos sejamos irmãos e irmãs.

Os atentados das últimas semanas na Europa, a todos os títulos condenáveis, para além do que possam ser as motivações daqueles que os praticam, bem como as densas nuvens de conflitualidade internacional que pairam sobre as relações políticas e económicas entre as nações, sublinham a necessidade de uma renovação e não seja simplesmente o regresso à “normalidade de sempre”.

Neste caminho de reflexão e proposta, somos também iluminados pela última encíclica do Papa Francisco “Fratelli Tutti” sobre a fraternidade e a amizade social. Esta encíclica de caráter eminentemente social deve ser uma referência e um indicador de caminhos concretos para evitar o curso conflituoso e destrutivo que leva a humanidade, causando miséria, ansiedade e revolta. Para além da análise desses males, o Papa, seguindo a tradição da Igreja e reformulando-a para os nossos tempos, aponta caminhos e sobretudo propõe atitudes que possam usar as poderosas capacidades científicas e tecnológicas de que dispomos para a preservação e o futuro da humanidade em harmonia com a terra que a sustenta.

Quero ainda fazer uma memória especialmente amiga dos dois bispos de Viana do Castelo que deixaram o nosso convívio nestes meses: D. Anacleto Cordeiro Gonçalves de Oliveira (17-06-1946 – 18-09-2020), cuja morte em acidente de viação a todos chocou e foi particularmente sentida, tanto na diocese de Viana, que serviu como Bispo, como no seio da Conferência Episcopal onde se destacou pela sua presença fraterna, ativa e questionadora de novos caminhos. Pouco tempo depois, deixava-nos D. José Augusto Pedreira (10-04-1935 – 14-10-2020), Bispo emérito da mesma diocese de Viana, depois de uma vida de grande dedicação à Igreja e de colaboração nesta Conferência dos bispos. Sentimos muito a saudade e a falta destes dois irmãos e amigos e pedimos ao Senhor, Bom Pastor, em cuja Igreja serviram procurando imitá-Lo, que os acolha misericordioso nos seus braços e que faça germinar e desenvolver as sementes de Evangelho que foram lançando na sua Igreja, ao longo da vida, particularmente na Diocese de Viana do Castelo.

Nesta Assembleia e no mês em que recordamos os nossos defuntos, celebraremos a memória destes dois nossos irmãos bispos. E, na conclusão, no sábado, 14 de novembro, celebraremos a Eucaristia, tendo presente todos as pessoas que foram vítimas da pandemia, durante estes meses. Deveríamos estar juntos todos os bispos e alguns representantes das dioceses de Portugal para esta celebração de caráter nacional. Dado que a situação que se vive atualmente no país não é propícia a muitas deslocações, tomarão parte nesta celebração os bispos que puderem estar em Fátima e os outros estarão unidos a nós e às famílias daqueles que pereceram, em celebração de saudade e de luto, mas igualmente de esperança e de vida, no Senhor Jesus, morto e ressuscitado, que nunca nos deixa cair das suas mãos fortes e carinhosas.

Que o seu Espírito nos guie nesta Assembleia, para procurarmos hoje os caminhos de renovação para a Igreja que o Senhor nos chamou a servir, participando nos dramas do país e do mundo e procurando vias de transformação e de esperança.

Bom trabalho a todos!

 

Fátima, 11 de novembro de 2020

† José Ornelas Carvalho, Bispo de Setúbal e Presidente da CEP