{"id":9032,"date":"2025-10-16T16:24:31","date_gmt":"2025-10-16T15:24:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/?p=9032"},"modified":"2025-10-16T17:55:29","modified_gmt":"2025-10-16T16:55:29","slug":"a-genese-e-a-importancia-de-nostra-aetate-para-o-nosso-tempo-cardeal-george-jacob-koovakad","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/a-genese-e-a-importancia-de-nostra-aetate-para-o-nosso-tempo-cardeal-george-jacob-koovakad\/","title":{"rendered":"&#8220;A g\u00e9nese e a import\u00e2ncia de &#8216;Nostra Aetate&#8217; para o nosso tempo&#8221; &#8211; Cardeal George Jacob Koovakad"},"content":{"rendered":"<p><em>Confer\u00eancia do Cardeal George Jacob Koovakad, Prefeito do Dicast\u00e9rio para o Di\u00e1logo Inter-Religioso, proferida em F\u00e1tima, por ocasi\u00e3o do 60.\u00ba anivers\u00e1rio da Nostra Aetate<\/em><\/p>\n<p>[<a href=\"https:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/20251016_NostraAetate_Conferencia_CardealKoovakad.docx\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Word<\/a>] [<a href=\"https:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/20251016_NostraAetate_Conferencia_CardealKoovakad.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">PDF<\/a>]<\/p>\n<div id='gallery-1' class='gallery galleryid-9032 gallery-columns-2 gallery-size-large'><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/a-genese-e-a-importancia-de-nostra-aetate-para-o-nosso-tempo-cardeal-george-jacob-koovakad\/20251016-nostraaetate_conferencia_cardealkoovakad-03\/'><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"697\" src=\"https:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/20251016-NostraAetate_Conferencia_CardealKoovakad-03-1024x697.png\" class=\"attachment-large size-large\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/20251016-NostraAetate_Conferencia_CardealKoovakad-03-1024x697.png 1024w, https:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/20251016-NostraAetate_Conferencia_CardealKoovakad-03-300x204.png 300w, https:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/20251016-NostraAetate_Conferencia_CardealKoovakad-03-768x523.png 768w, https:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/20251016-NostraAetate_Conferencia_CardealKoovakad-03-1536x1046.png 1536w, https:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/20251016-NostraAetate_Conferencia_CardealKoovakad-03-2048x1395.png 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div><\/figure><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/a-genese-e-a-importancia-de-nostra-aetate-para-o-nosso-tempo-cardeal-george-jacob-koovakad\/20251016-nostraaetate_conferencia_cardealkoovakad-01\/'><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"697\" src=\"https:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/20251016-NostraAetate_Conferencia_CardealKoovakad-01-1024x697.png\" class=\"attachment-large size-large\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/20251016-NostraAetate_Conferencia_CardealKoovakad-01-1024x697.png 1024w, https:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/20251016-NostraAetate_Conferencia_CardealKoovakad-01-300x204.png 300w, https:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/20251016-NostraAetate_Conferencia_CardealKoovakad-01-768x523.png 768w, https:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/20251016-NostraAetate_Conferencia_CardealKoovakad-01-1536x1046.png 1536w, https:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/20251016-NostraAetate_Conferencia_CardealKoovakad-01-2048x1395.png 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div><\/figure>\n\t\t<\/div>\n\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>Fotos: Ag\u00eancia Ecclesia<\/em><\/span><\/p>\n<p>Reverend\u00edssimo Senhor D. Jos\u00e9 Ornelas Carvalho, SCJ, Bispo de Leiria-F\u00e1tima e Presidente da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa,<br \/>\nEmin\u00eancias e Excel\u00eancias Reverend\u00edssimas, meus queridos irm\u00e3os bispos,<br \/>\nReverendos Monsenhores, Padres, Irm\u00e3s, Irm\u00e3os e meus queridos amigos,<\/p>\n<p>Sinto-me muito feliz e aben\u00e7oado por estar hoje aqui convosco, neste local sagrado do Santu\u00e1rio da Nossa Senhora, onde crist\u00e3os, crentes de outras religi\u00f5es e at\u00e9 mesmo n\u00e3o crentes de todo o mundo v\u00eam visitar o santu\u00e1rio ou fazer a sua peregrina\u00e7\u00e3o. Sinto verdadeiramente que sou um co-peregrino com todos aqueles que visitam este lugar sagrado. E estou muito grato a Sua Excel\u00eancia D. Armando Esteves Domingues, presidente da Comiss\u00e3o Miss\u00e3o e Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o, e ao Rev. Padre Adelino Ascenso, SMBN, diretor da Subcomiss\u00e3o para o Di\u00e1logo Inter-religioso da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa, por me terem convidado a dirigir-me a v\u00f3s por ocasi\u00e3o do sexag\u00e9simo anivers\u00e1rio da <em>Nostra Aetate<\/em>, que ser\u00e1 celebrado em todo o lado no dia 28 deste m\u00eas. Agrade\u00e7o sinceramente, em particular, ao Rev. Padre Adelino por ter feito a liga\u00e7\u00e3o entre a Subcomiss\u00e3o e o Dicast\u00e9rio para facilitar a minha visita, embora ele n\u00e3o esteja presente hoje devido a outro compromisso importante.<\/p>\n<p>A \u00faltima vez que visitei este lugar sagrado foi a 5 de agosto de 2023, durante a viagem apost\u00f3lica do Papa Francisco, que rezou o ros\u00e1rio com jovens deficientes e doentes e alguns jovens encarcerados. Nunca esquecerei a sua ora\u00e7\u00e3o silenciosa pela paz.<\/p>\n<p>Fui convidado a falar-vos sobre a g\u00e9nese e a import\u00e2ncia da <em>Nostra Aetate<\/em> (<em>NA<\/em>) para os nossos tempos. A <em>Nostra Aetate<\/em>, a Declara\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio Vaticano II sobre a rela\u00e7\u00e3o da Igreja com as religi\u00f5es n\u00e3o crist\u00e3s \u2013 promulgada por S\u00e3o Paulo VI em 28 de outubro de 1965 \u2013 foi um momento decisivo na hist\u00f3ria da Igreja Cat\u00f3lica. Durante s\u00e9culos, a Igreja Cat\u00f3lica n\u00e3o teve a abertura de esp\u00edrito e a atitude de aceita\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas nobres, verdadeiras e boas encontradas nas religi\u00f5es n\u00e3o crist\u00e3s. Recordar-vos-eis da m\u00e1xima frequentemente citada atribu\u00edda a S\u00e3o Cipriano, da \u00e9poca patr\u00edstica: <em>Extra ecclesiam nulla salus<\/em>, ou seja, fora da Igreja n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o, embora tenha sido propagada de boa f\u00e9 com o zelo de oferecer a salva\u00e7\u00e3o a todos, o que se entendia ser poss\u00edvel apenas se as pessoas se tornassem membros da Igreja atrav\u00e9s do batismo. Mas tamb\u00e9m sabemos que esta m\u00e1xima n\u00e3o pode ser um ensinamento da Igreja vinculativo para as pessoas de outras religi\u00f5es<\/p>\n<p>Por isso, para esclarecer o mal-entendido em conson\u00e2ncia com as afirma\u00e7\u00f5es do Conc\u00edlio Vaticano II, o Catecismo da Igreja (CCC) em 1992 reformulou este ensinamento de forma positiva para significar que \u00abtoda a salva\u00e7\u00e3o vem de Cristo, a Cabe\u00e7a, atrav\u00e9s da Igreja, que \u00e9 o seu Corpo\u00bb (846) e que a m\u00e1xima acima mencionada n\u00e3o se aplica \u00e0queles \u00abque, sem culpa pr\u00f3pria, n\u00e3o conhecem o Evangelho de Cristo nem a sua Igreja, mas que, mesmo assim, procuram Deus com cora\u00e7\u00e3o sincero e, movidos pela gra\u00e7a, tentam nas suas a\u00e7\u00f5es fazer a sua vontade, tal como a conhecem atrav\u00e9s dos ditames da sua consci\u00eancia \u2013 tamb\u00e9m esses podem alcan\u00e7ar a salva\u00e7\u00e3o eterna\u00bb (847, cf. <em>Lumen Gentium<\/em> 16). Da mesma forma, o artigo 848 do Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica reflete o <em>Ad Gentes<\/em>, Decreto sobre a atividade mission\u00e1ria da Igreja, do Conc\u00edlio Vaticano II, que afirma claramente que \u00abEmbora Deus, por meios que s\u00f3 Ele conhece, possa conduzir aqueles que, sem culpa, ignoram o Evangelho, a encontrar a f\u00e9 sem a qual \u00e9 imposs\u00edvel agradar-Lhe (Hb 11, 6), a Igreja tem a necessidade (1 Cor 9, 16) e, ao mesmo tempo, o dever sagrado de pregar o Evangelho\u00bb (<em>Ad Gentes<\/em> 7).<\/p>\n<p>Com o seu apelo aos cat\u00f3licos para que respeitem o que \u00e9 \u00abverdadeiro e santo\u00bb (NA 2) nas outras religi\u00f5es e tenham sincera rever\u00eancia por \u00abaquelas formas de conduta e de vida, aqueles preceitos e ensinamentos que, embora difiram em muitos aspetos\u00bb (NA 2) dos que a Igreja defende, a <em>Nostra Aetate<\/em> provocou uma mudan\u00e7a fundamental na atitude da Igreja Cat\u00f3lica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras religi\u00f5es. Exortou todos os cat\u00f3licos a promover a unidade e o amor entre todos (NA 1), atrav\u00e9s do di\u00e1logo e da colabora\u00e7\u00e3o (NA 2), com base no que \u00abt\u00eam em comum e no que os aproxima\u00bb (NA 1). A <em>Nostra Aetate<\/em> abriu assim caminho para um impacto transformador na vida da Igreja, inaugurando uma nova era de rela\u00e7\u00f5es respeitosas entre os cat\u00f3licos e as pessoas de todas as outras tradi\u00e7\u00f5es religiosas.<\/p>\n<h3><strong><em>G\u00e9nese do documento: S\u00e3o Jo\u00e3o XXIII, o criador<\/em><\/strong><\/h3>\n<p>A <em>Nostra Aetate<\/em> n\u00e3o surgiu do nada. Embora tenha sido verdadeira e definitivamente o fruto das reflex\u00f5es da Igreja sobre a busca de um novo fervor e novas express\u00f5es da sua miss\u00e3o <em>inter gentes<\/em>, ou seja, entre pessoas de diversas culturas e tradi\u00e7\u00f5es religiosas no mundo contempor\u00e2neo, \u00e0 luz do seu envolvimento hist\u00f3rico socio-religioso em v\u00e1rios n\u00edveis ao longo de muitos s\u00e9culos, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que o nascimento da <em>Nostra Aetate<\/em> foi influenciado por muitos fatores que gostaria de classificar em <strong>fatores remotos<\/strong>, <strong>pr\u00f3ximos<\/strong> e <strong>imediatos<\/strong>.<\/p>\n<p>Os <strong><u>fatores remotos<\/u><\/strong>, entre outros, foram: i) a dissemina\u00e7\u00e3o de ideais como liberdade individual, toler\u00e2ncia religiosa, progresso de e para todos, direitos naturais e direitos humanos aliados, e a maior consciencializa\u00e7\u00e3o sobre eles entre as massas em toda a Europa e nas col\u00f3nias europeias devido ao Movimento Iluminista Europeu (1685-1815); e ii) uma crescente aprecia\u00e7\u00e3o dentro da Igreja Cat\u00f3lica por outras tradi\u00e7\u00f5es religiosas e heran\u00e7as espirituais encontradas em todo o mundo, que, em grande parte, se deve ao aumento dos contactos da Igreja com os seus seguidores e ao seu estudo acad\u00e9mico mais aprofundado das religi\u00f5es e compreens\u00e3o de tradi\u00e7\u00f5es religiosas diferentes da sua.<\/p>\n<p>Passando aos <strong><u>fatores pr\u00f3ximos<\/u><\/strong>, um que teve import\u00e2ncia e relev\u00e2ncia foi a c\u00f3lera e a repulsa generalizadas pelo Holocausto (<em>Shoah<\/em>), que durou seis anos, a campanha antijudaica do regime nazi durante a Segunda Guerra Mundial (1935-1945), que ceifou a vida de seis milh\u00f5es de judeus, ou seja, \u00abdois em cada tr\u00eas\u00bb judeus que viviam na Europa (cf. <em>The American Jewish Yearbook<\/em>). Foi uma esp\u00e9cie de culmin\u00e2ncia da persegui\u00e7\u00e3o aos judeus que se prolongava h\u00e1 muitos s\u00e9culos devido ao seu papel percebido na morte de Jesus. O cristianismo foi acusado pelos judeus de cumplicidade ou indiferen\u00e7a em todo o caso. Dentro da pr\u00f3pria Igreja Cat\u00f3lica, havia uma consci\u00eancia crescente de que a Igreja deveria abordar os judeus e o juda\u00edsmo de uma forma diferente da tradicional \u00abensinar o desprezo\u00bb, como o distinto estudioso judeu franc\u00eas Prof. Jules Isaac escolheu denominar. O Prof. Isaac era ele pr\u00f3prio um sobrevivente do Holocausto. Tinha perdido toda a sua fam\u00edlia no Holocausto. Entre outros fatores pr\u00f3ximos estavam a forma\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas em 1945 e a Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos pela Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas em 1948, que no artigo 18.\u00ba delineava claramente que: \u00abTodos t\u00eam direito \u00e0 liberdade de pensamento, de consci\u00eancia e de religi\u00e3o; este direito inclui a liberdade de mudar de religi\u00e3o ou cren\u00e7a, bem como a liberdade de manifestar a sua religi\u00e3o ou cren\u00e7a, individualmente ou em comunidade com outros, em p\u00fablico ou em privado, atrav\u00e9s do ensino, da pr\u00e1tica, do culto e da observ\u00e2ncia.\u00bb A Igreja \u2013 por princ\u00edpio, em esp\u00edrito e na pr\u00e1tica \u2013 defendeu as liberdades e os direitos que a Declara\u00e7\u00e3o proclamava para todos os povos e todas as na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por fim, os <strong><u>fatores imediatos<\/u><\/strong>, em termos gerais, foram: i) a preocupa\u00e7\u00e3o da Igreja em reformar-se (<em>ecclesia semper reformanda<\/em>) em todas as \u00e1reas da sua vida e miss\u00e3o; ii) atualizar as express\u00f5es da sua doutrina para que fossem facilmente compreendidas por todas as pessoas, incluindo aquelas fora dos limites vis\u00edveis da Igreja; iii) o seu desejo de n\u00e3o permanecer indiferente \u00e0s maravilhosas descobertas da engenhosidade humana e ao progresso das ideias do mundo moderno; iv) exortar os homens para que, acima da atra\u00e7\u00e3o das realidades vis\u00edveis, voltassem os seus olhos para Deus, fonte de toda a sabedoria e toda a beleza; v) e exort\u00e1-los a adorar e servir o Senhor, para que o encanto fugaz das coisas n\u00e3o impe\u00e7a de forma alguma o verdadeiro progresso das pessoas de todas as culturas e todos os territ\u00f3rios geopol\u00edticos (cf. S\u00e3o Jo\u00e3o XXIII, <em>Discurso na Solene Inaugura\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio Vaticano II<\/em>).<\/p>\n<p>Considero oportuno elaborar aqui os fatores imediatos em detalhe. Como sabemos pelas p\u00e1ginas da hist\u00f3ria papal, 13 anos ap\u00f3s o fim da Segunda Guerra Mundial, o cardeal Giuseppe Roncalli (1881-1963), patriarca de Veneza, foi eleito papa em 28 de outubro de 1958 e escolheu Jo\u00e3o XXIII como seu nome papal. Preocupado com as crises espirituais, morais e materiais da \u00e9poca devido \u00e0 seculariza\u00e7\u00e3o, aos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos e \u00e0 Segunda Guerra Mundial, o \u00abPapa Bom\u00bb, como era popularmente conhecido, anunciou a sua decis\u00e3o na Bas\u00edlica de S\u00e3o Paulo Fora dos Muros, em 25 de janeiro de 1959, de convocar um conc\u00edlio ecum\u00e9nico para renovar e atualizar (<em>aggiornamento<\/em>) a Igreja Cat\u00f3lica em resposta aos desafios do mundo moderno, promover a unidade crist\u00e3 e tornar a Igreja mais pastoral na sua abordagem e alcance. O Conc\u00edlio Vaticano II come\u00e7ou, como sabemos, em 11 de outubro de 1962.<\/p>\n<p>Como parte da sua vis\u00e3o para a unidade crist\u00e3, o Papa, agora S\u00e3o Jo\u00e3o XXIII, criou o Secretariado para a Promo\u00e7\u00e3o da Unidade Crist\u00e3 em 5 de junho de 1960 e nomeou o cardeal Augustin Bea como seu primeiro presidente. No dia 13 do mesmo m\u00eas, o referido Prof. Isaac encontrou-se com o Santo Padre numa audi\u00eancia privada. Nessa breve reuni\u00e3o, o Prof. Isaac apresentou ao Papa a sua pesquisa sobre as ra\u00edzes hist\u00f3ricas do antissemitismo crist\u00e3o e apelou para que \u00abos ensinamentos de desprezo (<em>m\u00e9pris<\/em>) pelos judeus, em ess\u00eancia anticrist\u00e3os, fossem purificados por serem biblicamente crist\u00e3os\u00bb (Thomas Stransky, <em>The Genesis of Nostra Aetate<\/em>, America Magazine, 24 de outubro de 2005). A experi\u00eancia pessoal do Papa com o Holocausto e o facto de ter salvado milhares de judeus dos nazis quando era Delegado Apost\u00f3lico na Turquia (1935-1944) tornaram-no recetivo ao desafio do Prof. Isaac de mudar a atitude da Igreja em rela\u00e7\u00e3o ao povo judeu. Ap\u00f3s o encontro com o Prof. Isaac, o Papa instruiu o Cardeal Bea a formar uma subcomiss\u00e3o para o conc\u00edlio ecum\u00e9nico dedicada \u00e0s rela\u00e7\u00f5es crist\u00e3o-judaicas, com a miss\u00e3o de redigir uma declara\u00e7\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o da Igreja com o juda\u00edsmo. Assim, pode-se afirmar sem ambiguidade que a semente imediata da <em>Nostra Aetate<\/em> foi, em parte, plantada durante o encontro entre o Papa Jo\u00e3o XXIII e o Prof. Isaac.<\/p>\n<h3><strong><em>Prepara\u00e7\u00e3o do documento: Os prim\u00f3rdios<\/em><\/strong><\/h3>\n<p>Seguindo as instru\u00e7\u00f5es do Santo Padre, o cardeal Bea constituiu uma subcomiss\u00e3o para estudar a quest\u00e3o antes mesmo do in\u00edcio formal do Conc\u00edlio Vaticano II, em 11 de outubro de 1962. A primeira vers\u00e3o do documento intitulado <em>Decretum de Iudaeis<\/em> (Declara\u00e7\u00e3o sobre os Judeus) foi conclu\u00edda em novembro de 1961, mas nunca foi apresentada ao Conc\u00edlio, supostamente devido \u00e0 intensa press\u00e3o, particularmente por parte de governos preocupados com os seus pr\u00f3prios crist\u00e3os e temerosos de que a declara\u00e7\u00e3o implicasse o reconhecimento diplom\u00e1tico de Israel. Consequentemente, a vers\u00e3o preliminar n\u00e3o foi apresentada na primeira sess\u00e3o do Conc\u00edlio. Por um tempo, o projeto pareceu ter sido retirado devido \u00e0s condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas desfavor\u00e1veis. No entanto, em dezembro daquele ano, o Papa Jo\u00e3o XXIII apelou pessoalmente ao Cardeal Bea para que n\u00e3o abandonasse o esquema, mas fizesse melhorias no texto. Tamb\u00e9m foi decidido que o texto seria anexado ao esquema sobre ecumenismo. De acordo com o desejo do Sumo Pont\u00edfice, o rascunho passou por um processo de revis\u00f5es. Entretanto, o Papa Jo\u00e3o XXIII faleceu a 3 de junho de 1963, durante o per\u00edodo entre a primeira e a segunda sess\u00e3o do Conc\u00edlio, e o cardeal Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini (1897-1978), arcebispo de Mil\u00e3o, foi eleito novo Papa a 21 de junho de 1963, assumindo o nome de Paulo VI. Pouco depois da sua elei\u00e7\u00e3o, o novo Papa anunciou a sua decis\u00e3o de dar continuidade ao Conc\u00edlio Vaticano II.<\/p>\n<h3><strong><em>Ecclesiam Suam, de S\u00e3o Paulo VI, de 1964, <\/em><\/strong><strong><em>e Nostra Aetate<\/em><\/strong><\/h3>\n<p>O Papa Paulo VI, agora S\u00e3o Paulo VI, que merecidamente ganhou o t\u00edtulo de \u00abPapa do di\u00e1logo\u00bb devido aos seus esfor\u00e7os pioneiros para iniciar e refor\u00e7ar o di\u00e1logo entre a Igreja Cat\u00f3lica e as outras denomina\u00e7\u00f5es crist\u00e3s, religi\u00f5es mundiais e a sociedade em geral, particularmente atrav\u00e9s da sua primeira carta enc\u00edclica <em>Ecclesiam Suam<\/em> (ES) e de extensas viagens internacionais, uma novidade na hist\u00f3ria da Igreja, desempenhou um papel fundamental na evolu\u00e7\u00e3o e eventual aprova\u00e7\u00e3o e promulga\u00e7\u00e3o da declara\u00e7\u00e3o, que acabou por ser chamada <em>Nostra Aetate<\/em>. J\u00e1 no discurso inaugural da segunda sess\u00e3o conciliar, em 29 de setembro de 1963, ele comunicou claramente qual deveria ser a rela\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica com outras religi\u00f5es, ou seja, a Igreja Cat\u00f3lica deveria olhar al\u00e9m da sua pr\u00f3pria esfera e ver as outras religi\u00f5es que preservam o sentido e a no\u00e7\u00e3o de um Deus supremo e transcendente, que O adoram com atos de sincera piedade e baseiam a sua vida moral e social nas suas cren\u00e7as e pr\u00e1ticas religiosas (cf. <em>Acta Apostolicae Sedis<\/em> 1963, p. 858).<\/p>\n<p>A palavra \u00abdi\u00e1logo\u00bb, na verdade, entrou no l\u00e9xico cat\u00f3lico pela primeira vez (cf. Paulo VI, <em>Ecclesiam Suam: Caminhos da Igreja<\/em> (Boston: Pauline Books &amp; Media, 1964), gra\u00e7as a este santo Papa, que a utilizou sessenta e sete vezes na <em>Ecclesiam Suam<\/em>. Ele afirmou categoricamente: \u00abA Igreja deve entrar em di\u00e1logo com o mundo em que vive. Tem algo a dizer, uma mensagem a transmitir, uma comunica\u00e7\u00e3o a fazer\u00bb (ES 65). Com isto, apelou \u00e0 Igreja para o di\u00e1logo com as religi\u00f5es, as culturas e as pessoas de boa vontade (cf. Timothy Wright, \u00ab<em>The Dialogue of Spirituality from Ecclesiam Suam to Pope Francis, \u2018A tree that has become a forest\u2019<\/em>\u00bb em Dharmaram Journal of Religions and Philosophies, 2018 (DVK, Bangalore). Notaremos que algumas das ideias da <em>Nostra Aetate<\/em> j\u00e1 estavam presentes na <em>Ecclesiam Suam<\/em>. Por exemplo, a express\u00e3o \u201cque \u00e9 verdadeiro e santo\u201d em outras religi\u00f5es (NA n.\u00ba 2) \u00e9 mencionada na <em>Ecclesiam Suam<\/em> n.\u00ba 107, onde lemos \u201ctudo o que \u00e9 bom e verdadeiro\u201d em refer\u00eancia \u00e0 religi\u00e3o mu\u00e7ulmana. Da mesma forma, \u201cos valores espirituais e morais\u201d de outras religi\u00f5es, de que fala a <em>Nostra Aetate<\/em> no n.\u00ba 2, s\u00e3o mencionados na <em>Ecclesiam Suam<\/em> n.\u00ba 60, onde se diz: \u00abos valores espirituais e morais das v\u00e1rias religi\u00f5es n\u00e3o crist\u00e3s\u00bb, em refer\u00eancia ao desejo da Igreja de n\u00e3o fechar os olhos a esses valores, mas de se unir a eles \u00abna promo\u00e7\u00e3o e defesa de ideais comuns nas esferas da liberdade religiosa, da fraternidade humana, da educa\u00e7\u00e3o, da cultura, do bem-estar social e da ordem c\u00edvica.\u00bb Isto mostra claramente a influ\u00eancia proeminente do Papa Paulo VI na elabora\u00e7\u00e3o da <em>Nostra Aetate<\/em>. Devemos ter em mente, no entanto, que enquanto a <em>Ecclesiam Suam<\/em> foi publicada em 6 de agosto de 1964, a <em>Nostra Aetate<\/em> foi promulgada em 28 de outubro de 1965, quase catorze meses ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o da enc\u00edclica. \u00c9 importante notar tamb\u00e9m que o Papa Paulo VI criou o Secretariado para os N\u00e3o Crist\u00e3os no domingo de Pentecostes, 24 de maio de 1964, que foi renomeado pelo Papa Jo\u00e3o Paulo II em 1988 como Pontif\u00edcio Conselho para o Di\u00e1logo Inter-religioso e, posteriormente, como Dicast\u00e9rio para o Di\u00e1logo Inter-religioso pelo Papa Francisco em 2022.<\/p>\n<h3><strong><em>Como o Decretum de Iudaeis (Declara\u00e7\u00e3o <\/em><\/strong><strong><em>sobre os Judeus) se tornou Nostra Aetate?<\/em><\/strong><\/h3>\n<p>Ap\u00f3s ter sido revisto e ampliado v\u00e1rias vezes desde 1960, o rascunho do <em>Decretum de Iudaeis<\/em> foi formalmente apresentado ao Conc\u00edlio em 28 de setembro de 1964 para delibera\u00e7\u00e3o pelos Padres Conciliares. No entanto, houve obje\u00e7\u00f5es levantadas em rela\u00e7\u00e3o ao conte\u00fado do rascunho, pois muitos dos Padres Conciliares consideravam que ele tratava apenas da quest\u00e3o dos judeus. Os bispos do M\u00e9dio Oriente n\u00e3o queriam a promulga\u00e7\u00e3o de uma declara\u00e7\u00e3o apenas sobre o juda\u00edsmo sem uma declara\u00e7\u00e3o semelhante promulgada sobre o islamismo, dada a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica inst\u00e1vel entre \u00e1rabes e israelitas na \u00e9poca. Eles temiam que abordar a \u00abquest\u00e3o judaica\u00bb pudesse ser interpretado como favoritismo em rela\u00e7\u00e3o a Israel, o que, na sua avalia\u00e7\u00e3o, poderia gerar consequ\u00eancias indesej\u00e1veis e complexas para a minoria crist\u00e3 no M\u00e9dio Oriente. O pr\u00f3prio Papa Paulo VI era a favor de uma passagem sobre os mu\u00e7ulmanos, devido ao seu interesse no di\u00e1logo pela paz no M\u00e9dio Oriente. Compreensivelmente, at\u00e9 mesmo os bispos da \u00c1sia e da \u00c1frica expressaram as suas preocupa\u00e7\u00f5es, defendendo a inclus\u00e3o no rascunho dos bens espirituais e morais encontrados em outras religi\u00f5es nos seus continentes, de modo a abranger as diversas cren\u00e7as do mundo. Considerando todas essas preocupa\u00e7\u00f5es e propostas, uma vers\u00e3o mais condensada e refinada do rascunho foi apresentada na quarta e \u00faltima sess\u00e3o do Conc\u00edlio, que foi aprovada por uma maioria esmagadora dos Padres Conciliares em 28 de outubro. Assim, o <em>Decretum de Iudaeis<\/em>, inicialmente concebido para declarar a rela\u00e7\u00e3o da Igreja com o juda\u00edsmo, acabou por se tornar a <em>Nostra Aetate<\/em>, Declara\u00e7\u00e3o sobre a Rela\u00e7\u00e3o da Igreja com as Religi\u00f5es N\u00e3o Crist\u00e3s. O Papa Paulo VI promulgou-a prontamente no mesmo dia, tornando-a um documento oficial e influente da Igreja Cat\u00f3lica que apela \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da unidade, do amor e da fraternidade entre os povos e as na\u00e7\u00f5es (NA 1).<\/p>\n<h3><strong><em>A import\u00e2ncia da Nostra Aetate (nos nossos tempos) <\/em><\/strong><strong><em>ent\u00e3o e agora (para os nossos tempos) <\/em><\/strong><\/h3>\n<p>A segunda parte do tema que me foi atribu\u00eddo aborda a import\u00e2ncia e a relev\u00e2ncia da <em>Nostra Aetate<\/em> para os nossos tempos. \u00c9 ineg\u00e1vel que a import\u00e2ncia e a relev\u00e2ncia da <em>Nostra Aetate<\/em> para os nossos tempos se mant\u00eam desde o momento em que surgiu e come\u00e7ou a exercer a sua influ\u00eancia na \u00e1rea do di\u00e1logo inter-religioso e em iniciativas e compromissos afins. Portanto, em primeiro lugar, a sua import\u00e2ncia est\u00e1 num <strong><em>continuum entre o passado e o presente<\/em><\/strong>. Em outras palavras, a sua relev\u00e2ncia para os dias de hoje deve ser vista atrav\u00e9s da lente do impacto que teve at\u00e9 agora e do tipo de transforma\u00e7\u00e3o que provocou na vida da Igreja e na sociedade desde que foi promulgada, bem como da influ\u00eancia que continua a exercer at\u00e9 hoje, tanto dentro como fora da Igreja Cat\u00f3lica. Em segundo lugar, a sua import\u00e2ncia est\u00e1 num <strong><em>continuum entre o presente e o futuro<\/em><\/strong>. Por outras palavras, a sua import\u00e2ncia atravessa factualmente o presente e lan\u00e7a-se no futuro com perspetivas de novas colabora\u00e7\u00f5es inter-religiosas pontuadas por promessas de construir cada vez mais a paz em conjunto e colher ainda mais a harmonia, com um fervor e um vigor sempre renovados.<\/p>\n<p>A palavra latina \u00abNostra Aetate\u00bb, como sabeis, significa \u00abno nosso tempo\u00bb ou \u00abna nossa era\u00bb. O t\u00edtulo do documento em si \u00e9 t\u00e3o apropriado hoje como era naquela altura. A necessidade e a urg\u00eancia da \u00e9poca, que exigiam a redefini\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica com pessoas de outras tradi\u00e7\u00f5es religiosas, em particular com os judeus, h\u00e1 60 anos, continuam a enviar-nos um apelo urgente para agir em favor da paz, da fraternidade e da solidariedade nos nossos tempos contempor\u00e2neos, em meio \u00e0 viola\u00e7\u00e3o de direitos, \u00e0 viol\u00eancia contra civis inocentes, \u00e0s agress\u00f5es territoriais que provocam um clima de guerra e \u00e0 fermenta\u00e7\u00e3o do medo, do \u00f3dio e da discrimina\u00e7\u00e3o com base na identidade nacional e religiosa, etc. Na d\u00e9cada de 1960, esperava-se que a Igreja respondesse aos profundos desafios sociopol\u00edticos da \u00e9poca e a <em>Nostra Aetate<\/em> declarou gentilmente a vis\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica \u00e0queles que a acusavam de ser c\u00famplice do Holocausto, interpretando o seu sil\u00eancio e alegada ina\u00e7\u00e3o sobre a quest\u00e3o. Havia tamb\u00e9m uma crescente autoconsci\u00eancia dentro da Igreja Cat\u00f3lica de que a sua rela\u00e7\u00e3o com os judeus e o juda\u00edsmo precisava de ser restaurada, reexaminando os ensinamentos teol\u00f3gicos que haviam fomentado o antissemitismo, mesmo dentro da Igreja. A promulga\u00e7\u00e3o do documento trouxe uma abordagem positiva, n\u00e3o apenas em rela\u00e7\u00e3o aos judeus, mas tamb\u00e9m aos seguidores de todas as religi\u00f5es, e inaugurou uma nova era de di\u00e1logo e respeito m\u00fatuo entre as religi\u00f5es. Nos \u00faltimos sessenta anos, contribuiu enormemente para melhorar as rela\u00e7\u00f5es entre crist\u00e3os e outros, de maneira especial, judeus e mu\u00e7ulmanos, transformando retratos negativos e estere\u00f3tipos prejudiciais, hostilidade e animosidade seculares em respeito m\u00fatuo, compreens\u00e3o, reconcilia\u00e7\u00e3o, empatia, di\u00e1logo e colabora\u00e7\u00e3o para o bem comum.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o de uma Comiss\u00e3o para as Rela\u00e7\u00f5es Religiosas com os Judeus (CRRJ) e de uma Comiss\u00e3o para as Rela\u00e7\u00f5es Religiosas com os Mu\u00e7ulmanos, em 1974, respetivamente no \u00e2mbito do Secretariado para a Promo\u00e7\u00e3o da Unidade Crist\u00e3 e do Secretariado para os N\u00e3o Crist\u00e3os, pelo Papa Paulo VI, em 1974, deu um impulso aos esfor\u00e7os concertados para desenvolver uma rela\u00e7\u00e3o mais positiva e respeitosa com ambos os grupos. Os papas, a partir do Papa Paulo VI, t\u00eam feito esfor\u00e7os conscientes para chegar a ambas as comunidades, visitando os seus locais sagrados e pa\u00edses e reunindo-se com os seus l\u00edderes, com vista a promover melhores rela\u00e7\u00f5es e colmatar o fosso entre eles e a Igreja Cat\u00f3lica. Apenas para dar alguns exemplos: o Papa Paulo VI visitou a Terra Santa em 1964; durante a sua visita hist\u00f3rica ao Uganda em 1969, ao prestar homenagem aos primeiros m\u00e1rtires crist\u00e3os africanos, tamb\u00e9m se referiu aos \u00abconfessores da f\u00e9 mu\u00e7ulmana\u00bb (1 de agosto) que sofreram o mart\u00edrio \u00e0s m\u00e3os dos soberanos das tribos locais. O Papa Jo\u00e3o Paulo II, como sabeis, teve a distin\u00e7\u00e3o de visitar, pela primeira vez por um Papa, uma sinagoga (Grande Sinagoga de Roma, em 13 de abril de 1986) e uma mesquita (Grande Mesquita Omeia, em Damasco, em maio de 2001). Foi tamb\u00e9m o primeiro Papa a visitar o Muro das Lamenta\u00e7\u00f5es durante a sua peregrina\u00e7\u00e3o a Israel. O Papa Bento XVI seguiu os passos do seu predecessor. Visitou as sinagogas em Roma, Col\u00f3nia e Nova Iorque e visitou a Mesquita Azul em Istambul, Turquia (2006). O Papa Francisco, atrav\u00e9s de um foco sustentado na melhoria das rela\u00e7\u00f5es com ambos os grupos religiosos, visitou a Grande Sinagoga de Roma (2016), a Esplanada das Mesquitas em Jerusal\u00e9m (2014), etc. A sua amizade pessoal com o xeque Ahmad Ay-Tayyeb, Grande Im\u00e3 de Al-Azhar, o encontro com o Conselho Mu\u00e7ulmano de Anci\u00e3os, o encontro com o Grande Ayatollah Ali al-Sistani do Iraque (2021) e a coautoria, juntamente com o Grande Im\u00e3 de Al-Azhar, do Documento sobre a Fraternidade Humana s\u00e3o algumas das suas iniciativas emblem\u00e1ticas para melhorar as rela\u00e7\u00f5es e a coopera\u00e7\u00e3o com os mu\u00e7ulmanos. O Papa Le\u00e3o XIV continua a dar continuidade ao trabalho do seu predecessor no fortalecimento dos la\u00e7os com judeus e mu\u00e7ulmanos.<\/p>\n<p>Embora tenha havido gestos especiais para com mu\u00e7ulmanos e judeus devido aos s\u00e9culos de mal-entendidos e conflitos entre o cristianismo e essas religi\u00f5es, isso n\u00e3o significa de forma alguma que a Igreja esteja preocupada e interessada em melhorar as rela\u00e7\u00f5es apenas com essas duas comunidades. A <em>Nostra Aetate<\/em> tamb\u00e9m se refere ao hindu\u00edsmo, ao budismo e a outras religi\u00f5es e elogia a sua rica espiritualidade. Enquanto o juda\u00edsmo \u00e9 da compet\u00eancia do Dicast\u00e9rio para a Promo\u00e7\u00e3o da Unidade dos Crist\u00e3os, devido \u00e0 sua liga\u00e7\u00e3o espiritual e hist\u00f3rica com o cristianismo, o Dicast\u00e9rio para o Di\u00e1logo Inter-religioso tem a miss\u00e3o de promover e supervisionar as rela\u00e7\u00f5es com as religi\u00f5es n\u00e3o crist\u00e3s. Tem vindo a faz\u00ea-lo, nos \u00faltimos sessenta anos, <u>em primeiro lugar<\/u>, promovendo o respeito m\u00fatuo, a compreens\u00e3o, o di\u00e1logo e a colabora\u00e7\u00e3o com elas; <u>em segundo lugar<\/u>, incentivando o estudo das religi\u00f5es; e, <u>em terceiro lugar<\/u>, promovendo a forma\u00e7\u00e3o de pessoas para o di\u00e1logo. A fim de esclarecer o objetivo do di\u00e1logo inter-religioso aos crist\u00e3os e a outros, e dissipar suspeitas e d\u00favidas das suas mentes, se \u00e9 que existem, publicou documentos como \u00abAtitude da Igreja Cat\u00f3lica para com os seguidores de outras religi\u00f5es: reflex\u00f5es e orienta\u00e7\u00f5es sobre o di\u00e1logo e a miss\u00e3o\u00bb (1984); \u00abDi\u00e1logo e Proclama\u00e7\u00e3o: Reflex\u00f5es e Orienta\u00e7\u00f5es sobre o Di\u00e1logo Inter-religioso e a Proclama\u00e7\u00e3o do Evangelho de Jesus Cristo\u00bb (1991); \u00abDi\u00e1logo na Verdade e na Caridade: Orienta\u00e7\u00f5es Pastorais para o Di\u00e1logo Inter-religioso\u00bb (2014), etc.<\/p>\n<p>O di\u00e1logo inter-religioso cresceu e expandiu-se significativamente ao longo destes anos a todos os n\u00edveis, atrav\u00e9s de iniciativas variadas e de formas diversas, incluindo grupos liderados por jovens, redes parlamentares, programas educativos, etc., que se concentram na constru\u00e7\u00e3o da compreens\u00e3o m\u00fatua, da coopera\u00e7\u00e3o e da paz por meio de i) di\u00e1logo da vida, ii) di\u00e1logo da experi\u00eancia espiritual, iii) di\u00e1logo do interc\u00e2mbio teol\u00f3gico e iv) di\u00e1logo da a\u00e7\u00e3o. \u00c9 importante notar que houve um progresso e uma expans\u00e3o din\u00e2micos na pr\u00f3pria compreens\u00e3o do conceito de di\u00e1logo, com cada Papa sucessivo a acrescentar uma nova dimens\u00e3o ou a sublinhar uma dimens\u00e3o particular, de acordo com as necessidades do tempo. Paulo VI, como foi dito anteriormente, apelou ao \u00abdi\u00e1logo com o mundo moderno\u00bb (<em>Ecclesiam Suam<\/em>, 14). Foi ele quem instituiu o Dia Mundial da Paz, celebrado todos os anos no dia 1 de janeiro. O Papa Jo\u00e3o Paulo II defendeu veementemente o \u00abdi\u00e1logo pela paz\u00bb (cf. <em>Mensagem para o Dia Mundial da Paz<\/em>, 1983); a ele devemos o \u00abEsp\u00edrito de Assis\u00bb, que tem guiado o florescimento do Di\u00e1logo Inter-religioso e da Ora\u00e7\u00e3o pela Paz; foi ele quem organizou o ic\u00f3nico Dia Mundial de Ora\u00e7\u00e3o pela Paz em Assis, em 1986. O Papa Bento XVI salientou que o di\u00e1logo deve ser realizado na verdade e na caridade (<em>Caritas in Veritate<\/em>, 2009). O Papa Francisco apelou a \u00abum di\u00e1logo de amizade social e fraternidade universal\u00bb (<em>Fratelli Tutti<\/em>, 2020). A sua enc\u00edclica \u00ab<em>Fratelli Tutti<\/em>\u00bb e o Documento sobre a \u00abFraternidade Humana\u00bb s\u00e3o os seus principais contributos para a promo\u00e7\u00e3o do di\u00e1logo inter-religioso. O Papa Le\u00e3o XIV, desde o momento da sua elei\u00e7\u00e3o como Papa, tem-nos chamado a \u00abconstruir pontes atrav\u00e9s do di\u00e1logo\u00bb (cf. <em>Primeira B\u00ean\u00e7\u00e3o \u00abUrbi et Orbi<\/em>\u00bb, 8 de maio de 2025). \u00c9 claro que nunca podemos esquecer o contributo de S\u00e3o Jo\u00e3o XXIII, o criador da \u00ab<em>Nostra Aetate<\/em>\u00bb, que apelou \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da paz baseada na verdade, na justi\u00e7a, no amor e na liberdade (<em>Pacem in Terris<\/em>, 1963). Cada Papa contribuiu, assim, \u00e0 sua maneira, para promover o di\u00e1logo e construir a paz no mundo. Algu\u00e9m disse, com raz\u00e3o, que o Papa Paulo VI semeou as sementes, o Papa Jo\u00e3o Paulo II cultivou a muda at\u00e9 se tornar uma \u00e1rvore, o Papa Bento XVI podou a \u00e1rvore e o Papa Francisco a transformou numa floresta (cf. Timothy Wright, \u00ab<em>The Dialogue of Spirituality from Ecclesiam Suam to Pope Francis, a Tree that has become a Forest\u00bb no Journal of Dharma: Dharmaram Journal of Religions and Philosophies<\/em> (DVK, Bangalore), 2018.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos sessenta anos, enquanto a import\u00e2ncia e a preval\u00eancia do di\u00e1logo inter-religioso aumentaram notavelmente, os desafios globais multiplicaram-se muitas vezes e tornaram-se mais complexos e complicados. Neste cen\u00e1rio angustiante e perturbador, os princ\u00edpios e o esp\u00edrito da <em>Nostra Aetate<\/em> s\u00e3o igualmente relevantes, se n\u00e3o mais, \u00abpara os nossos tempos\u00bb, tal como o eram quando foram promulgados. As quest\u00f5es universais levantadas pela <em>Nostra Aetate<\/em> no n.\u00ba 1 s\u00e3o v\u00e1lidas para os nossos tempos; ser\u00e3o certamente v\u00e1lidas para todos os tempos vindouros. Para encontrar respostas a estas quest\u00f5es em conjunto e construir a paz no mundo, o di\u00e1logo inter-religioso \u00e9 vital. Como disse o Papa Bento XVI, n\u00e3o \u00e9 \u00abum extra opcional. \u00c9, de facto, uma necessidade vital, da qual depende em grande medida o nosso futuro\u00bb (Papa Bento XVI, <em>Discurso, Encontro com representantes de algumas comunidades mu\u00e7ulmanas<\/em>, Col\u00f3nia, Alemanha, 20 de agosto de 2005). A Igreja, ou seja, todos n\u00f3s, deve, portanto, \u00abcontinuar a construir pontes de amizade com os seguidores de todas as religi\u00f5es, a fim de buscar o verdadeiro bem de cada pessoa e da sociedade como um todo\u00bb (Papa Bento XVI, <em>Discurso aos delegados de outras Igrejas e comunidades eclesiais e de outras religi\u00f5es<\/em>, 25 de abril de 2005), unindo-se \u00e0s pessoas de outras religi\u00f5es e de boa vontade.<\/p>\n<h3><strong><em>Como podemos fazer isso?<\/em><\/strong><\/h3>\n<p>Gostaria de apresentar alguns pontos, muito brevemente:<\/p>\n<p>1. Ainda estais recordados de que a <em>Nostra Aetate<\/em> foi o resultado de um encontro entre o Papa Jo\u00e3o XXIII e o Prof. Jules Isaac. O di\u00e1logo inter-religioso nada mais \u00e9 do que um encontro entre pessoas, um encontro de cora\u00e7\u00f5es, de mentes, de projetos com perspetivas de paz e harmonia, no qual se cultiva uma amizade respeitosa, apesar das diferen\u00e7as e da diversidade, e se partilham valores e convic\u00e7\u00f5es religiosas e preocupa\u00e7\u00f5es comuns sobre a sociedade, que d\u00e3o origem a um compromisso comum de trabalhar juntos pelo bem comum. O Papa Francisco destacou-se por cultivar este tipo de amizade. Recordamo-nos da sua amizade duradoura com o rabino Skorka e Omar Abboud, da Argentina, que o acompanharam na sua viagem \u00e0 Terra Santa em 2014, simbolizando as amizades inter-religiosas. Com raz\u00e3o, apelou repetidamente ao cultivo de \u00abuma cultura do encontro\u00bb (cf. Medita\u00e7\u00e3o matinal na Capela de <em>Santa Marta<\/em>, 13 de setembro de 2016). V\u00f3s e eu somos chamados a cultivar esse tipo de rela\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 com pessoas de outras tradi\u00e7\u00f5es religiosas, mas com todos na sociedade.<\/p>\n<p>2. O \u00faltimo par\u00e1grafo da <em>Nostra Aetate<\/em> lembra-nos que \u00abn\u00e3o podemos invocar verdadeiramente Deus, Pai de todos, se recusarmos tratar de forma fraterna qualquer homem, criado \u00e0 imagem de Deus\u00bb (n.\u00ba 5). <em>Fratelli tutti<\/em>, a enc\u00edclica do Papa Francisco sobre Fraternidade e Amizade Social (2020), reflete essa cren\u00e7a quando diz: \u00abDeus criou todos os seres humanos iguais em direitos, deveres e dignidade, e chamou-os a viver juntos como irm\u00e3os e irm\u00e3s\u00bb (<em>Fratelli tutti<\/em> 5). A mensagem, presumo, \u00e9 clara. Tu e eu, como crentes, nas palavras do Papa Francisco, somos chamados a ser irm\u00e3os e irm\u00e3s e construtores de pontes, porque a nossa voca\u00e7\u00e3o \u00e9 construir a fraternidade como filhos do mesmo Deus (cf. Posf\u00e1cio de um livro do escritor franc\u00eas Eric-Emmanuel Schmitt intitulado <em>O Desafio de Jerusal\u00e9m \u2013 Uma Viagem \u00e0 Terra Santa<\/em>, 2023).<\/p>\n<p>3. Em conclus\u00e3o, as religi\u00f5es, na sua ess\u00eancia, s\u00e3o fontes de fraternidade e solidariedade. Elas ensinam-nos a demonstrar amor, compaix\u00e3o, perd\u00e3o e miseric\u00f3rdia uns pelos outros. S\u00e3o tamb\u00e9m, como diz o Papa Le\u00e3o XIV, \u00abuma fonte de cura e reconcilia\u00e7\u00e3o\u00bb (<em>Mensagem aos participantes no 8.\u00ba Congresso dos L\u00edderes das Religi\u00f5es Mundiais e Tradicionais<\/em>, Astana [Cazaquist\u00e3o], 17 de setembro de 2025). Com os seus recursos espirituais e morais, referidos na <em>Nostra Aetate<\/em>, elas t\u00eam um papel importante a desempenhar na constru\u00e7\u00e3o de pontes entre pessoas de diferentes credos, culturas e heran\u00e7as. Em particular, s\u00e3o chamadas a semear as sementes da esperan\u00e7a, no meio da diversidade e das diferen\u00e7as, com a sua \u00absabedoria, compaix\u00e3o e compromisso com o bem da humanidade\u00bb (Papa Le\u00e3o XIV, <em>Discurso aos Representantes de outras Igrejas e Comunidades Eclesiais e de outras Religi\u00f5es<\/em>, 19 de maio de 2025). Est\u00e3o, acima de tudo, \u00abligadas, pela sua pr\u00f3pria natureza, \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da paz atrav\u00e9s da justi\u00e7a, da fraternidade, do desarmamento e da cura da cria\u00e7\u00e3o\u00bb (Papa Francisco, <em>Sauda\u00e7\u00e3o a uma delega\u00e7\u00e3o da \u00abReligi\u00f5es pela Paz\u00bb<\/em>, 18 de outubro de 2017), com base na origem, no destino, na humanidade, nos valores e nas preocupa\u00e7\u00f5es pelo bem comum.<\/p>\n<p>Muito obrigado a todos pela vossa aten\u00e7\u00e3o e paciente escuta!<\/p>\n<p>Que a nossa M\u00e3e Sant\u00edssima vos aben\u00e7oe e vos guie!<\/p>\n<p>F\u00e1tima, 16 de outubro de 2025<\/p>\n<p><em>Cardeal George Jacob Koovakad,<\/em><br \/>\n<em>Prefeito do Dicast\u00e9rio para o Di\u00e1logo Inter-Religioso<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia do Cardeal George Jacob Koovakad, Prefeito do Dicast\u00e9rio para o Di\u00e1logo Inter-Religioso, proferida em F\u00e1tima, por ocasi\u00e3o do 60.\u00ba [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":9038,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[74,4,72],"tags":[],"class_list":["post-9032","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrada","category-documentos","category-noticias"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.6 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>&quot;A g\u00e9nese e a import\u00e2ncia de &#039;Nostra Aetate&#039; 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