{"id":71,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/?p=71"},"modified":"2014-07-20T16:17:50","modified_gmt":"2014-07-20T16:17:50","slug":"voluntariado-porta-aberta-para-a-humanizacao-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/voluntariado-porta-aberta-para-a-humanizacao-social\/","title":{"rendered":"Voluntariado &#8211; Porta aberta para a humaniza\u00e7\u00e3o social"},"content":{"rendered":"<p>Nota Pastoral da Assembleia Plen\u00e1ria da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa \u0000 <!--more--> INTRODU\u00c7\u00c3O   1 &#8211;  Em boa hora a Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas proclamou o ano de 2001 como Ano Internacional dos Volunt\u00e1rios. N\u00e3o queremos deix\u00e1&#8209;lo chegar ao seu termo sem uma palavra de apre\u00e7o e est\u00edmulo para todos quantos, gratuitamente, dedicam o seu tempo e saber, a sua generosidade e entrega pessoal ao servi\u00e7o dos que mais precisam e \u00e0 defesa de causas nobres culturais e outras.  Registamos com agrado a forma como as celebra\u00e7\u00f5es deste ano contribu\u00edram para evidenciar t\u00e3o relevante servi\u00e7o, praticado, de h\u00e1 muito, no seio das comunidades humanas. Todos n\u00f3s temos consci\u00eancia de que, se bastantes povos experimentam melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida econ\u00f3mica, social e cultural, continuam a existir muitos outros onde as car\u00eancias de toda a esp\u00e9cie s\u00e3o ainda, infelizmente, uma realidade amarga. Acreditamos que o voluntariado continua a ser \u00fatil e necess\u00e1rio, quer nas sociedades ricas, quer nas sociedades pobres, no mundo culto e desenvolvido como no mundo em vias de desenvolvimento. Onde houver car\u00eancias a colmatar ou grandes causas culturais, ecol\u00f3gicas e humanit\u00e1rias a defender, a\u00ed haver\u00e1 lugar para exercer o voluntariado.  A celebra\u00e7\u00e3o do Ano Internacional dos Volunt\u00e1rios vem p\u00f4r em relevo vinte s\u00e9culos de mensagem crist\u00e3, vivida e testemunhada na Igreja, nas suas variadas express\u00f5es de dedica\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria: vem apelar \u00e0 intensifica\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os fraternos de generosidade, na entrega do nosso tempo e nossas vidas; vem interpelar as sociedades de consumo onde o &#8220;ter&#8221; e o &#8220;fazer&#8221; contam mais que o &#8220;ser&#8221; e o &#8220;dar&#8209;se&#8221;; vem, enfim, relevar quanto o voluntariado depende muito mais do cora\u00e7\u00e3o dum homem bem formado e sens\u00edvel \u00e0 dignidade humana, do que das determina\u00e7\u00f5es legais, por mais perfeitas que elas sejam.  Justamente porque a pr\u00e1tica do voluntariado \u00e9 t\u00e3o importante em todas as fases da hist\u00f3ria e n\u00e3o pode limitar&#8209;se \u00e0 simples celebra\u00e7\u00e3o dum ano a ele dedicado, queremos indicar aos nossos irm\u00e3os cat\u00f3licos e a todos os homens de boa vontade o caminho que resta ainda percorrer e o esp\u00edrito com que ele h\u00e1-de praticar&#8209;se.   RAIZ DO VOLUNTARIADO CRIST\u00c3O   2 &#8211; O voluntariado crist\u00e3o radica na pessoa e vida de Jesus Cristo. Ele deu o maior testemunho da sua dedica\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3ximo e deixou como regra de vida, para quantos O queiram seguir, o servi\u00e7o dos outros. Primeiramente, apresentou&#8209;se como quem veio \u00abn\u00e3o para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por todos\u00bb (Mt. 20, 28). Depois realizou mesmo o que dissera ter vindo fazer: lavou os p\u00e9s aos disc\u00edpulos (Jo. 13, 12&#8209;14), concluindo que dera esse exemplo para ser seguido. Finalmente, durante a Ceia, deu&#8209;se como &#8220;corpo&#8221; entregue e &#8220;sangue&#8221; derramado (cf. Lc. 22, 19-20) e expirou, entregando o esp\u00edrito nas m\u00e3os do Pai, no alto da cruz (cf. Lc. 23, 46). E tudo isso, pode e deve entender-se como acto final de uma vida inteira voltada para os carenciados: os pobres, os pecadores, os marginalizados.  A sua morte foi a suprema manifesta\u00e7\u00e3o do amor que, n&#8217;Ele, se fez servi\u00e7o gratuito \u00e0 &#8220;multid\u00e3o&#8221; dos homens. Deus enviou&#8209;O ao mundo para que o mundo fosse salvo por Ele (cf. Jo. 3, 17). \u00abO amor de Deus manifestou-se desta forma no meio de n\u00f3s: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unig\u00e9nito, para que, por Ele, tenhamos a vida. \u00c9 nisto que est\u00e1 o amor: n\u00e3o fomos n\u00f3s que am\u00e1mos a Deus, mas foi Ele mesmo que nos amou e enviou o seu Filho como v\u00edtima de expia\u00e7\u00e3o pelos nossos pecados\u00bb (I Jo. 4, 9-10). Conscientes da riqueza desta mensagem que ressalta da Pessoa e da Boa Nova anunciada por Jesus, os primeiros homens, seus seguidores, entenderam bem, logo desde as origens do cristianismo, qual era a sua miss\u00e3o neste mundo.  Guiadas pelos Ap\u00f3stolos e inundadas pelo Esp\u00edrito de Cristo, as comunidades primitivas puseram em pr\u00e1tica a dedica\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3ximo, com grande sentido de partilha, vivendo unidas, pondo em comum os bens e distribuindo o dinheiro conforme as necessidades de cada um (cf. Act. 2, 44&#8209;45).  E n\u00e3o o fizeram apenas no sentido social da partilha de bens materiais. Eles sentiam essa necessidade de servir, porque \u00abtinham um s\u00f3 cora\u00e7\u00e3o e uma s\u00f3 alma\u00bb (Act. 4, 32). Viviam unidos. E, antes de partilhar o p\u00e3o da mesa, partilhavam a palavra, a ora\u00e7\u00e3o, a Eucaristia e o amor fraterno (cf. Act. 2, 42).   A PR\u00c1TICA MILEN\u00c1RIA DO VOLUNTARIADO CRIST\u00c3O   3 &#8211;  Dando corpo \u00e0 mensagem recebida de Cristo atrav\u00e9s dos &#8220;Doze&#8221;, a Igreja foi&#8209;se desenvolvendo, no decurso dos s\u00e9culos, \u00e0 medida que ia levando a cabo a sua miss\u00e3o, em favor dos povos.  \u00abO empenho em anunciar o Evangelho aos homens do nosso tempo, animados pela esperan\u00e7a, mas ao mesmo tempo torturados muitas vezes pelo medo e pela ang\u00fastia, \u00e9 sem d\u00favida alguma um servi\u00e7o prestado \u00e0 comunidade dos crist\u00e3os, bem como a toda a humanidade\u00bb [1].  Desde as suas origens at\u00e9 aos nossos dias, a Igreja sempre entendeu que a proclama\u00e7\u00e3o da Boa Nova \u00e9 um servi\u00e7o gratuito que Ihe \u00e9 exigido por for\u00e7a da sua pr\u00f3pria natureza e miss\u00e3o. S. Paulo assim o entendeu quando afirmou: \u00abai de mim se n\u00e3o evangelizar\u00bb (I Cor. 9, 16). Dessa miss\u00e3o evangelizadora arranca toda a din\u00e2mica do servi\u00e7o volunt\u00e1rio da Igreja.  Tal servi\u00e7o prestado \u00e0 humanidade, durante os vinte s\u00e9culos da sua exist\u00eancia, \u00e9 um verdadeiro voluntariado. Contam&#8209;se por milhares de milhares os homens e mulheres, sacerdotes consagrados e leigos que, nestes dois mil\u00e9nios de era crist\u00e3, souberam dar o seu tempo, os seus bens, a sua vida em favor dos outros, sem procurar qualquer esp\u00e9cie de lucro que n\u00e3o fosse apenas o de fazer bem, por amor de Deus e do pr\u00f3ximo.  Desde os m\u00e1rtires de todos os tempos que sacrificaram a pr\u00f3pria vida por fidelidade \u00e0 miss\u00e3o e aos valores da verdade, do amor e da justi\u00e7a, at\u00e9 aos anunciadores da Boa Nova, passando pelo testemunho de abnega\u00e7\u00e3o e entrega de pessoas e comunidades inteiras, muitos t\u00eam sido os crist\u00e3os e outros homens de boa vontade que souberam viver de harmonia com o Evangelho, fazendo reverter o fruto da sua dedica\u00e7\u00e3o em favor daqueles que dela careciam.  O voluntariado de todos os tempos sempre se tem revestido duma forte dimens\u00e3o social, que, como \u00e9 f\u00e1cil perceber, resulta directamente da pr\u00e1tica da caridade como manifesta\u00e7\u00e3o dum amor fraterno gratuito. Mas na Igreja n\u00e3o se tem limitado a essa dimens\u00e3o. Sempre houve volunt\u00e1rios no an\u00fancio do Evangelho; sempre houve volunt\u00e1rios na inicia\u00e7\u00e3o e aprofundamento da f\u00e9 crist\u00e3. Toda a Igreja, em todos os tempos, foi Igreja de volunt\u00e1rios. Se alguma vez a profiss\u00e3o obscureceu a dedica\u00e7\u00e3o gratuita e a total entrega ao servi\u00e7o da Boa Nova, nessa mesma hora a Igreja perdeu o seu significado e atrai\u00e7oou a sua voca\u00e7\u00e3o. O servi\u00e7o da Igreja \u00e9 voluntariado.  A Igreja sabe bem, na pr\u00e1tica, o que \u00e9 o voluntariado e tem grande apre\u00e7o pelo bem que \u00e9 feito, neste mundo, em favor dos desprotegidos. Ela que desde o in\u00edcio soube organizar&#8209;se para ajudar os necessitados (cf. Act. 6, 1&#8209;4), nunca mais, ao longo dos s\u00e9culos, deixou de o fazer: pelo minist\u00e9rio da evangeliza\u00e7\u00e3o, pela assist\u00eancia social, na remiss\u00e3o dos cativos, no campo da sa\u00fade, na promo\u00e7\u00e3o cultural, na liberta\u00e7\u00e3o dos povos, na luta pela justi\u00e7a e pela paz.   O VOLUNTARIADO CRIST\u00c3O, HOJE   4 &#8211;  Ao pensar na riqueza do voluntariado que, presentemente, \u00e9 exercido nas mais de quatro mil par\u00f3quias em que est\u00e1 dividido o territ\u00f3rio nacional, n\u00e3o podemos ficar indiferentes. S\u00e3o milhares os catequistas que, organizada e gratuitamente, semana a semana, d\u00e3o o seu tempo, o seu saber e o testemunho da sua f\u00e9 \u00e0s crian\u00e7as, adolescentes, jovens e adultos em busca da inicia\u00e7\u00e3o e do aprofundamento da f\u00e9 crist\u00e3. S\u00e3o muitos os professores e outras pessoas mandatadas que, em nome da comunidade, percorrem as nossas escolas, sobretudo do 1\u00b0 ciclo, numa verdadeira cruzada de ilumina\u00e7\u00e3o da vida \u00e0 luz da f\u00e9, segundo o modelo proposto pelo Evangelho, formando nos valores da vida, com crit\u00e9rios de justi\u00e7a, amor, verdade e rectid\u00e3o. S\u00e3o tamb\u00e9m milhares os jovens e adultos que d\u00e3o o seu tempo e partilham os dotes pessoais com as nossas comunidades, nos mais diversificados servi\u00e7os da Liturgia (leitores, cantores, ministros&#8230;), sem outro tipo de recompensa que n\u00e3o seja a alegria de servir. Felizmente, e com alegria o dizemos, milhares s\u00e3o ainda os volunt\u00e1rios que, tocados pelo apelo da fraternidade, se lan\u00e7am na aventura de serem um espelho do rosto de Deus, junto dos pobres, dos que sofrem, dos idosos, abandonados e solit\u00e1rios ou militam nas fileiras dos diversos movimentos e dos servi\u00e7os s\u00f3cio-caritativos. Vemos com muito agrado e incentivamos o trabalho volunt\u00e1rio que muitos dos nossos crist\u00e3os realizam a favor da comunidade nomeadamente nas  pris\u00f5es, nos hospitais, nos bairros degradados e nas terras de miss\u00e3o. \u00c9 um n\u00famero incont\u00e1vel de volunt\u00e1rios que importa ter em considera\u00e7\u00e3o neste ano a eles dedicado, para lhes manifestarmos a nossa gratid\u00e3o, Ihes dizermos do nosso apre\u00e7o pela sua generosa entrega e os estimulamos a prosseguir nesta senda de \u00abfazer bem sem olhar a quem\u00bb. A dedica\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria destes servidores da Igreja constitui \u00abuma importante express\u00e3o de apostolado\u00bb [2], que gostar\u00edamos de ver ainda mais implementado a partir deste ano.   HUMANISMO E VOLUNTARIADO   5 &#8211;  No comunicado final da nossa Assembleia Plen\u00e1ria, de 26 de Abril \u00faltimo, j\u00e1 express\u00e1mos o nosso sentimento positivo de esperan\u00e7a pelo contributo que o voluntariado pode prestar ao mundo contempor\u00e2neo (cf. n\u00b0 7). A Igreja v\u00ea com muita alegria a forma como se est\u00e1 a expandir em todo o mundo, o esp\u00edrito do voluntariado e como v\u00e3o surgindo organismos de volunt\u00e1rios nos mais variados sectores da actividade humana. Tenham-se presentes os milhares de colectividades de matriz c\u00edvica ou religiosa nas quais milita um numeroso ex\u00e9rcito de volunt\u00e1rios ao servi\u00e7o da cultura, do desporto, da promo\u00e7\u00e3o humana e do socorro em situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia a todo o tipo de carenciados. Ficamos felizes por vermos assim reconhecido, na pr\u00e1tica, que o voluntariado nasce do cora\u00e7\u00e3o humano e \u00e9 um sinal de nobres valores ditados pelo sentido dum humanismo assente na dignidade humana, o qual ser\u00e1 profundamente potenciado pelos valores que a Boa Nova de Jesus anuncia e veicula.  A diferen\u00e7a entre voluntariado crist\u00e3o e outras esp\u00e9cies de voluntariado reside sobretudo nas bases que motivam um e outros e n\u00e3o tanto nos objectivos que em grande parte coincidem. Os crist\u00e3os s\u00e3o volunt\u00e1rios por motivos da sua f\u00e9 em Cristo, praticam o voluntariado por fidelidade ao Evangelho, e pelo sentido de caridade fraterna que os faz ver em cada destinat\u00e1rio a imagem do pr\u00f3prio Cristo. Os outros tipos de voluntariado ter\u00e3o a sua base em ideais filantr\u00f3picos, certamente v\u00e1lidos, e justificadores da sua dedica\u00e7\u00e3o a quem precisa ou ao bem comum (defesa do ambiente, promo\u00e7\u00e3o de direitos, etc). Mais que as diferen\u00e7as dos princ\u00edpios pesam aqui os resultados dos objectivos: que quem precisa possa ser ajudado e dignificado.   INSTITUCIONALIZA\u00c7\u00c3O CIVIL DO VOLUNTARIADO   6 &#8211; Ao longo dos tempos, sempre a generosidade humana, exercida a favor dos irm\u00e3os, encontrou e continuar\u00e1 a encontrar formas de se exprimir, tanto informalmente, atrav\u00e9s de indiv\u00edduos e grupos, como de forma institucionalizada.  Nos nossos dias, por influ\u00eancia do ambiente secularizado em que vivemos, a par das numerosas associa\u00e7\u00f5es de fi\u00e9is, recentes umas, de longa tradi\u00e7\u00e3o outras, multiplicaram&#8209;se os grupos e associa\u00e7\u00f5es civis com o objectivo de socorrerem ou apoiarem, gratuitamente, os cidad\u00e3os que, pelas mais variadas raz\u00f5es, est\u00e3o carecidos de ajuda.  Os Governos e as inst\u00e2ncias internacionais, reconhecendo o valor social e c\u00edvico desses grupos e organiza\u00e7\u00f5es que, voluntariamente, se dedicam a ajudar o pr\u00f3ximo, procederam gradualmente ao seu enquadramento legal, com a consequente defini\u00e7\u00e3o dos par\u00e2metros de ac\u00e7\u00e3o. Comungando do mesmo esp\u00edrito humanit\u00e1rio, tamb\u00e9m o Estado Portugu\u00eas procedeu ao enquadramento legal do voluntariado [3].  No contexto legal, o voluntariado \u00e9 apresentado como servi\u00e7o gratuito e desinteressado que se desenvolve no \u00e2mbito da cidadania, por aqueles que conquistaram o exerc\u00edcio da autonomia individual, da participa\u00e7\u00e3o social e da solidariedade para com os que precisam. Mas nem toda a ac\u00e7\u00e3o de bem fazer \u00e9 considerada voluntariado. Em sentido legal, voluntariado \u00e9 um trabalho organizado em grupo, por institui\u00e7\u00f5es devidamente credenciadas, com objectivos e programa\u00e7\u00e3o comuns, com distribui\u00e7\u00e3o de tarefas, sujeitas a avalia\u00e7\u00e3o, num clima de responsabilidade grupal e participativa.  O grupo \u00e9 constitu\u00eddo por pessoas que, para al\u00e9m dos deveres familiares e profissionais, dedicam algum do seu tempo ao voluntariado, n\u00e3o meramente para ocuparem os tempos livres, granjearem amigos ou simpatias pessoais e, muito menos, para fornecer m\u00e3o de obra barata ao Estado.  O objectivo fundamental dos volunt\u00e1rios \u00e9 ajudar gratuita e livremente os indiv\u00edduos, as fam\u00edlias ou os grupos, em coopera\u00e7\u00e3o com outros volunt\u00e1rios, sendo claro que a efici\u00eancia do seu servi\u00e7o depende tanto das atitudes como da compet\u00eancia. Dentre as atitudes, saliente&#8209;se a disponibilidade que h\u00e1&#8209;de ultrapassar o entusiasmo moment\u00e2neo e prolongar&#8209;se na responsabilidade assumida com alegria. Do volunt\u00e1rio, mais do que ac\u00e7\u00f5es de solidariedade, espera&#8209;se que ele pr\u00f3prio seja solid\u00e1rio e goste de ajudar quem precisa, oferecendo com amor os seus conhecimentos e os seus pr\u00e9stimos aos que vivem mergulhados nos problemas e precisam de m\u00e3o amiga que os ajude a sair deles e a ultrapass\u00e1&#8209;los.  Acima de tudo, o volunt\u00e1rio \u00e9 algu\u00e9m dotado de maturidade humana, afectiva e espiritual; mais disposto a dar do que a receber; capaz de estabelecer rela\u00e7\u00f5es profundas com os outros, gozando de boa inser\u00e7\u00e3o no grupo e no meio ambiente. Mas, al\u00e9m das qualidades pessoais, requer&#8209;se tamb\u00e9m a conveniente forma\u00e7\u00e3o. S\u00f3 assim poder\u00e1 ficar garantida a desejada e necess\u00e1ria compet\u00eancia.     ALGUNS RISCOS A TER EM CONTA   7 &#8211; A institucionaliza\u00e7\u00e3o do voluntariado n\u00e3o est\u00e1 isenta de riscos, que urge relevar e prevenir.  Um dos riscos est\u00e1 associado ao tipo de organiza\u00e7\u00e3o e profissionaliza\u00e7\u00e3o que t\u00eam vindo a ser implementadas em boa parte das institui\u00e7\u00f5es de voluntariado e de ac\u00e7\u00e3o social. Reconhecemos que elas s\u00e3o indispens\u00e1veis quer para assegurar o bom funcionamento quer para garantir a efic\u00e1cia das institui\u00e7\u00f5es. No entanto, os benef\u00edcios organizativos n\u00e3o podem implicar a perda daquilo que \u00e9 genuinamente caracter\u00edstico do voluntariado &#8209; a gratuidade e a espontaneidade.  Outro risco grave pode advir da depend\u00eancia financeira e jur\u00edd\u00edco&#8209;administrativa do Estado. Mesmo que se celebrem acordos, eles \u00abnunca poder\u00e3o significar uma rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia perante o Estado, nem a transfer\u00eancia, para ele, da solicitude da comunidade\u00bb [4]. A caridade crist\u00e3 \u00e9 sempre insepar\u00e1vel da justi\u00e7a, da paz e do desenvolvimento solid\u00e1rio. E este v\u00ednculo n\u00e3o poder\u00e1 ser sacrificado \u00e0 depend\u00eancia dos bens materiais nem aos ditames legislativos.  Um terceiro risco est\u00e1 ligado \u00e0 tend\u00eancia para aumentar o peso da assist\u00eancia institucionalizada, com preju\u00edzo da promo\u00e7\u00e3o social, do desenvolvimento e da aposta na transforma\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-cultural. \u00c9 imperioso contrariar essa tend\u00eancia, porque o desenvolvimento e a transforma\u00e7\u00e3o social s\u00f3 s\u00e3o poss\u00edveis com a implica\u00e7\u00e3o de todos, mesmo dos que carecem de assist\u00eancia, coisa que dificilmente far\u00e1 quem reduz a sua actividade ao interior dos equipamentos sociais, onde n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel abranger a totalidade dos problemas sociais e individuais. Mais promo\u00e7\u00e3o social para que seja necess\u00e1ria menos assist\u00eancia: seja esse o lema a guiar os volunt\u00e1rios.  Quando, numa par\u00f3quia ou noutra institui\u00e7\u00e3o, a articula\u00e7\u00e3o entre equipas de interven\u00e7\u00e3o social, centro social e comunidade crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 bem conseguida, corre&#8209;se o duplo risco da desarticula\u00e7\u00e3o do trabalho ou do predom\u00ednio exagerado de um dos elementos, em detrimento dos outros. \u00c9 fundamental que se definam algumas bases m\u00ednimas, aceites por todos, como normas de ac\u00e7\u00e3o, tomando o crescimento pessoal, o desenvolvimento comunit\u00e1rio e a fecundidade do trabalho como par\u00e2metros de uma avalia\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica que h\u00e1&#8209;de ajudar a progredir com seguran\u00e7a.  N\u00e3o podemos deixar de lembrar ainda, a prop\u00f3sito deste assunto, as dificuldades que est\u00e3o associadas \u00e0 falta de compreens\u00e3o exacta do que \u00e9 o voluntariado. Com efeito, tendo em conta o enquadramento legal, n\u00e3o se pode confundir voluntariado e associativismo, voluntariado e amadorismo, voluntariado gratuito com ac\u00e7\u00e3o n\u00e3o estruturada e informal.   DESAFIOS E APELOS   8 &#8211;  A concretiza\u00e7\u00e3o dos objectivos subjacentes \u00e0 institucionaliza\u00e7\u00e3o do voluntariado constitui um aut\u00eantico desafio para os seus promotores, que devem ter em conta um conjunto de requisitos indispens\u00e1veis \u00e0 consecu\u00e7\u00e3o de suceeso da sua ac\u00e7\u00e3o, tal como referimos em seguida.  A boa organiza\u00e7\u00e3o continua a ser um desafio \u00e0s institui\u00e7\u00f5es e \u00e0s pessoas. N\u00e3o se pode trabalhar em grupo, com um m\u00ednimo de efici\u00eancia, sem uma norma orientadora. E n\u00e3o basta a boa vontade de quem se oferece, nem um sistema de selec\u00e7\u00e3o bem estruturado. \u00c9 a organiza\u00e7\u00e3o sem constrangimento que est\u00e1 na base do sucesso. Se pretendemos um voluntariado com poder de interven\u00e7\u00e3o social, temos que come\u00e7ar por nos organizar, combatendo o excessivo informalismo reinante, evitando a confus\u00e3o e duplica\u00e7\u00e3o de compet\u00eancias e promovendo as inst\u00e2ncias representativas interm\u00e9dias e superiores.  O bom funcionamento e a efic\u00e1cia dos grupos depende tanto da coopera\u00e7\u00e3o e da complementaridade, suscitadas pelo sistema de coordena\u00e7\u00e3o, como da responsabilidade individual, assumida por cada um. S\u00f3 \u00e9 verdadeiramente volunt\u00e1rio quem \u00e9 respons\u00e1vel.  A \u00e1rea de ac\u00e7\u00e3o e o n\u00edvel de interven\u00e7\u00e3o de cada volunt\u00e1rio dependem, antes de mais, da forma\u00e7\u00e3o previamente adquirida. Mas tendo em conta o evoluir das situa\u00e7\u00f5es e o grau de compet\u00eancia que se exige a uma interven\u00e7\u00e3o de qualidade, o volunt\u00e1rio deve estar sempre aberto a uma forma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, feita na ac\u00e7\u00e3o, na partilha de experi\u00eancias e no confronto permanente com os outros membros do grupo. Recomendamos aos respons\u00e1veis institucionais que, pondo de parte a forma\u00e7\u00e3o avulsa, avancem para um tipo de forma\u00e7\u00e3o estruturada.  O aut\u00eantico volunt\u00e1rio tem a no\u00e7\u00e3o dos seus limites. Sabe que n\u00e3o pode resolver todos os problemas. Mas nem por isso deixa de estar aberto a todas as necessidades humanas. Se tem um cora\u00e7\u00e3o universalista, est\u00e1 aberto \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o com todas as institui\u00e7\u00f5es, cujas parcerias se revelem eficazes na concretiza\u00e7\u00e3o dos objectivos programados. Pois, como \u00e9 sabido, em muitos casos, o \u00eaxito dos projectos s\u00f3 pode ser assegurado por uma coopera\u00e7\u00e3o interdisciplinar.  A cria\u00e7\u00e3o de redes locais de voluntariado \u00e9, sem d\u00favida, mais um dos desafios que hoje se colocam sobretudo \u00e0s institui\u00e7\u00f5es de solidariedade. Atrav\u00e9s dessas redes locais, f\u00e1ceis de criar, poderia fazer&#8209;se uma distribui\u00e7\u00e3o mais racional das pessoas que se oferecem como volunt\u00e1rios.   EXORTA\u00c7\u00c3O FINAL   9 &#8211; Embora o voluntariado n\u00e3o seja pr\u00e1tica exclusiva de um pa\u00eds, de um movimento, de uma regi\u00e3o ou de qualquer confiss\u00e3o religiosa, na Igreja Cat\u00f3lica ele encontra, felizmente, uma dimens\u00e3o muito expressiva [5]. Tendo isso em conta, queremos fazer aqui uma exorta\u00e7\u00e3o aos filhos da Igreja, a prop\u00f3sito da celebra\u00e7\u00e3o do Ano Internacional dos Volunt\u00e1rios, prestes a chegar ao seu termo, reafirmando que \u00abprecisamos de uma aut\u00eantica cultura da solidariedade\u00bb [6].  Nestes tempos, eivados de materialismo hedonista, saibam os crist\u00e3os abrir&#8209;se aos valores do Evangelho, pela doa\u00e7\u00e3o do seu tempo e das suas vidas aos irm\u00e3os necessitados. Esta abertura ao Evangelho levar\u00e1 \u00e0 partilha dos dons que cada um recebeu de Deus, num compromisso de caridade fraterna, empenhada na promo\u00e7\u00e3o dos que mais precisam. Se a partilha for guiada pelas palavras de Cristo: \u00absempre que o fizeste a um destes pequeninos, foi a Mim que o fizestes\u00bb (Mt. 25, 40), tornar&#8209;se&#8209;\u00e1 um sinal imediato e vis\u00edvel do amor infinito do Pai Celeste.  Aprendam os crist\u00e3os a organizar&#8209;se naquilo que fazem, unindo for\u00e7as entre si, para que o trabalho volunt\u00e1rio se torne mais fecundo e eficaz. E, ao responder aos apelos que Ihes chegam, tenham em conta o esfor\u00e7o que os outros grupos, mesmo n\u00e3o crist\u00e3os, empregam na solu\u00e7\u00e3o dos problemas humanos. Mas realizem a sua actividade \u00abcom estilo especificamente crist\u00e3o&#8230; sem nunca ceder \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de reduzir as comunidades crist\u00e3s a ag\u00eancias sociais\u00bb [7]. \u00c9 que as nossas comunidades e os crist\u00e3os volunt\u00e1rios nunca poder\u00e3o deixar atrofiar a riqueza dos valores do voluntariado, a troco de subs\u00eddios oficiais.  Esforcem-se os pastores por criar as condi\u00e7\u00f5es adequadas a uma boa forma\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os comprometidos nas diversas actividades de voluntariado, em ordem a \u00abdesenvolver formas de ac\u00e7\u00e3o preventiva, educativa e promocional\u00bb[8]. Visto que uma cuidada coordena\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os diocesanos e paroquiais poder\u00e1 contribuir, em larga escala, para uma ac\u00e7\u00e3o mais eficaz, prestem um especial cuidado \u00e0 sua organiza\u00e7\u00e3o.  Com os olhos postos em Maria, serva do Senhor, que em casa de Isabel e nas bodas de Can\u00e1 nos deu um sublime exemplo de dedica\u00e7\u00e3o e servi\u00e7o, imploramos do Verbo Incarnado o dom da generosidade e do amor para todos os volunt\u00e1rios.   F\u00e1tima, 15 de Novembro de 2001   Notas   &#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;  [1] PAULO VI, Evangelii Nuntiandi, 1975, n\u00ba 1.  [2] JO\u00c3O PAULO II, Christifideles Laici, 1988, n\u00ba 41.  [3] Cf. Lei n\u00ba 71\/98, de 3 de Novembro, e Decreto-Lei n\u00ba 389\/99, de 30 de Setembro. Nestes dois instrumentos legais define-se o conceito de voluntariado, especificam-se as \u00e1reas de interven\u00e7\u00e3o e enumeram-se os direitos e os deveres dos volunt\u00e1rios.  [4] CONFER\u00caNCIA EPISCOPAL PORTUGUESA, Ac\u00e7\u00e3o Social da Igreja \u2013 Instru\u00e7\u00e3o Pastoral, 1997, n\u00ba 27.  [5] CONFER\u00caNCIA EPISCOPAL PORTUGUESA, Alguns Aspectos da Actual Sociedade Portuguesa \u2013 Mensagem dos Bispos ao Povo de Deus no Ano da Doutrina Social da Igreja, 1991, n\u00ba 24.  [6] Idem, Crise de Sociedade, Crise de Civiliza\u00e7\u00e3o \u2013 Nota Pastoral, 2001, n\u00ba 8.  [7] JO\u00c3O PAULO II, Novo Millennio Ineunte, 2001, n\u00ba 52.  [8] CONFER\u00caNCIA EPISCOPAL PORTUGUESA, Ac\u00e7\u00e3o Social da Igreja \u2013 Instru\u00e7\u00e3o Pastoral, 1997, n\u00ba 24. \u0000<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nota Pastoral da Assembleia Plen\u00e1ria da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[34],"class_list":["post-71","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-voluntariado"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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