{"id":6919,"date":"2021-01-01T15:01:46","date_gmt":"2021-01-01T15:01:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/?p=6919"},"modified":"2021-01-01T18:34:44","modified_gmt":"2021-01-01T18:34:44","slug":"desafios-pastorais-da-pandemia-a-igreja-em-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/desafios-pastorais-da-pandemia-a-igreja-em-portugal\/","title":{"rendered":"Desafios pastorais da pandemia \u00e0 Igreja em Portugal"},"content":{"rendered":"<p>A reflex\u00e3o \u201c<strong>Desafios pastorais da pandemia \u00e0 Igreja em Portugal<\/strong>\u201d, aprovada a 13 de novembro de 2020 na Assembleia Plen\u00e1ria da CEP e divulgada a 1 de janeiro de 2021, vem no seguimento do documento \u201cRecome\u00e7ar e Reconstruir \u2013 Reflex\u00e3o da CEP sobre a sociedade portuguesa a reconstruir depois da pandemia Covid-19\u201d, aprovado a 16 de junho na Assembleia Plen\u00e1ria da CEP.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<h4><strong>I \u2013 A IGREJA E A PANDEMIA<\/strong><\/h4>\n<p>1. A Igreja em Portugal, atrav\u00e9s dos seus bispos, sente-se unida a quantos foram diretamente atingidos pela pandemia e sofrem nas suas casas e fam\u00edlias, nos lares e nos hospitais, na Igreja e suas institui\u00e7\u00f5es, pedindo a b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus e a recupera\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e da esperan\u00e7a para as suas vidas. Partilha, igualmente, a dor das fam\u00edlias que perderam os seus entes queridos, confiando-os aos bra\u00e7os misericordiosos do Senhor, assim como a ang\u00fastia dos que perderam ou viram substancialmente reduzidos os seus rendimentos necess\u00e1rios a uma vida condigna.<\/p>\n<p>2. A Igreja quer manifestar reconhecimento e gratid\u00e3o a todos os que mais de perto t\u00eam tido a miss\u00e3o de conduzir o pa\u00eds, mesmo com decis\u00f5es dif\u00edceis, aos prestadores de servi\u00e7os na sa\u00fade, nas escolas, nas institui\u00e7\u00f5es de solidariedade e a todos os volunt\u00e1rios que enfrentam mais de perto todo o tipo de riscos. A Igreja pensa em todas as pessoas de diversas profiss\u00f5es e atividades humanas que n\u00e3o pararam de trabalhar para que outros pudessem sobreviver encerrados em suas casas; pensa em todos os que fazem da vida um dom aos irm\u00e3os; pensa nos especialistas e investigadores; lembra os profissionais das casas de idosos e dos hospitais que conseguem acrescentar um \u201calgo mais\u201d e bem precioso \u00e0s obriga\u00e7\u00f5es e hor\u00e1rios, e que fazem da vida um talento e uma d\u00e1diva; lembra os autarcas nas diversas fun\u00e7\u00f5es para que foram eleitos e as for\u00e7as de seguran\u00e7a e de prote\u00e7\u00e3o civil; lembra as pessoas com defici\u00eancia, nas institui\u00e7\u00f5es e em casa de fam\u00edlia; lembra e encoraja os p\u00e1rocos e outros agentes pastorais no enorme esfor\u00e7o de adapta\u00e7\u00e3o e presen\u00e7a no meio do seu povo. A todos garante a sua solidariedade e ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>3. Com este documento, a Igreja procura discernir desafios pastorais e lan\u00e7ar alguma luz sobre o que vivemos. Mais que conclus\u00f5es apressadas, que o Esp\u00edrito nos conceda a Sabedoria. O primeiro desafio que se coloca \u00e0 Igreja e ao mundo \u00e9 saber \u201chabitar este sil\u00eancio\u201d. S\u00f3 assim conseguir\u00e1 ouvir Deus que nos deixou ficar \u201csem palavras\u201d, bem como o grito da terra e o grito da Humanidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Uma Terra em agonia<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a04. <\/strong>Esta n\u00e3o \u00e9 apenas uma pandemia, mas encruzilhada de tantas outras, a mais vis\u00edvel das quais \u00e9 a crise ambiental. A Terra agradeceu a nossa travagem. Olhando a natureza doente, podemos mesmo perguntar: \u201conde foi parar o ser humano?\u201d. Esgotamos os recursos ambientais e humanos para edificar uma sociedade que, na hora da verdade, se mostra fr\u00e1gil e voraz. A destrui\u00e7\u00e3o acelerada de esp\u00e9cies animais e vegetais, a polui\u00e7\u00e3o e tantos outros pecados graves contra a natureza amea\u00e7am a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia da Humanidade.<\/p>\n<p>5. Falando do ser humano e da natureza, o Papa Francisco afirma: \u201c<em>tudo est\u00e1 conectado<\/em>\u201d. Constitui, porventura, a mensagem central da Enc\u00edclica \u201cLaudato Si\u2019\u201d. O ser humano n\u00e3o est\u00e1 dissociado da Terra ou da natureza, eles s\u00e3o partes de um mesmo todo. Portanto, destruir a natureza equivale a destruir o Homem. E destruir o Homem, criado \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus, \u00e9 atentar contra o pr\u00f3prio Deus Criador. Da mesma forma, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel falar em prote\u00e7\u00e3o ambiental sem que esta envolva tamb\u00e9m a prote\u00e7\u00e3o do ser humano, em especial os mais pobres, os vulner\u00e1veis e os refugiados do clima.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><strong>II \u2013 DESAFIOS PASTORAIS<\/strong><\/h4>\n<p>Embora a pandemia n\u00e3o tenha terminado, h\u00e1 in\u00fameros desafios \u201cconcentrados\u201d no per\u00edodo de confinamento.<\/p>\n<p>6. Defender a sa\u00fade dignifica a vida, mas o direito \u00e0 vida n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ter direito de viver. \u00c9 exig\u00edvel criar e manter as condi\u00e7\u00f5es para uma vida digna, sem discrimina\u00e7\u00f5es, minimizando o sofrimento decorrente de uma doen\u00e7a e tratando os doentes com todos os meios humanos, t\u00e9cnicos e cient\u00edficos dispon\u00edveis para um cuidado com qualidade. Cuidar de um doente significa prestar assist\u00eancia a uma pessoa fragilizada, abalada e insegura, em que a responsabilidade de quem cuida implica zelar, consolar e medicar de acordo com a individualidade de cada um. O cuidado para com a pessoa doente implica igualmente restaurar e curar a vida espiritual e suscitar esperan\u00e7a. Conscientes de que \u00e9 na doen\u00e7a que se revelam as suas fraturas e defici\u00eancias, o acompanhamento visa recuperar e desenvolver a comunh\u00e3o com Deus. Cuidar da vida desde a sua conce\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0 morte natural \u00e9 uma exig\u00eancia da sociedade que decorre do bem comum.<\/p>\n<p>7. Sabemos que n\u00e3o h\u00e1 recursos ilimitados, sobretudo devido \u00e0s pol\u00edticas econ\u00f3micas deficientes. Mas, se a vida n\u00e3o for prioridade inquestion\u00e1vel, o que o ser\u00e1? O conceito de lucro na sa\u00fade \u00e9 problem\u00e1tico, quando se torna o crit\u00e9rio decisivo, exclusivo ou principal. Quais as consequ\u00eancias para a qualidade do servi\u00e7o de sa\u00fade p\u00fablico e privado? \u201cEstamos todos no mesmo barco\u201d, mas sabemos que a sa\u00fade n\u00e3o \u00e9 igual para todos e que se vive e morre em \u201cbarcos muitos desiguais\u201d. Se n\u00e3o formos capazes de alterar este bin\u00f3mio <em>\u2013<\/em> vida e sa\u00fade <em>\u2013<\/em>, onde se mede a igual dignidade de todos, n\u00e3o teremos uma sociedade justa e solid\u00e1ria.<\/p>\n<p>8. As quest\u00f5es levantadas por esta pandemia n\u00e3o s\u00e3o apenas sanit\u00e1rias, econ\u00f3micas ou sociais, mas devem ser ocasi\u00e3o para provocar uma mudan\u00e7a de mentalidade e uma reviravolta cultural concretizada em modos de ver, sentir, pensar e agir imbu\u00eddos de verdade, de justi\u00e7a, de fraternidade e de paz, \u00e0 medida de toda a fam\u00edlia humana. Precisamos de homens s\u00e1bios e santos dentro de todas as \u00e1reas do saber e do agir, criativos da palavra e do amor.<\/p>\n<p>9. Um desafio pastoral urgente poder\u00e1 ser o de reunir pessoas atingidas pela experi\u00eancia do sofrimento, que caminhem lado a lado e rezem na companhia de quem sofre. Pessoas que n\u00e3o tenham medo de abordar com palavras e espiritualidade a vida at\u00e9 \u00e0 morte, sem esquecer a Vida Eterna. N\u00e3o se pode abandonar na solid\u00e3o quem est\u00e1 nos momentos mais exigentes e decisivos da vida. Saber\u00e1 ajudar a morrer quem souber viver a transcend\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>A solid\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n<p>10. A solid\u00e3o mata, ouve-se dizer. Mas morrer na solid\u00e3o deve ser tremendo. E quantos, nos hospitais, nos lares e nas fam\u00edlias viviam e morriam j\u00e1 na solid\u00e3o?<\/p>\n<p>A quest\u00e3o dos idosos e a ideia de que s\u00e3o descart\u00e1veis \u00e9 um esc\u00e2ndalo que se revelou em toda a sua brutalidade. Devemos isolar de n\u00f3s o v\u00edrus e n\u00e3o o idoso, tornando-o desumanamente solit\u00e1rio. <strong>Sentir-se solit\u00e1rio \u00e9 o equivalente social a sentir dor f\u00edsica. <\/strong>Lembra o Papa Francisco: \u00ab<em>Isolar os idosos e abandon\u00e1-los \u00e0 responsabilidade de outros, sem um acompanhamento familiar adequado e amoroso, mutila e empobrece a pr\u00f3pria fam\u00edlia. Al\u00e9m disso, acaba por privar os jovens daquele contacto que lhes \u00e9 necess\u00e1rio com as suas ra\u00edzes e com uma sabedoria que a juventude, sozinha, n\u00e3o pode alcan\u00e7ar<\/em>\u00bb (FT 19).<\/p>\n<p>Mostr\u00e1mos n\u00e3o ter capacidade de resposta para a solid\u00e3o. D\u00f3i pensar nos idosos que n\u00e3o pudemos visitar, nos filhos que viram os seus pais e m\u00e3es partirem na solid\u00e3o, bem como a impossibilidade pr\u00e1tica, tantas vezes presente, de lhes fazer chegar o conforto e a esperan\u00e7a espiritual.<\/p>\n<p>11. O lugar ideal para vencer a solid\u00e3o \u00e9 a fam\u00edlia. Neste campo, servem as palavras da Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz de 13 de outubro \u00faltimo: \u201c<em>Ao Estado n\u00e3o compete tudo, mas \u00e9 a ele que tem de se exigir a cria\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica de apoio aos idosos onde estejam definidos objetivos e meios para aplicar com recurso a meios financeiros pr\u00f3prios e de terceiros. Quando esgotada essa possibilidade, o recurso aos lares deve ser encarado\u201d.<\/em> O modelo e o funcionamento dos lares devem ser profundamente repensados, tanto no que se refere ao equil\u00edbrio do seu financiamento e gest\u00e3o pelo Estado e por entidades da sociedade civil, como no respeitante \u00e0 diferencia\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os a\u00ed prestados e \u00e0 articula\u00e7\u00e3o com as fam\u00edlias.<\/p>\n<p>12. As comunidades crist\u00e3s devem ser estimuladoras de uma cultura de proximidade, organizada e proativa, que anime os s\u00f3s. A partilha dos bens, do saber, do tempo, da simpatia e da amabilidade deve ver-se na elabora\u00e7\u00e3o de projetos de servi\u00e7o volunt\u00e1rio que envolvam crentes e n\u00e3o crentes, para que ningu\u00e9m viva, sofra ou morra na solid\u00e3o. Quanto as gera\u00e7\u00f5es mais novas beneficiariam! Quanto individualismo e ego\u00edsmo seriam queimados para sempre pelo fogo da caridade!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>A inclus\u00e3o e a solidariedade<\/em><\/strong><\/p>\n<p>13. Com a pandemia arriscamo-nos a deixar para tr\u00e1s faixas da popula\u00e7\u00e3o que j\u00e1 eram fr\u00e1geis e que viram agravar a sua situa\u00e7\u00e3o. Este tempo faz-nos olhar com preocupa\u00e7\u00e3o para o fosso escandaloso entre os ricos e os pobres, entre os privilegiados e os n\u00e3o-privilegiados. Em muitos lugares, o doente, o mais velho e o deficiente sofreram de forma mais grave, muitas vezes com poucos ou quase nenhum cuidado de sa\u00fade. O preconceito racial continua a existir. Pessoas das periferias, sobretudo migrantes, refugiados e prisioneiros, t\u00eam sido os mais afetados por esta pandemia. Preocupam-nos os problemas nas fam\u00edlias desestruturadas, monoparentais, com problemas ou conflitos relacionais, com habita\u00e7\u00e3o deficit\u00e1ria e as v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica que tamb\u00e9m aumentaram&#8230; Seria longa a lista!<\/p>\n<p>14. A nossa sociedade precisa de uma Igreja que seja \u201chospital de campanha\u201d pronta a socorrer, a cuidar, a abrigar, como j\u00e1 o foi em tantos momentos de crise. A Igreja quer ser m\u00e3e de todos e casa para quem a procura. Por\u00e9m, tamb\u00e9m ela \u00e9 carente de pessoas e meios. N\u00e3o s\u00e3o risonhas as perspetivas futuras, mas \u00e9 nestes momentos de grandes desafios que surgem jovens generosos que entregam a sua vida a Deus, no sacerd\u00f3cio ou noutra forma de consagra\u00e7\u00e3o religiosa ou laical. A generosidade e o altru\u00edsmo precisam de ser desenvolvidos como voca\u00e7\u00e3o a servir. S\u00f3 uma sociedade com alma pode ser inclusiva, solid\u00e1ria e justa.<\/p>\n<p>Uma boa pergunta para um exame de consci\u00eancia em Conselhos Pastorais Paroquiais e Diocesanos deveria ser: \u201cSomos de facto um hospital de campanha\u201d, pronto a estar entre os feridos desta e de outras guerras? Somos a \u201ccasa do Bom Samaritano\u201d, com espa\u00e7o para os abandonados nas estradas da vida\u201d?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>A Igreja dom\u00e9stica<\/em><\/strong><\/p>\n<p>15. O fecho das igrejas \u00e0s celebra\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias nos in\u00edcios da pandemia dever\u00e1 ter-nos aberto os olhos para descortinar um outro modo de ser Igreja, feito n\u00e3o s\u00f3 de liturgia e de ora\u00e7\u00e3o, mas de vida quotidiana, at\u00e9 que toda a vida se torne ora\u00e7\u00e3o e a ora\u00e7\u00e3o vida. Se na par\u00f3quia \u00e9 necess\u00e1rio haver um lugar de ora\u00e7\u00e3o, \u00e9 tamb\u00e9m importante valorizar formas concretas de exercer a <em>diakonia<\/em> ou o servi\u00e7o da evangeliza\u00e7\u00e3o, uma dimens\u00e3o constitutiva do ser Igreja e da sua miss\u00e3o, que acontecem onde existem necessidades sociais.<\/p>\n<p>16. \u00c9 bom haver catequese na par\u00f3quia, mas o seu fecho for\u00e7ado disse-nos que talvez a primeira catequese seja a que \u00e9 feita em casa, pelos pais, av\u00f3s, tios, irm\u00e3os. Temos a ora\u00e7\u00e3o da Eucaristia, mas h\u00e1 tamb\u00e9m a ora\u00e7\u00e3o da manh\u00e3, da noite, antes das refei\u00e7\u00f5es e o ter\u00e7o, entre outras.<\/p>\n<p>\u00c9 um desafio redescobrir a ora\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica, promover uma aut\u00eantica espiritualidade familiar e levar a s\u00e9rio a liturgia da Palavra no lar. S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo, dirigindo-se aos pais de fam\u00edlia, dizia: \u201c<em>Com a vossa mulher e os filhos repitam juntos a palavra escutada na igreja. Voltem a casa e preparem duas mesas, uma com os pratos para a comida, a outra com os pratos da Escritura (\u2026), fa\u00e7am da vossa casa uma igreja<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>17. Para viver, a Igreja tem necessidade da Igreja dom\u00e9stica, pois esta \u00e9 a chave da transmiss\u00e3o da f\u00e9. O precioso trabalho dos catequistas, sempre necess\u00e1rio, n\u00e3o substitui o minist\u00e9rio da fam\u00edlia. Seguindo o exemplo da \u201cIgreja em sa\u00edda\u201d, a Igreja dom\u00e9stica deve orientar-se para sair de casa; tamb\u00e9m ela deve ser colocada em posi\u00e7\u00e3o de assumir as suas responsabilidades sociais e pol\u00edticas.<\/p>\n<p>18. A Igreja est\u00e1 consciente da diversidade de tipos de fam\u00edlia. A comunidade paroquial tem capacidades \u00fanicas para se fazer pr\u00f3xima, como m\u00e3e que abra\u00e7a a todos. Deve, por\u00e9m, ter a criatividade suficiente para evangelizar \u201cdentro da situa\u00e7\u00e3o concreta\u201d de cada uma.<\/p>\n<p>Precisamos de passar de uma pastoral familiar de eventos para uma pastoral de processos. N\u00e3o se podem preparar atividades em gabinete esperando que as fam\u00edlias adiram. Precisamos de uma pastoral \u201ccom\u201d as fam\u00edlias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Sacerdotes, profetas e reis<\/em><\/strong><\/p>\n<p>19. Este \u00e9 o momento oportuno para que os leigos tomem consci\u00eancia do seu sacerd\u00f3cio comum, nascido com o Batismo, bem como a sua fun\u00e7\u00e3o real e prof\u00e9tica. O Conc\u00edlio Vaticano II convidava os fi\u00e9is leigos a \u201coferecerem-se a si mesmos como v\u00edtima viva, santa, agrad\u00e1vel a Deus\u201d (LG 11).<\/p>\n<p>S\u00e3o in\u00fameras as circunst\u00e2ncias da vida em que os leigos podem exercer o sacerd\u00f3cio comum: dar testemunho de Cristo em toda a parte, atrav\u00e9s do an\u00fancio e da escuta; exercitar o testemunho de uma vida santa, com abnega\u00e7\u00e3o e caridade, no hospital, nos trabalhos mais humildes que asseguram os servi\u00e7os sociais essenciais, na aten\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas mais necessitadas, no campo pol\u00edtico, nas associa\u00e7\u00f5es locais, no trabalho da escola; sentir e unir-se \u00e0 dor da separa\u00e7\u00e3o, da inseguran\u00e7a econ\u00f3mica, da proximidade muito estreita e prolongada com pessoas doentes, idosas, com problemas f\u00edsicos ou ps\u00edquicos.<\/p>\n<p>20. \u00c9 bom voltar \u00e0 igreja e redescobrir a preciosidade da Eucaristia, da comunidade crist\u00e3, do servi\u00e7o dos sacerdotes. Mas esperemos que se tenha descoberto a extraordin\u00e1ria voca\u00e7\u00e3o sacerdotal dos leigos, um sacerd\u00f3cio real exercido com criatividade, capaz de abrir novas estradas \u00e0 miss\u00e3o e ao nascimento de muitas Igrejas dom\u00e9sticas, de proximidade, de bairro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>As rela\u00e7\u00f5es<\/em><\/strong><\/p>\n<p>21. As separa\u00e7\u00f5es e desconfian\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o ao outro, muitas vezes considerado como um poss\u00edvel portador de cont\u00e1gio da pandemia, exigem um renovado esfor\u00e7o para voltar a ter rela\u00e7\u00f5es fraternas e generosas. \u00c9 voca\u00e7\u00e3o dos leigos criar rela\u00e7\u00f5es cada vez mais enformadas pela caridade, seja no interior das nossas comunidades, seja nos ambientes nos quais vivemos e trabalhamos.<\/p>\n<p>O amor vence a tenta\u00e7\u00e3o do \u201cconfinamento em si mesmo\u201d, pois tem o poder de ensinar como \u201cse vive o outro\u201d. O amor vence o medo que mata mais do que a pandemia, porque domina as pessoas, as faz adoecer, as bloqueia psicologicamente, as impede de viver e de dar o melhor de si.<\/p>\n<p>22. A Igreja \u00e9 chamada a viver em comunh\u00e3o com todos. A experi\u00eancia da fragilidade que a pandemia nos faz viver mostra quanto \u00e9 absurda a tenta\u00e7\u00e3o de autossufici\u00eancia ditada pela t\u00e9cnica e pela ci\u00eancia, quanto \u00e9 artificial o mundo do bem-estar que estamos a criar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>A vida comunit\u00e1ria<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>23<em>.<\/em><\/strong> O alheamento mata a vida das comunidades e multiplica a indiferen\u00e7a, talvez mais do que a descren\u00e7a. Num mundo onde o institucional \u00e9 cada vez menos apreciado, tamb\u00e9m a Igreja se ressente nas suas comunidades e institui\u00e7\u00f5es. Muitos crist\u00e3os tendem a gerir a sua vida espiritual de forma cada vez mais privada, tal como certas ideologias pretendem.<\/p>\n<p>24. Nunca \u00e9 demais olhar para a comunidade primitiva, descrita nos Atos dos Ap\u00f3stolos. A presen\u00e7a de Cristo Ressuscitado era mais forte do que todas as amea\u00e7as de morte ou exclus\u00e3o. Dentro do poderoso e conquistador mundo romano, o Evangelho ia-se escrevendo com a pr\u00f3pria vida dos disc\u00edpulos de Jesus. Eles eram Evangelho, comunidade de testemunho e de miss\u00e3o.<\/p>\n<p>A comunh\u00e3o fraterna \u201catra\u00eda a aten\u00e7\u00e3o\u201d por simpatia e n\u00e3o pelo proselitismo. Uma comunidade minorit\u00e1ria, mas que n\u00e3o tinha medo de ser profecia no meio do seu velho mundo. Era um estilo de vida fascinante que deve ser sempre retomado!<\/p>\n<p>25. \u00c9 fundamental ter a coragem de avaliar a vida das comunidades e os seus dinamismos de integra\u00e7\u00e3o, criatividade e generatividade. \u00c9 preciso identificar as \u201csalas de catequese modernas\u201d, os espa\u00e7os novos para uma evangeliza\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria. O campo da miss\u00e3o alargou-se, requer pessoas com paix\u00e3o comunit\u00e1ria e estilo mission\u00e1rio, comunidades vivas e unidas, capazes de acolher, integrar e voltar a convencer da riqueza da vida em comum: todos juntos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><strong>III \u2013 UM NOVO AN\u00daNCIO DO EVANGELHO<\/strong><\/h4>\n<p><strong>\u00a026. <\/strong>S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II introduziu o conceito de \u201cnova evangeliza\u00e7\u00e3o\u201d para indicar o esfor\u00e7o de renova\u00e7\u00e3o que a Igreja \u00e9 chamada a fazer para estar \u00e0 altura dos desafios que o contexto social e cultural de hoje coloca \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3, ao seu an\u00fancio e testemunho, como consequ\u00eancia das profundas mudan\u00e7as em curso.<\/p>\n<p>O Papa Francisco, no seu primeiro documento \u201c<em>A Alegria do Evangelho<\/em>\u201d, recorda-nos que a evangeliza\u00e7\u00e3o \u00e9 dever da Igreja, entendida esta como o an\u00fancio de Cristo morto e ressuscitado e que revela e comunica a miseric\u00f3rdia infinita do Pai (cf. EG 164).<\/p>\n<p>O an\u00fancio do Evangelho pede aos crist\u00e3os a coragem de habitar \u201cnovos are\u00f3pagos\u201d, encontrando os instrumentos e os percursos para tornar aud\u00edvel, tamb\u00e9m nesses lugares, o patrim\u00f3nio educativo e de sabedoria preservado pela tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3.<\/p>\n<p>27. O primeiro an\u00fancio, primeiro porque o mais importante, precisa de uma linguagem simples, compreens\u00edvel e direta que conte como Deus \u00e9 Amor e ama cada um, porque deu a vida por n\u00f3s em Jesus Cristo e est\u00e1 sempre pronto a acreditar e caminhar connosco.<\/p>\n<p>28. Evangelizar significa falar de uma novidade que n\u00e3o diz respeito s\u00f3 ao m\u00e9todo, mas ao pr\u00f3prio Evangelho. O problema mais s\u00e9rio n\u00e3o \u00e9 como anunciar o Evangelho numa cultura diversa, mas como retomar o Evangelho dentro dessa mesma cultura. Um novo ardor no an\u00fancio do Evangelho mostrar\u00e1 como este pode responder aos problemas da p\u00f3s-modernidade.<\/p>\n<p>O Papa Francisco tem-se revelado um especialista nesta arte de pensar o Evangelho dentro da cultura e das grandes quest\u00f5es da humanidade: a crise ecol\u00f3gica e clim\u00e1tica, o problema dos refugiados e da pobreza, a educa\u00e7\u00e3o, a economia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Construir a fraternidade universal<\/em><\/strong><\/p>\n<p>29. \u201cTodos irm\u00e3os\u201d \u00e9 o t\u00edtulo da nova e desafiadora Carta Enc\u00edclica do Papa Francisco sobre a fraternidade e a amizade social. Haver\u00e1 melhor modo de apontar o futuro, em tempos de crise planet\u00e1ria?<\/p>\n<p>30. A palavra \u201ctodos\u201d come\u00e7ou a usar-se mais no nosso l\u00e9xico, como sin\u00f3nimo de humanidade inteira, sonho de percursos comuns, de esfor\u00e7os, consensos e solu\u00e7\u00f5es globais. Preocupam-nos, por\u00e9m, os dramas que encobrem este des\u00edgnio universal: a fome que duplicou no mundo desde o in\u00edcio da pandemia, o gritante abismo entre os multimilion\u00e1rios cada vez mais ricos e a grande franja da humanidade cada vez mais pobre, a xenofobia, o racismo, as guerras fratricidas, a amea\u00e7a da crise clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u201c<em>Sonhemos como uma \u00fanica humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos desta mesma terra que nos alberga a todos, cada qual com a riqueza da sua f\u00e9 ou das suas convic\u00e7\u00f5es, cada qual com a pr\u00f3pria voz, mas todos irm\u00e3os\u201d <\/em>(FT 8).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Comunicar nos ambientes digitais<\/em><\/strong><\/p>\n<p>31. Os meios digitais podem tornar o virtual \u201cquase real\u201d e servir para aproximar, partilhar, construir la\u00e7os e at\u00e9 \u201ctocar\u201d o cora\u00e7\u00e3o do irm\u00e3o. Muitos profissionais de assist\u00eancia ou sa\u00fade \u201cligaram\u201d fam\u00edlias aos seus doentes em hospitais, em lares ou at\u00e9 em casa. Igreja e Institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o a servir-se dos meios telem\u00e1ticos para a ora\u00e7\u00e3o, as catequeses alternativas ou complementares, a forma\u00e7\u00e3o, a educa\u00e7\u00e3o, a comunica\u00e7\u00e3o e o teletrabalho. Estes meios permitem multiplicar os destinat\u00e1rios e diversificar os formadores.<\/p>\n<p>H\u00e1 tr\u00eas desafios importantes e urgentes em rela\u00e7\u00e3o ao uso destes meios: o da sistematiza\u00e7\u00e3o e disponibiliza\u00e7\u00e3o de materiais bem preparados e adequados, a forma\u00e7\u00e3o dos utilizadores e a import\u00e2ncia de n\u00e3o deixar perder a rela\u00e7\u00e3o pessoal que, mesmo com a ajuda do digital, \u00e9 poss\u00edvel e priorit\u00e1ria. Nada substitui a presen\u00e7a real, a conversa pessoal, a voz, a palavra que mexe com os sentidos.<\/p>\n<p>32. Os meios digitais s\u00e3o um contributo pastoral subsidi\u00e1rio. Pensamos na prepara\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias para os sacramentos do matrim\u00f3nio e do batismo, dois momentos fundamentais para lan\u00e7ar bases ou consolidar a Igreja dom\u00e9stica do pr\u00f3prio lar. Na dificuldade de v\u00e1rias reuni\u00f5es presenciais, algumas \u2013 talvez a maior parte \u2013 poderiam ser por meios telem\u00e1ticos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>O primado da Palavra <\/em><\/strong><\/p>\n<p>33. A obra decisiva deste novo ardor mission\u00e1rio consiste em voltar a colocar o Evangelho no centro. Os primeiros crist\u00e3os conheciam a sua novidade e a for\u00e7a de convencimento que tinha. Nenhuma outra emerg\u00eancia os tirava deste centro. Hoje, muitos crist\u00e3os ainda s\u00e3o \u201canalfabetos do Evangelho\u201d.<\/p>\n<p>Explicar o Evangelho \u00e9 falar de Cristo como cont\u00ednua surpresa que conv\u00e9m suscitar. Jesus realiza as expectativas e, ao mesmo tempo, supera-as. H\u00e1 na sua prega\u00e7\u00e3o um \u201calgo mais\u201d, que abre \u00e0 pessoa horizontes inesperados e que, quando conhecidos, faz empalidecer as expectativas iniciais. A Palavra do Evangelho n\u00e3o \u00e9 um conjunto de hist\u00f3rias do passado, \u00e9 um an\u00fancio feito hoje e que deve surpreender, indo muito al\u00e9m de todas as expectativas.<\/p>\n<p>34. No primado da Palavra, \u00e9 relevante a forma\u00e7\u00e3o, a comunica\u00e7\u00e3o, a linguagem. Grande parte dos crist\u00e3os n\u00e3o est\u00e1 a par da \u201cgram\u00e1tica\u201d utilizada na Igreja, e muitas vezes n\u00e3o conhecem os documentos da Igreja, porque n\u00e3o houve o devido estudo, nem est\u00e3o por dentro do que realmente se celebra na liturgia. O cuidado na forma\u00e7\u00e3o \u201cao longo do caminho\u201d e de acordo com os servi\u00e7os a desempenhar nunca est\u00e1 acabado, precisa de ser cont\u00ednuo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Celebrar \u00e9 evangelizar<\/em><\/strong><\/p>\n<p>35. A liturgia pode e deve ser evangelizadora, desempenhando um papel de inicia\u00e7\u00e3o para muitos que, sem forma\u00e7\u00e3o, participam nas celebra\u00e7\u00f5es em momentos especiais da exist\u00eancia humana. Pensemos em quantos, por simpatia, se aproximam de crist\u00e3os no batismo, nas ex\u00e9quias, nos matrim\u00f3nios e noutros eventos celebrativos. S\u00e3o mulheres e homens para quem a \u00fanica ocasi\u00e3o de encontro com o cristianismo \u00e9 exatamente a liturgia na qual participam. Para muitos \u201ccrist\u00e3os praticantes\u201d, a \u00fanica fonte de evangeliza\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o permanente est\u00e1 exatamente na missa dominical.<\/p>\n<p>36. A celebra\u00e7\u00e3o da liturgia comunit\u00e1ria \u00e9 uma experi\u00eancia \u00fanica numa sociedade onde prevalece o ego\u00edsmo e o individualismo. De modo particular, a celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia \u00e9 j\u00e1 a Assembleia de irm\u00e3os reunidos e unidos, um peda\u00e7o de humanidade fraterna, renovada pela Boa Not\u00edcia (Evangelho) que \u00e9 Cristo ali, no povo reunido. Ao sair da porta da igreja que se abre para a rua, o crist\u00e3o sabe quanto caminho tem a fazer para realizar o que rezou l\u00e1 dentro: \u201cassim na terra como nos c\u00e9us\u201d! Mas sai com a certeza que lhe vem da esperan\u00e7a: o Senhor ir\u00e1 com ele construir o Reino.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Novos desafios de servi\u00e7o e miss\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n<p>37. Todos os servi\u00e7os e minist\u00e9rios na Igreja, tanto os existentes como os que possam ser criados, devem estar impregnados por um profundo dinamismo mission\u00e1rio, um renovado an\u00fancio do Evangelho nas comunidades crist\u00e3s, nas fam\u00edlias e na sociedade. Como exemplo, os catequistas exercem um papel fundamental de an\u00fancio do Evangelho. A publica\u00e7\u00e3o recente do <em>Diret\u00f3rio para a Catequese<\/em> tem de nos levar a pensar outras formas de educar na f\u00e9 onde a fam\u00edlia, enquanto Igreja dom\u00e9stica, seja o centro na transmiss\u00e3o do Evangelho aos mais novos.<\/p>\n<p>38. Saber acolher \u00e9 uma arte que evangeliza. A pandemia mostrou a import\u00e2ncia dos grupos de acolhimento na Eucaristia e a necessidade de recuperar o tradicional servi\u00e7o dos \u201costi\u00e1rios\u201d, acolhendo e saudando as pessoas em nome da comunidade, dando indica\u00e7\u00f5es e encaminhando-as para o respetivo lugar nos espa\u00e7os celebrativos. Um servi\u00e7o de acolhimento e integra\u00e7\u00e3o na comunidade que deve ser retomado e alargado a outros momentos, para al\u00e9m da Eucaristia.<\/p>\n<p>39. No \u00e2mbito do novo an\u00fancio do Evangelho, adquire especial destaque pastoral o servi\u00e7o da comunica\u00e7\u00e3o, quer pela presen\u00e7a nas redes sociais e no uso dos meios digitais, contribuindo para a unidade da comunidade crist\u00e3 e para a abertura mission\u00e1ria, quer pelo di\u00e1logo com a sociedade civil e institui\u00e7\u00f5es diversas. Durante a pandemia percebemos a relev\u00e2ncia do clima de abertura e di\u00e1logo das comunidades crist\u00e3s e seus respons\u00e1veis com as autarquias, as for\u00e7as de seguran\u00e7a e as autoridades de sa\u00fade e da prote\u00e7\u00e3o civil. Seria uma falha grave desperdi\u00e7ar esta experi\u00eancia.<\/p>\n<p>40. Os Consagrados encontraram, tamb\u00e9m eles, na situa\u00e7\u00e3o de pandemia novos contextos para encarnar os pr\u00f3prios carismas, atrav\u00e9s do servi\u00e7o aos outros, sobretudo aos mais pobres e fragilizados, indo ao seu encontro, acolhendo-os, sustentando-os e acompanhando-os.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Partir das periferias<\/em><\/strong><\/p>\n<p>41. Se se trata de recome\u00e7ar, que seja sempre, como no Evangelho, a partir dos \u00faltimos. \u201c<em>Quando a sociedade \u2013 local, nacional ou mundial \u2013 abandona na periferia uma parte de si mesma, n\u00e3o h\u00e1 programas pol\u00edticos, nem for\u00e7as da ordem ou servi\u00e7os secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade<\/em>\u201d (FT 235).<\/p>\n<p>42. Pensar a pastoral a partir dos \u00faltimos pode tamb\u00e9m significar preparar os planos pastorais a partir das periferias. H\u00e1 muitos pobres? Vamos partir deles e com eles! A comunidade vai ficar mais rica, pois \u201c\u00e9 necess\u00e1rio que todos nos deixemos evangelizar por eles. A nova evangeliza\u00e7\u00e3o \u00e9 um convite a reconhecer a for\u00e7a salv\u00edfica das suas vidas e a coloc\u00e1-los no centro do caminho da Igreja. Somos chamados a descobrir Cristo neles: n\u00e3o s\u00f3 a emprestar-lhes a nossa voz nas suas causas, mas tamb\u00e9m a ser seus amigos, a escut\u00e1-los, a compreend\u00ea-los e a acolher a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar atrav\u00e9s deles\u201d (EG 198).<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos \u201csem abrigo\u201d, com fome e sem casa? Como envolver todos os servi\u00e7os paroquiais num plano integrador, mais que assistencial? Poder\u00e3o ter que alargar horizontes, envolver outras par\u00f3quias, comunidades religiosas, movimentos, associa\u00e7\u00f5es de fi\u00e9is p\u00fablicas e privadas, criando redes entre elas. N\u00e3o significa que os projetos tenham a marca paroquial. Importa \u00e9 que as pessoas sejam o centro e o amor o betume que une a miss\u00e3o comum. H\u00e1 muitos idosos e doentes? Sem parar os servi\u00e7os paroquiais habituais, como coloc\u00e1-los no centro, envolvendo-os no amor da comunidade? H\u00e1 muita solid\u00e3o? Como vamos criar uma cultura de proximidade e de novas vizinhan\u00e7as?<\/p>\n<p>43. Oxal\u00e1 por todo o lado \u2013 das dioceses \u00e0s par\u00f3quias, dos movimentos aos consagrados, do simples fiel aos professores, te\u00f3logos, eclesi\u00f3logos ou pastoralistas \u2013 se iniciem percursos sinodais de escuta prolongada, aut\u00eanticos laborat\u00f3rios de reflex\u00e3o em ordem a uma \u201cnova etapa da evangeliza\u00e7\u00e3o\u201d. Oxal\u00e1 o Esp\u00edrito inspire percursos novos que, feitos com todo o povo de Deus, consigam envolver mulheres e homens de boa vontade e lan\u00e7ar, em conjunto, itiner\u00e1rios imbu\u00eddos de amor solid\u00e1rio para n\u00e3o abandonar ningu\u00e9m pelo caminho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><strong>IV \u2013 A PAR\u00d3QUIA, COMUNIDADE SINODAL<\/strong><\/h4>\n<p><strong>\u00a044. <\/strong>Para a evangeliza\u00e7\u00e3o \u00e9 decisivo que na comunidade tudo seja comum, que aquilo que um faz seja de todos e diga respeito a todos. Na comunidade, deve acolher-se os projetos dos outros como se fossem seus, cada um deve pensar no bem do outro, ajud\u00e1-lo a crescer, interessar-se pelo seu sucesso, sacrificar-se e dar a vida pelos fins comuns. Numa par\u00f3quia que seja verdadeira comunidade, n\u00e3o deve entrar a disputa, a disc\u00f3rdia, os interesses pessoais, os desejos de afirma\u00e7\u00e3o ou poder; n\u00e3o deve haver autoritarismos, cr\u00edticas, invejas, ci\u00fames; o que se faz deve ser direcionado a todos, deve haver comunh\u00e3o na diversidade. A sinodalidade \u00e9 a s\u00edntese entre o caminhar juntos da Igreja e o seu olhar para o Limiar Eterno.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Dois ou mais!<\/em><\/strong><\/p>\n<p>45. Para a convers\u00e3o pastoral das comunidades paroquiais em chave mission\u00e1ria, o Papa Francisco rebatiza a par\u00f3quia com nomes novos: \u201ccomunidade sinodal\u201d, c\u00e9lula da \u201cIgreja em sa\u00edda\u201d e \u201ccasa do povo de Deus\u201d. A sinodalidade, inspirada no \u201c\u00edcone de Ema\u00fas\u201d, n\u00e3o \u00e9 um novo m\u00e9todo pastoral, mas uma maneira de ser, um estilo que nos anima e nos faz caminhar como irm\u00e3os de estrada, chegando a todos. A sinodalidade exige a humildade de \u201cir lado a lado\u201d, com o Mestre em companhia. Evangelizar numa par\u00f3quia sinodal passa por \u201cir dois a dois\u201d!<\/p>\n<p>46. \u201c<em>Sinodalidade \u00e9 o que Deus espera da Igreja neste terceiro mil\u00e9nio<\/em>\u201d (Papa Francisco). \u00c9 o modo de ser Igreja! Este \u00e9 um estilo de que o mundo muito pode beneficiar, porque \u00e9 escola de vida, de exerc\u00edcio da corresponsabilidade e colabora\u00e7\u00e3o ativa, onde se pode aprender o servi\u00e7o, a escuta rec\u00edproca e o di\u00e1logo respeitador. At\u00e9 a pr\u00f3pria democracia, a pol\u00edtica, a gest\u00e3o, a administra\u00e7\u00e3o e o servi\u00e7o de cidadania teriam muito a aprender. Na sinodalidade, vale mais o menos perfeito em unidade que o mais perfeito em desuni\u00e3o. De igual modo, vale mais o menos perfeito em grupos alargados que o mais perfeito feito por um s\u00f3 ou poucos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Par\u00f3quia, c\u00e9lula da \u201cIgreja em sa\u00edda\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>47. Em tempo de pandemia percebe-se ser real o apelo a passar de uma atitude de \u201cespera\u201d \u00e0 atitude de \u201csa\u00edda\u201d. N\u00e3o basta a atitude c\u00f3moda de ficar \u00e0 espera que as pessoas venham at\u00e9 n\u00f3s. A par\u00f3quia \u00e9 \u201cextroversa\u201d por natureza, ou seja, est\u00e1 atenta e \u201cem sa\u00edda\u201d, vai onde se sente necess\u00e1ria. Passar de uma pastoral de manuten\u00e7\u00e3o a uma pastoral mission\u00e1ria \u00e9 uma convers\u00e3o que vai durar o seu tempo. N\u00e3o pode haver pressa, mas \u00e9 necess\u00e1rio planear, definir objetivos e percursos para l\u00e1 chegar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Par\u00f3quia, \u201cCasa do Povo de Deus\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>48. Na abertura do Congresso Pastoral da Diocese de Roma, em junho de 2014, que teve como lema \u201cUm povo que gera os seus filhos: comunidade e fam\u00edlia\u201d, o Papa Francisco desenhou um perfil de Igreja no contexto da Igreja local e da par\u00f3quia, descrevendo a comunidade como Igreja \u201c<em>que saiba acolher com sentimentos maternos, mostre ternura com todos, saiba olhar para o futuro com esperan\u00e7a, cultive a mem\u00f3ria de povo de Deus, queira tratar os homens com aquela paci\u00eancia que possibilita suportarem-se uns aos outros, possua a do\u00e7ura do olhar de Jesus, tenha maternalmente a porta sempre aberta a todos, seja capaz de falar a linguagem dos jovens, seja audaz a explorar novas vias, novas linguagens, novas atitudes para dilatar o an\u00fancio da salva\u00e7\u00e3o, tenha sentido de gratuidade<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><strong>V \u2013 OLHAR O FUTURO<\/strong><\/h4>\n<p>49. A mudan\u00e7a est\u00e1 sempre no ADN do jovem. Ele sabe que ela faz parte da sua vida de todos os dias. Quando se fala de grandes mudan\u00e7as na hist\u00f3ria dos homens, os jovens estiveram l\u00e1: sonharam-nas, defenderam-nas e deram a vida pelas causas.<\/p>\n<p>A pandemia fez com que os mais velhos ficassem em casa. Para v\u00e1rios servi\u00e7os e onde lhes deram oportunidade, os jovens foram fundamentais e adaptaram-se de imediato: no acolhimento e higiene, nos lares de idosos, na comunica\u00e7\u00e3o, no uso das novas tecnologias, na prote\u00e7\u00e3o da natureza, etc. Muitos se ofereceram para ajudar na catequese, \u201cporque tinham jeito para as tecnologias\u201d, diziam os mais velhos.<\/p>\n<p>50. Sem a escuta atenta dos jovens, sem a sua vis\u00e3o da Igreja e do mundo, n\u00e3o haver\u00e1 adequada renova\u00e7\u00e3o e convers\u00e3o pastoral. O dom\u00ednio do digital d\u00e1-lhes uma forma nova de ver a realidade. Al\u00e9m disso, s\u00e3o peritos na abertura \u00e0 novidade, ao diferente, \u00e0s pessoas e aos povos. Com eles a fraternidade \u00e9 mais poss\u00edvel. Nasceram j\u00e1 numa cultura de grandes preocupa\u00e7\u00f5es ambientais e defesa da natureza.<\/p>\n<p>51. Car\u00edssimos jovens, a Igreja entre n\u00f3s, mais ainda pela prepara\u00e7\u00e3o da Jornada Mundial da Juventude em Portugal em 2023, est\u00e1 ciente de quanto podeis ser agentes da evangeliza\u00e7\u00e3o, trazendo o vosso modo de ser, agir, pensar, servir e amar. Vinde inteiramente, vinde dizer que Cristo continua jovem e vive no meio de v\u00f3s com a for\u00e7a do seu Evangelho, com a arma potente do seu e do vosso amor.<\/p>\n<p>52. Conscientes de que o testemunho de unidade \u00e9 decisivo na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais justa e fraterna, pedimos juntos a luz de Cristo Ressuscitado para todos os homens e mulheres do nosso pa\u00eds, para que nos conceda a coragem de olhar para al\u00e9m das chagas abertas por esta pandemia e descortinar uma aurora de esperan\u00e7a capaz de nos lan\u00e7ar decididamente numa \u201cnova etapa da evangeliza\u00e7\u00e3o\u201d (EG 287).<\/p>\n<p>53. Que Maria, a M\u00e3e do Evangelho, acompanhe todos os seus filhos, os assista nos perigos desta pandemia e lhes d\u00ea a sa\u00fade esperada, juntamente com a paz, a solidariedade e o conforto do amor rec\u00edproco. Todos irm\u00e3os e irm\u00e3os de todos.<\/p>\n<p>F\u00e1tima, 13 de novembro de 2020<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/wp-content\/uploads\/CEP_DesafiosPastoraisPandemia.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">PDF<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A reflex\u00e3o \u201cDesafios pastorais da pandemia \u00e0 Igreja em Portugal\u201d, aprovada a 13 de novembro de 2020 na Assembleia Plen\u00e1ria [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[74,4],"tags":[],"class_list":["post-6919","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrada","category-documentos"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.6 - 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