{"id":6725,"date":"2020-06-17T14:35:03","date_gmt":"2020-06-17T13:35:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/?p=6725"},"modified":"2020-06-17T14:54:26","modified_gmt":"2020-06-17T13:54:26","slug":"recomecar-e-reconstruir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/recomecar-e-reconstruir\/","title":{"rendered":"Recome\u00e7ar e reconstruir"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Reflex\u00e3o da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>sobre a sociedade portuguesa a reconstruir depois da pandemia Covid-19<\/em><\/strong><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>1. Estamos a viver uma experi\u00eancia in\u00e9dita para as nossas gera\u00e7\u00f5es, mas que marcou muitas outras gera\u00e7\u00f5es ao longo da hist\u00f3ria. Esta mostra-nos que calamidades naturais com a dimens\u00e3o da que hoje experimentamos produziram profundas transforma\u00e7\u00f5es culturais, sociais, pol\u00edticas e econ\u00f3micas. O trabalho de reconstru\u00e7\u00e3o que se sucedeu a essas calamidades naturais, mas tamb\u00e9m a outras que foram fruto da a\u00e7\u00e3o humana, como guerras de grande dimens\u00e3o, pode colher as li\u00e7\u00f5es que delas se podem extrair e ser uma ocasi\u00e3o para come\u00e7ar de novo e repensar os alicerces em que assentava a sociedade onde essas calamidades se geraram. Os desafios que se colocam depois da pandemia Covid-19 s\u00e3o semelhantes: os de colher as li\u00e7\u00f5es que dessa pandemia podem retirar-se e de repensar as bases em que assentam as nossas sociedades, n\u00e3o desperdi\u00e7ando o que elas t\u00eam de positivo e corrigindo as suas disfun\u00e7\u00f5es e injusti\u00e7as. \u00c9 um pequeno contributo nesse sentido que queremos dar com esta reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>Num contexto excecional: n\u00e3o fazer da exce\u00e7\u00e3o regra<\/strong><\/h3>\n<p>2. Importa salientar que essa tarefa de reconstruir as nossas sociedades em novos alicerces n\u00e3o poder\u00e1 ser ditada por alguma forma de determinismo impulsionado pelas exig\u00eancias colocadas pela necessidade de evitar novos surtos da pandemia. H\u00e1 op\u00e7\u00f5es a tomar que devem ser orientadas por crit\u00e9rios \u00e9ticos, para al\u00e9m dessas exig\u00eancias.<\/p>\n<p>3. H\u00e1 que distinguir entre exig\u00eancias de curto prazo e excecionais e o que s\u00e3o op\u00e7\u00f5es de mais vasto alcance.<\/p>\n<p>Assim, por exemplo, algumas priva\u00e7\u00f5es da liberdade individual e da privacidade, ou o fecho de fronteiras, poder\u00e3o ser admiss\u00edveis num contexto excecional, mas n\u00e3o dever\u00e3o tornar-se regra ou passar a ser encaradas com mais f\u00e1cil toler\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Certas pr\u00e1ticas aconselh\u00e1veis num contexto de risco de novos surtos da pandemia, como o menor uso de transportes p\u00fablicos e a redu\u00e7\u00e3o de contacto presenciais ou de contactos sociais em geral, por exemplo, tamb\u00e9m n\u00e3o devem estender-se para al\u00e9m desse contexto excecional.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o de recurso do ensino \u00e0 dist\u00e2ncia veio acentuar desigualdades, pois nem todas as fam\u00edlias disp\u00f5em dos necess\u00e1rios meios inform\u00e1ticos, nem da capacidade de suprir fun\u00e7\u00f5es que s\u00e3o pr\u00f3prias dos professores.<\/p>\n<p>\u00c9 bom que estejamos atentos a estas quest\u00f5es, para que n\u00e3o caiamos no erro de construir uma nova sociedade que destr\u00f3i algo do que a anterior tinha de bom.<\/p>\n<p>4. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 aspetos a reter numa perspetiva de futuro, como verdadeira li\u00e7\u00e3o, da experi\u00eancia excecional que temos vivido. Assim, por exemplo, o recurso mais frequente ao teletrabalho pode permitir uma mais f\u00e1cil concilia\u00e7\u00e3o do trabalho com a vida familiar ou evitar desloca\u00e7\u00f5es com o inerente custo ecol\u00f3gico e econ\u00f3mico. Esse custo ecol\u00f3gico e econ\u00f3mico, incluindo o de viagens a\u00e9reas, tamb\u00e9m pode ser evitado com as mais frequentes comunica\u00e7\u00f5es e reuni\u00f5es por via telem\u00e1tica. At\u00e9 certo ponto e sem que os contactos presenciais deixem de ser, em v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es, imprescind\u00edveis, estes contactos t\u00eam-se revelado eficazes e a comunica\u00e7\u00e3o at\u00e9 se tem intensificado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>O valor inestim\u00e1vel de cada vida humana<\/strong><\/h3>\n<p>5. Uma li\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria que da trag\u00e9dia desta pandemia podemos colher \u00e9 a do que ela representa como redescoberta do valor inestim\u00e1vel de cada vida humana. A op\u00e7\u00e3o com que todos os governos foram confrontados foi precisamente esta: que valor tem a vida humana e que sacrif\u00edcios est\u00e3o as nossas sociedades dispostas a assumir para salvaguardar vidas humanas. E, sem que tal n\u00e3o tenha deixado de ser objeto de controv\u00e9rsia, mais ou menos expl\u00edcita, at\u00e9 em \u00e2mbitos pol\u00edticos e acad\u00e9micos, a resposta foi a de que esse prop\u00f3sito de salvaguardar vidas humanas prevalecia sobre os maiores sacrif\u00edcios n\u00e3o s\u00f3 nos planos da liberdade e do bem-estar pessoal, mas, sobretudo, nos planos econ\u00f3mico e social. O confinamento, com todas as limita\u00e7\u00f5es que acarretou, salvou, de facto, muitas vidas humanas no nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>6. Entre n\u00f3s, a primazia desse objetivo de salvar vidas humanas foi consensualmente aceite por pessoas de v\u00e1rias orienta\u00e7\u00f5es e esse \u00e9 um facto a registar positivamente. \u00c9 natural, por\u00e9m, que \u00e0 medida que se forem sentindo com mais intensidade os efeitos da crise social e econ\u00f3mica, surjam vozes a questionar a op\u00e7\u00e3o que foi tomada, talvez n\u00e3o tanto pela primazia que foi dada ao objetivo de salvaguardar vidas humanas, mas porque se questiona se n\u00e3o haveria alternativas menos gravosas. Importa nunca esquecer, mesmo quando a crise se intensificar, ou mesmo que se questione se n\u00e3o haveria alternativas menos gravosas, que a salvaguarda de vidas humanas permanece um objetivo priorit\u00e1rio que d\u00e1 sentido aos sacrif\u00edcios por que estamos a passar; podemos mesmo dizer que s\u00f3 esse objetivo poder\u00e1 dar sentido a esses sacrif\u00edcios.<\/p>\n<p>7. Importa ainda sublinhar que a crise pode, em larga medida, ser enfrentada, no que de mais dram\u00e1tico encerra, com um esfor\u00e7o acrescido de solidariedade, tamb\u00e9m ele sem precedentes. A morte n\u00e3o teria rem\u00e9dio, a crise poder\u00e1 t\u00ea-lo nos seus aspetos mais dram\u00e1ticos com esse esfor\u00e7o acrescido e in\u00e9dito de solidariedade. Sem a solidariedade efetiva nunca conseguir\u00edamos vencer esta crise.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>A riqueza da vida dos idosos<\/strong><\/h3>\n<p>8. Importa tamb\u00e9m sublinhar que as vidas que foram preservadas, e que importa ainda preservar, s\u00e3o de pessoas de todas as idades, mas, sobretudo, vidas de pessoas idosas ou com outras doen\u00e7as que n\u00e3o as impediam de viver mais tempo. Nem por isso essas vidas s\u00e3o merecedoras de menor prote\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m sobre este aspeto se encontrou um consenso generalizado na sociedade portuguesa e esse \u00e9 um facto a registar positivamente. Toda a vida humana tem um valor inestim\u00e1vel, a vida de um idoso ou de um doente, mesmo que com menor expetativa de anos pela frente, tem um valor igualmente inestim\u00e1vel. Al\u00e9m do mais, porque, como sublinhou v\u00e1rias vezes o Papa Francisco, os idosos s\u00e3o deposit\u00e1rios da riqueza que representa a mem\u00f3ria de um povo.<\/p>\n<p>9. A este respeito, \u00e9 de sublinhar o esfor\u00e7o desenvolvido pelas Institui\u00e7\u00f5es Particulares de Solidariedade Social (IPSS) \u2013 dire\u00e7\u00f5es e funcion\u00e1rios\/as com a colabora\u00e7\u00e3o das autarquias e prote\u00e7\u00e3o civil \u2013 que permitiu o controlo de situa\u00e7\u00f5es que poderiam tornar-se dram\u00e1ticas. Todavia, n\u00e3o pode deixar de lamentar-se que muitas das mortes provocadas por esta pandemia tenham ocorrido em lares de idosos, mortes que, porventura, poderiam ter sido evitadas se esses lares tivessem beneficiado de outros apoios. Esta trag\u00e9dia deveria despertar nas autoridades e em todos n\u00f3s outra aten\u00e7\u00e3o para com as dificuldades por que passam os idosos, em especial e al\u00e9m do mais, a solid\u00e3o e o abandono a que muitas vezes s\u00e3o votados. E tamb\u00e9m para as necessidades das institui\u00e7\u00f5es de solidariedade social que deles cuidam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>A linha da frente ao servi\u00e7o da vida<\/strong><\/h3>\n<p>10. Associada \u00e0 redescoberta do valor inestim\u00e1vel de cada vida humana, est\u00e1 a redescoberta, a que tamb\u00e9m vimos assistindo, da import\u00e2ncia e nobreza da miss\u00e3o dos profissionais de sa\u00fade ao servi\u00e7o dessa vida. Nunca ser\u00e1 demasiada a gratid\u00e3o da sociedade portuguesa, como a de outros pa\u00edses, \u00e0 tarefa abnegada e incans\u00e1vel desses profissionais de sa\u00fade, capazes de arriscar a sua pr\u00f3pria vida e de sacrificar o conv\u00edvio com os seus familiares para ser fi\u00e9is \u00e0 sua miss\u00e3o. Um testemunho de amor ao pr\u00f3ximo que edifica a todos, como exemplo a seguir tamb\u00e9m nos mais variados \u00e2mbitos profissionais e sociais. Essa redescoberta deveria ser uma ocasi\u00e3o para um mais justo reconhecimento, em v\u00e1rios planos, dessas profiss\u00f5es.<\/p>\n<p>11. Tornou-se tamb\u00e9m mais evidente a miss\u00e3o e import\u00e2ncia dos servi\u00e7os de sa\u00fade. Tornou-se mais evidente que as despesas com esses servi\u00e7os n\u00e3o s\u00e3o sup\u00e9rfluas ou facilmente dispens\u00e1veis. Pode continuar a debater-se, como at\u00e9 aqui, a parcela que nesses servi\u00e7os caber\u00e1 ao setor p\u00fablico, ao setor social e ao setor privado, mas \u00e9 agora mais evidente que ao Estado cabe uma responsabilidade indeclin\u00e1vel de garantir que o acesso \u00e0 sa\u00fade a ningu\u00e9m \u00e9 negado, nem pela falta de recursos econ\u00f3micos, nem pela maior ou menor gravidade da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>12. N\u00e3o podemos deixar de anotar como a legaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia e a mensagem cultural que essa legaliza\u00e7\u00e3o acarreta contraria notoriamente estas li\u00e7\u00f5es e redescobertas, relativas ao valor inestim\u00e1vel de cada vida humana e \u00e0 nobreza da miss\u00e3o dos profissionais de sa\u00fade: precisamente porque vem admitir que algumas vidas humanas, marcadas pela doen\u00e7a e pelo sofrimento, tenham perdido valor e deixem de ser merecedoras de prote\u00e7\u00e3o, e porque vem desvirtuar a miss\u00e3o dos profissionais de sa\u00fade, a quem passa a ser pedido que deixem de proteger a vida em quaisquer circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>A vida em plenitude<\/strong><\/h3>\n<p>13. Se \u00e9 verdade que esta pandemia nos tem feito redescobrir o valor inestim\u00e1vel da vida humana terrena, ela tamb\u00e9m nos tem feito redescobrir a precariedade dessa vida, precariedade que nem a ci\u00eancia mais avan\u00e7ada, nem as riquezas materiais conseguem anular. Bastou um v\u00edrus min\u00fasculo e invis\u00edvel para nos relembrar isso. Por isso, esta deve ser tamb\u00e9m uma ocasi\u00e3o para redescobrir Deus, a quem devemos essa vida e que nos chama a partilhar com Ele uma outra Vida, de plenitude e eternidade. Esta deveria ser, acima de tudo, uma ocasi\u00e3o para nos preparamos para essa Vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>A redescoberta do papel da fam\u00edlia<\/strong><\/h3>\n<p>14. Servi\u00e7o essencial acima de todos revelou-se, mais uma vez o da fam\u00edlia, primeiro e \u00faltimo reduto de apoio nas situa\u00e7\u00f5es mais dif\u00edceis. N\u00e3o podemos esquecer, por\u00e9m, as dificuldades que reca\u00edram sobre muitas das fam\u00edlias, em especial as mais jovens, confrontadas com a necessidade de conciliar exig\u00eancias do trabalho a partir de casa com o cuidado e a educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>Outras redescobertas<\/strong><\/h3>\n<p>15. Esta pandemia tamb\u00e9m nos tem feito redescobrir a import\u00e2ncia social de muitos outros servi\u00e7os, desde logo os que nunca deixaram de ser prestados mesmo em \u201cestado de emerg\u00eancia\u201d, com o que tal representou de dedica\u00e7\u00e3o e assun\u00e7\u00e3o de riscos por parte de quem os presta. Podemos destacar, entre outros, os servi\u00e7os ligados \u00e0 prote\u00e7\u00e3o civil, \u00e0 seguran\u00e7a p\u00fablica, ao abastecimento de bens alimentares e \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o social. Mas mesmo aqueles servi\u00e7os cuja presta\u00e7\u00e3o foi interrompida se revelaram, afinal, tamb\u00e9m eles indispens\u00e1veis, porque cada um \u00e9, a seu modo, importante para a harmonia da vida social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>Todos no mesmo barco<\/strong><\/h3>\n<p>16. \u00abEstamos todos no mesmo barco e ningu\u00e9m se salva sozinho\u00bb \u2013 estas frases do Papa Francisco, a prop\u00f3sito da pandemia Covid-19, t\u00eam ecoado nos ambientes mais diversificados e em v\u00e1rios cantos do mundo. Esta pandemia tem refor\u00e7ado em muitos a consci\u00eancia do Bem Comum como o bem \u00abde todos e de cada um\u00bb, que todos fazemos parte de uma s\u00f3 fam\u00edlia humana e habitamos uma casa comum. Na verdade, a pandemia atinge, ou pode atingir a todos, ricos e pobres e de todos os pa\u00edses. E s\u00f3 poderemos dizer que dela nos libertamos quando todos, ricos e pobres e de todos os pa\u00edses, dela se libertarem. Enquanto assim n\u00e3o for, haver\u00e1 sempre o risco de se reacender.<\/p>\n<p>17. \u00c9 claro que esta consci\u00eancia de uma fraternidade universal e de um bem comum universal n\u00e3o \u00e9 nova, mas esta pandemia faz com que a sintamos de um modo mais evidente. Isso n\u00e3o pode deixar de ter consequ\u00eancias, no plano cultural, pol\u00edtico, social e econ\u00f3mico. A unidade e coes\u00e3o que, em v\u00e1rios planos, experimentamos na luta contra esta pandemia devem permanecer e aplicar-se tamb\u00e9m a outros \u00e2mbitos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>18. Desde logo, no que diz respeito \u00e0 grave crise social e econ\u00f3mica que surge como consequ\u00eancia indireta da pandemia. Tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o a essa crise, deveremos dizer que \u00abestamos todos no mesmo barco e ningu\u00e9m se salva sozinho\u00bb.<\/p>\n<p>Neste campo, a pandemia p\u00f4s a descoberto o perigo de manter pessoas em situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria, como os sem-abrigo, os imigrantes recentes e requerentes de asilo, bem como os habitantes de bairros de lata ainda infelizmente presentes no nosso pa\u00eds. Uma sociedade que se quer saud\u00e1vel, justa e democr\u00e1tica, n\u00e3o se pode \u201cdar ao luxo\u201d de ter no seu seio estas bolsas de mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Dentro de cada pa\u00eds, e no nosso, para fazer face ao drama do desemprego, s\u00e3o necess\u00e1rios esfor\u00e7os conjuntos de empres\u00e1rios e trabalhadores. N\u00e3o se conseguir\u00e1, obviamente, vencer tal flagelo sem o contributo de uns e outros. Mas tal n\u00e3o poder\u00e1 significar uma maior transig\u00eancia no que \u00e0 justi\u00e7a das rela\u00e7\u00f5es de trabalho diz respeito.<\/p>\n<p>19. Tamb\u00e9m temos assistido em Portugal, a prop\u00f3sito desta pandemia, a uma inusitada converg\u00eancia n\u00e3o s\u00f3 entre as v\u00e1rias autoridades pol\u00edticas, mas tamb\u00e9m entre v\u00e1rios partidos, os que apoiam o governo e os da oposi\u00e7\u00e3o. Esta converg\u00eancia entre governo e oposi\u00e7\u00e3o foi at\u00e9 enaltecida por observadores estrangeiros. N\u00e3o se trata de prescindir da cr\u00edtica salutar pr\u00f3pria da oposi\u00e7\u00e3o num sistema democr\u00e1tico, mas de saber reconhecer o que a todos une, mais do que o que nos separa, os objetivos comuns, mais do que as diverg\u00eancias quanto aos meios de atingir tais objetivos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>O Estado e a sociedade civil<\/strong><\/h3>\n<p>20. Como consequ\u00eancia indireta da pandemia Covid-19, espera-nos uma crise econ\u00f3mica e social de uma dimens\u00e3o que n\u00e3o tem paralelo na hist\u00f3ria mais recente. \u00c9 de prever que o desemprego e o agravamento da pobreza atinjam n\u00edveis muito elevados. Sinal bem evidente da dimens\u00e3o dessa crise s\u00e3o j\u00e1 os pedidos de ajuda para satisfa\u00e7\u00e3o das mais b\u00e1sicas necessidades alimentares, que se t\u00eam multiplicado como nunca se viu no passado recente. Alguns desses pedidos v\u00eam de pessoas que nunca esperariam vir a encontrar-se um dia numa situa\u00e7\u00e3o destas.<\/p>\n<p>21. A amplitude da crise tem feito redescobrir a import\u00e2ncia do papel do Estado, n\u00e3o s\u00f3 no que diz respeito aos necess\u00e1rios apoios sociais, mas tamb\u00e9m no que diz respeito ao relan\u00e7amento da economia. Um papel que vinha sendo descurado nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Verifica-se agora que o mercado ou uma economia movida pelo interesse individual n\u00e3o conseguem, por si s\u00f3, fazer face a t\u00e3o exigente tarefa. A situa\u00e7\u00e3o faz recordar o papel que assumiu o Estado, no plano das pol\u00edticas social e econ\u00f3mica, na sequ\u00eancia da igualmente grave crise da <em>Grande Depress\u00e3o<\/em> que atingiu o mundo na primeira metade no s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>Esse papel do Estado \u00e9 reconhecido pela doutrina social da Igreja, salvaguardado que seja o princ\u00edpio da subsidiariedade, isto \u00e9, desde que ele n\u00e3o se torne omnipresente anulando as iniciativas da sociedade civil.<\/p>\n<p>22. A este respeito, convir\u00e1 n\u00e3o cair na ilus\u00e3o de que do Estado se pode esperar a supera\u00e7\u00e3o da crise sem o contributo da iniciativa e criatividade da sociedade civil, quer no plano dos apoios sociais, quer do relan\u00e7amento da economia. Seria uma forma de desresponsabiliza\u00e7\u00e3o da sociedade civil esperar passivamente pela interven\u00e7\u00e3o do Estado em todos os dom\u00ednios. Ser\u00e1 bom lembrar que, j\u00e1 antes da pandemia, o Estado nem sempre tem atualizado as comparticipa\u00e7\u00f5es devidas \u00e0s institui\u00e7\u00f5es de solidariedade social, que correm o risco de n\u00e3o poderem responder \u00e0 miss\u00e3o a que foram chamadas. Convir\u00e1 n\u00e3o esquecer, por outro lado, as limita\u00e7\u00f5es financeiras do Estado, o muito elevado n\u00edvel da d\u00edvida p\u00fablica portuguesa e que o agravamento desse n\u00edvel se refletir\u00e1 na taxa dos juros dessa d\u00edvida.<\/p>\n<p>23. Enfrentar a crise social e econ\u00f3mica que \u00e9 consequ\u00eancia indireta da pandemia exige um esfor\u00e7o acrescido de solidariedade que deve partir tamb\u00e9m da sociedade civil. Um esfor\u00e7o que tamb\u00e9m n\u00e3o tem paralelo na nossa hist\u00f3ria recente. N\u00e3o bastam ajudas espor\u00e1dicas e ocasionais, movidas por emo\u00e7\u00f5es moment\u00e2neas. S\u00e3o necess\u00e1rias ajudas, em dinheiro, bens ou trabalho volunt\u00e1rio, que sejam cont\u00ednuas, consistentes e impliquem at\u00e9 ren\u00fancias significativas.<\/p>\n<p>H\u00e1 que ter presente que a crise n\u00e3o atinge todos por igual. As desigualdades que persistem na sociedade portuguesa v\u00eam do per\u00edodo anterior \u00e0 crise, mas esta, como j\u00e1 o revelaram alguns estudos, atinge mais gravemente as pessoas de menores rendimentos. E entre os portugueses, h\u00e1 quem tenha perdido quaisquer rendimentos de um dia para o outro e h\u00e1 quem mantenha os rendimentos que j\u00e1 tinha anteriormente. A estes \u00faltimos \u00e9 pedido esse esfor\u00e7o suplementar de solidariedade.<\/p>\n<p>24. Assistimos nestes tempos, com agrado, a muitas manifesta\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas dessa solidariedade que agora \u00e9 exigida, nas comunidades crist\u00e3s, em associa\u00e7\u00f5es das mais diversas, em grupos de colegas de trabalho, entre vizinhos. Importa manter e multiplicar este tipo de iniciativas.<\/p>\n<p>Aos crist\u00e3os cabe uma responsabilidade particular: dever\u00e3o ter por modelo o das primeiras comunidades crist\u00e3s, nas quais, pela comunh\u00e3o de bens, n\u00e3o havia indigentes (<em>At <\/em>4, 34-35).<\/p>\n<p>Manifestamos o nosso apoio \u00e0s iniciativas das C\u00e1ritas (Paroquial, Diocesana e Portuguesa), das Confer\u00eancias Vicentinas e de tantos outros movimentos e associa\u00e7\u00f5es, bem como \u00e0 disponibilidade para implementar e ampliar a partilha de bens.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>Repensar o sistema econ\u00f3mico e social<\/strong><\/h3>\n<p>25. A necess\u00e1ria reconstru\u00e7\u00e3o de um sistema econ\u00f3mico, a que vamos assistir no futuro pr\u00f3ximo, dever\u00e1 ser uma ocasi\u00e3o para o repensar, para preservar o que ele tem de bom e para corrigir o que ela tem de negativo e injusto. Esta pode ser uma ocasi\u00e3o para construir um sistema que coloque a pessoa humana no seu centro e n\u00e3o seja gerador das desigualdades que o sistema que nos rege tem gerado.<\/p>\n<p>26. Para tal, esta pode ser uma ocasi\u00e3o de construir um sistema em que os valores da solidariedade n\u00e3o movam apenas as a\u00e7\u00f5es de apoio social, mas penetrem tamb\u00e9m na economia e no mercado.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma exig\u00eancia que se sente hoje com particular acuidade. Escutamos apelos \u00e0 responsabilidade social de bancos e grandes empresas, o que revela como uma economia movida pelo objetivo de maximiza\u00e7\u00e3o do lucro n\u00e3o responde \u00e0s exig\u00eancias da crise que atravessamos. N\u00e3o pode, por\u00e9m, esperar-se dessas empresas que atuem como institui\u00e7\u00f5es de solidariedade social.<\/p>\n<p>27. Mais longe vai a proposta da enc\u00edclica <em>Caritas in Veritate<\/em> (n. 39), que \u00e9 a de fazer penetrar a l\u00f3gica do dom e da solidariedade na economia, nas empresas e no mercado, sem delegar essa l\u00f3gica apenas na a\u00e7\u00e3o do Estado: <em>\u00abO bin\u00f3mio exclusivo mercado-Estado corr\u00f3i a sociabilidade, enquanto as formas econ\u00f3micas solid\u00e1rias, que encontram o seu melhor terreno na sociedade civil sem contudo se reduzir a ela, criam sociabilidade. O mercado da gratuidade n\u00e3o existe, tal como n\u00e3o se podem estabelecer por lei comportamentos gratuitos, e todavia tanto o mercado como a pol\u00edtica precisam de pessoas abertas ao dom rec\u00edproco.<\/em>\u00bb<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>Uma economia mais amiga do ambiente<\/strong><\/h3>\n<p>28. Uma ocasi\u00e3o para repensar o sistema econ\u00f3mico dever\u00e1 servir tamb\u00e9m para o conjugar com as exig\u00eancias da salvaguarda do ambiente, com particular aten\u00e7\u00e3o \u00e0 transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica imposta pelo combate \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um dom\u00ednio em que podem conflituar exig\u00eancias mais imediatas e de curto prazo, de relan\u00e7amento da economia e de cria\u00e7\u00e3o de empregos pelos m\u00e9todos mais r\u00e1pidos e econ\u00f3micos, com exig\u00eancias estruturais de mais longo prazo, que reclamam investimentos mais conformes a objetivos de desenvolvimento sustent\u00e1vel. H\u00e1 que resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de olhar para o curto prazo esquecendo perigos bem mais graves que se poder\u00e3o verificar num futuro talvez n\u00e3o t\u00e3o long\u00ednquo.<\/p>\n<p>29. N\u00e3o \u00e9, obviamente, descabido associar a salvaguarda do ambiente \u00e0 prote\u00e7\u00e3o da sa\u00fade p\u00fablica e \u00e0 preven\u00e7\u00e3o de epidemias ou outras calamidades. \u00c9 verdade que as epidemias acompanham a hist\u00f3ria da humanidade desde tempos imemoriais e n\u00e3o s\u00e3o um exclusivo da era industrial; noutras \u00e9pocas, sem os recursos sanit\u00e1rios de que hoje beneficiamos, foram bem mais mort\u00edferas do que o s\u00e3o atualmente. Mas tamb\u00e9m j\u00e1 se demonstrou que a polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica foi um dos fatores que facilitou a t\u00e3o r\u00e1pida difus\u00e3o do novo coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>Globaliza\u00e7\u00e3o da solidariedade<\/strong><\/h3>\n<p>30. H\u00e1 quem, perante a pandemia Covid-19, afirme que esta coloca em causa o fen\u00f3meno da globaliza\u00e7\u00e3o (o com\u00e9rcio internacional, o turismo, as migra\u00e7\u00f5es), que deveria ser, a partir de agora, travado. As necessidades de conten\u00e7\u00e3o da difus\u00e3o do v\u00edrus vieram demonstrar a pertin\u00eancia do fecho de fronteiras que vinham sendo cada vez mais abertas. Este racioc\u00ednio poder\u00e1 favorecer o refor\u00e7o do chamado \u201cnacionalismo de exclus\u00e3o\u201d, com o protecionismo econ\u00f3mico e a hostilidade para com os migrantes.<\/p>\n<p>Sempre houve, por\u00e9m, antes desta era da globaliza\u00e7\u00e3o, pandemias que se estenderam por muitos pa\u00edses, n\u00e3o com a rapidez desta, certamente, muitas bem mais mort\u00edferas do que esta. A reconstru\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e social que se seguir\u00e1 a esta pandemia e \u00e0 crise que dela \u00e9 consequ\u00eancia direta deve evitar destruir o que a globaliza\u00e7\u00e3o tem de positivo e, ao mesmo tempo, corrigir o que ela tem tido de negativo.<\/p>\n<p>31. A globaliza\u00e7\u00e3o tem permitido a redu\u00e7\u00e3o da pobreza absoluta, embora tamb\u00e9m tenha acentuado as desigualdades, pelo que os seus benef\u00edcios n\u00e3o t\u00eam chegado a todos por igual. As migra\u00e7\u00f5es, quando convenientemente reguladas, favorecem o desenvolvimento, quer dos pa\u00edses de origem dos migrantes, como se verificou em Portugal durante muitos anos, quer dos pa\u00edses de acolhimento, como se verifica tamb\u00e9m em Portugal atualmente. A globaliza\u00e7\u00e3o tem contribu\u00eddo para a aproxima\u00e7\u00e3o dos povos e culturas, o que \u00e9 de favorecer, sem que tal deva, por\u00e9m, conduzir a alguma forma de uniformiza\u00e7\u00e3o cultural ou de dom\u00ednio de umas culturas sobre outras.<\/p>\n<p>32. As regras de confinamento demonstraram como poder\u00e3o ser limitadas as viagens a\u00e9reas, com as vantagens ecol\u00f3gicas da\u00ed decorrentes, muitas das quais, com o recurso a reuni\u00f5es por videoconfer\u00eancia, se revelam agora dispens\u00e1veis. A redu\u00e7\u00e3o dessas viagens n\u00e3o se traduz, neste aspeto, em menor comunica\u00e7\u00e3o, mais isolamento ou menos interc\u00e2mbios internacionais. Essa comunica\u00e7\u00e3o at\u00e9 pode ser mais intensa, porque mais facilitada.<\/p>\n<p>33. Esta pode ser uma ocasi\u00e3o para, corrigindo os malef\u00edcios da globaliza\u00e7\u00e3o, como de h\u00e1 muito se diz sem que tal se tenha concretizado, implementar a <em>globaliza\u00e7\u00e3o da solidariedade<\/em>, para al\u00e9m da globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica. Mais do que reerguer muros, h\u00e1 que refor\u00e7ar a conjuga\u00e7\u00e3o de esfor\u00e7os entre v\u00e1rios pa\u00edses para responder aos desafios que s\u00e3o agora colocados.<\/p>\n<p>Um aspeto em que \u00e9 importante agir, desde j\u00e1, de acordo com um princ\u00edpio de <em>globaliza\u00e7\u00e3o da solidariedade<\/em> \u00e9 o da crise econ\u00f3mica, social e cultural que surge na sequ\u00eancia da pandemia Covid-19. Essa crise atingir\u00e1 de forma ainda mais gravosa os pa\u00edses mais pobres e a esse facto n\u00e3o podem ser alheios os pa\u00edses mais ricos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>A sa\u00fade p\u00fablica, um bem comum universal<\/strong><\/h3>\n<p>34. Outro desses desafios \u00e9, desde logo, o pr\u00f3prio combate \u00e0 pandemia, que sup\u00f5e a conjuga\u00e7\u00e3o de esfor\u00e7os de todos os pa\u00edses, pois nenhum deles \u00abse salva sozinho\u00bb. Importa ter presentes as especiais car\u00eancias e limita\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses mais pobres, que tamb\u00e9m enfrentam, para al\u00e9m desta, epidemias e outras doen\u00e7as mort\u00edferas de que pouco se fala. Este combate tamb\u00e9m deve refor\u00e7ar em todos a consci\u00eancia de que a sa\u00fade p\u00fablica n\u00e3o pode deixar de ter, hoje mais do que nunca, uma dimens\u00e3o universal, que se estende para al\u00e9m desta pandemia.<\/p>\n<p>35. A este respeito, importa salientar a necessidade de tornar universal o acesso \u00e0 futura vacina contra o Covid-19, o que sup\u00f5e que se supere uma \u00ab<em>utiliza\u00e7\u00e3o demasiado r\u00edgida dos direitos de propriedade intelectual no campo sanit\u00e1rio<\/em>\u00bb, que j\u00e1 a enc\u00edclica <em>Caritas in Veritate<\/em> (n. 22) tinha criticado. Sobre esta quest\u00e3o pronunciou-se o Papa Francisco na sua alocu\u00e7\u00e3o do <em>Regina Coeli <\/em>do passado dia 3 de maio: \u00ab<em>Gostaria de apoiar e encorajar a colabora\u00e7\u00e3o internacional que est\u00e1 a ter lugar com v\u00e1rias iniciativas, a fim de responder de forma adequada e eficaz \u00e0 grave crise que estamos a atravessar. Com efeito, \u00e9 importante unir as capacidades cient\u00edficas, de forma transparente e desinteressada, para encontrar vacinas e tratamentos e garantir o acesso universal a tecnologias essenciais que permitam que as pessoas contagiadas, em todas as partes do mundo, recebam os cuidados de sa\u00fade necess\u00e1rios\u00bb<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>O maior desafio da hist\u00f3ria da Uni\u00e3o Europeia<\/strong><\/h3>\n<p>36. Na origem da Uni\u00e3o Europeia est\u00e1 a li\u00e7\u00e3o de outra calamidade de dimens\u00e3o mundial, a II Guerra Mundial, calamidade que revelou at\u00e9 que ponto extremo podem chegar os ego\u00edsmos nacionais. A Uni\u00e3o Europeia prop\u00f5e-se, desde a sua origem, superar esses ego\u00edsmos atrav\u00e9s da constru\u00e7\u00e3o de uma verdadeira comunidade. Numa verdadeira comunidade, como numa fam\u00edlia, cada membro sente como seus os dramas dos outros.<\/p>\n<p>37. Em nenhum outro momento da hist\u00f3ria da Uni\u00e3o Europeia, e j\u00e1 antes desta pandemia, se verificou uma t\u00e3o grande crise de confian\u00e7a dos cidad\u00e3os europeus nas institui\u00e7\u00f5es dessa Uni\u00e3o. O sentimento de perten\u00e7a que pode dar coes\u00e3o a essa comunidade poder\u00e1 diminuir, ou at\u00e9 desaparecer, quando os cidad\u00e3os europeus deixarem de sentir que a Uni\u00e3o Europeia \u00e9 alheia aos dramas que os atingem. Por isso, a Uni\u00e3o Europeia confronta-se hoje com aquele que \u00e9 talvez o maior desafio da sua hist\u00f3ria: no combate \u00e0 pandemia e \u00e0 crise econ\u00f3mica e social, deve agir como verdadeira comunidade, e n\u00e3o como simples conglomerado de interesses contrapostos em busca de compromissos.<\/p>\n<p>38. N\u00e3o vale agora considerar que as dificuldades por que passam os pa\u00edses mais atingidos pela crise s\u00e3o consequ\u00eancia de erros passados dos seus, o que poderia ser v\u00e1lido nos casos de indisciplina financeira, mas que, mesmo assim, n\u00e3o justificaria o facto de serem os povos, mais do que os governos, a sofrer com isso.<\/p>\n<p>39. O Papa Francisco fez-se eco destas exig\u00eancias, que por muitos s\u00e3o partilhadas, na sua mensagem <em>Urbi et Orbi<\/em> do \u00faltimo Domingo de P\u00e1scoa: \u00ab<em>Hoje, \u00e0 sua frente, a Uni\u00e3o Europeia tem um desafio epocal, de que depender\u00e1 n\u00e3o apenas o futuro dela, mas tamb\u00e9m o do mundo inteiro. N\u00e3o se perca esta ocasi\u00e3o para dar nova prova de solidariedade, inclusive recorrendo a solu\u00e7\u00f5es inovadoras. Como alternativa, resta apenas o ego\u00edsmo dos interesses particulares e a tenta\u00e7\u00e3o dum regresso ao passado, com o risco de colocar a dura prova a conviv\u00eancia pac\u00edfica e o progresso das pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es.<\/em>\u00bb<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>Uma reflex\u00e3o a continuar<\/strong><\/h3>\n<p>40. Como no mundo inteiro e em todos os setores da sociedade, tamb\u00e9m entre n\u00f3s a Igreja foi provada pela pandemia e obrigada a adaptar-se e a inovar no campo das celebra\u00e7\u00f5es, da catequese, dos la\u00e7os comunit\u00e1rios, da sua presen\u00e7a e a\u00e7\u00e3o na sociedade. Nestas vertentes houve muitos sinais de criatividade pastoral que n\u00e3o se devem perder, mas antes valorizar no futuro, como manifesta\u00e7\u00e3o de nova vida e de nova esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Esta reflex\u00e3o quer ser apenas um contributo construtivo e cordial sem pretens\u00e3o de oferecer solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e imediatas para os problemas enfrentados. Dado o evoluir da pandemia e a exiguidade de tempo desta Assembleia, est\u00e1 a ser preparada para a pr\u00f3xima Assembleia Plen\u00e1ria uma reflex\u00e3o mais alargada e profunda sobre os desafios e consequ\u00eancias pastorais da pandemia na vida da Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>F\u00e1tima, 16 de junho de 2020<\/p>\n<p><strong>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/wp-content\/uploads\/APlenariaCEP_junho2020_ReflexaoRecomecarReconstruir.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">[PDF]<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reflex\u00e3o da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa\u00a0sobre a sociedade portuguesa a reconstruir depois da pandemia Covid-19<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[74,4],"tags":[],"class_list":["post-6725","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrada","category-documentos"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.5 - 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