{"id":5726,"date":"2018-03-06T20:08:44","date_gmt":"2018-03-06T20:08:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/?p=5726"},"modified":"2018-03-06T20:10:09","modified_gmt":"2018-03-06T20:10:09","slug":"fazer-caminho-das-pedras-ao-fogo-da-pascoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/fazer-caminho-das-pedras-ao-fogo-da-pascoa\/","title":{"rendered":"Fazer Caminho: Das Pedras ao Fogo da P\u00e1scoa"},"content":{"rendered":"<p>Reflex\u00e3o Quaresmal da Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz<!--more--><\/p>\n<p><em>Sem dizer o fogo \u2013 vou para ele. Sem enunciar as pedras, sei que as piso \u2013 duramente, s\u00e3o pedras e n\u00e3o ervas. (&#8230;) Tudo o que sei, j\u00e1 l\u00e1 est\u00e1, mas n\u00e3o est\u00e3o os meus passos, nem os meus bra\u00e7os. Por isso caminho, caminho, porque h\u00e1 um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo caminho e descubro o meu caminho.<\/em><\/p>\n<p>(Ant\u00f3nio Ramos Rosa, <em>Sobre o Rosto da Terra<\/em>)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Ramos Rosa apresenta-nos neste fragmento po\u00e9tico aquilo que poder\u00e1 constituir a caminhada quaresmal de cada um ou de cada uma ao encontro da Ressurrei\u00e7\u00e3o. Acompanhamos a Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2018 cujo t\u00edtulo \u00e9 interpelador: \u201cPorque se multiplicar\u00e1 a iniquidade, vai resfriar o amor de muitos\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Nesta passagem do Evangelho Jesus anuncia a destrui\u00e7\u00e3o do templo n\u00e3o ficando \u201cpedra sobre pedra\u201d. Pensamos na \u201cCasa Comum\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> de que Francisco fala na <em>Laudato S\u00ed. <\/em><\/p>\n<p>Vivemos tempos dif\u00edceis, \u201ctempos de pedra\u201d, \u201csabemos que os pisamos\u201d. Como podemos transcender as situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia e injusti\u00e7a que nos assolam, como deixarmos de estar \u201csentados num bloco de gelo?\u201d &#8211; uma met\u00e1fora poderosa! apresentada pelo Papa, citando Dante. A Reflex\u00e3o Quaresmal de 2018 da Comiss\u00e3o Nacional de Justi\u00e7a e Paz (CNJP), afirma, contextualiza e expande esta exorta\u00e7\u00e3o do Papa: \u201cPorque se multiplicar\u00e1 a iniquidade, vai resfriar o amor de muitos!\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>\n<h3><strong><em>Sem dizer o fogo &#8211; vou para ele<\/em><\/strong><\/h3>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p>O Papa Francisco come\u00e7a a sua mensagem reafirmando aquilo que vivemos ano ap\u00f3s ano: \u201cMais uma vez nos vamos encontrar com a P\u00e1scoa do Senhor\u201d. O ciclo lit\u00fargico convida-nos: \u201cConvertei-vos!\u201d O t\u00edtulo da mensagem de Francisco \u00e9 um an\u00fancio com car\u00e1cter evang\u00e9lico, a afirma\u00e7\u00e3o de uma realidade. Mas \u00e9 tamb\u00e9m um aviso, uma s\u00e9ria interpela\u00e7\u00e3o: a multiplica\u00e7\u00e3o da iniquidade conduz ao abismo, leva-nos a um beco sem sa\u00edda onde n\u00e3o haver\u00e1 salva\u00e7\u00e3o. A dicotomia iniquidade\/amor \u00e9 um ponto de partida para uma refer\u00eancia \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre justi\u00e7a (ou equidade) e caridade (ou amor), que devem estar sempre estreitamente ligadas: a caridade pressup\u00f5e a justi\u00e7a, a justi\u00e7a deve ser completada com a caridade.<\/p>\n<p>O Papa afirma de um modo contundente:<\/p>\n<p>O que apaga o amor \u00e9, antes de mais nada, a gan\u00e2ncia do dinheiro, \u00abraiz de todos os males\u00bb (1 Tm 6,10); depois dela, vem a recusa de Deus e, consequentemente, de encontrar consola\u00e7\u00e3o n&#8217;Ele, preferindo a nossa desola\u00e7\u00e3o ao conforto da sua Palavra e dos Sacramentos.\u00a0Tudo isto se transforma em viol\u00eancia que se abate sobre quantos s\u00e3o considerados uma amea\u00e7a para as nossas \u00abcertezas\u00bb: o beb\u00e9 nascituro, o idoso doente, o h\u00f3spede de passagem, o estrangeiro, mas tamb\u00e9m o pr\u00f3ximo que n\u00e3o corresponde \u00e0s nossas expetativas.<\/p>\n<p>Com Cristo vivemos as tenta\u00e7\u00f5es dos quarenta dias no deserto: <em>o dinheiro<\/em>, cobi\u00e7a e riqueza \u2013 o \u201cbezerro de ouro\u201d -; <em>o poder<\/em> para nos servirmos a n\u00f3s mesmos num \u201csucesso\u201d a todo o custo, espezinhando os outros; a \u201cimagem\u201d superficial e as rela\u00e7\u00f5es passageiras, <em>o falso pelo verdadeiro<\/em>&#8230; <em>a nega\u00e7\u00e3o de Deus<\/em>. Tal como afirma o Papa, somos v\u00edtimas de \u201cencantadores de serpentes\u201d, dos falsos profetas que se refugiam tamb\u00e9m nos <em>media<\/em>, no \u201cdiscurso\u201d maiorit\u00e1rio, nas promessas v\u00e3s de felicidade eterna: o \u201cEu\u201d no centro e tudo o resto girando \u00e0 minha volta. Salom\u00e3o \u201cdesviou o seu cora\u00e7\u00e3o para outros deuses\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> e por isso Deus o puniu. Francisco interpela-nos na sua Mensagem: se n\u00e3o discernirmos e combatermos essas tenta\u00e7\u00f5es, viveremos de cora\u00e7\u00e3o empedernido, \u201cficaremos sentados num trono de gelo\u201d, correndo o risco de apagar o Amor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>\n<h3><strong><em>Sem enunciar as pedras, sei que as piso<\/em><\/strong><\/h3>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p>Enunciando algumas das \u201cpedras\u201d que se constitu\u00edram em amea\u00e7as \u00e0 nossa sobreviv\u00eancia, o Papa faz uma dram\u00e1tica den\u00fancia:<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o \u00e9 testemunha silenciosa deste resfriamento do amor: a terra est\u00e1 envenenada por res\u00edduos lan\u00e7ados por neglig\u00eancia e por interesses; os mares, tamb\u00e9m eles polu\u00eddos, devem infelizmente guardar os despojos de tantos n\u00e1ufragos das migra\u00e7\u00f5es for\u00e7adas; os c\u00e9us \u2013 que, nos des\u00edgnios de Deus, cantam a sua gl\u00f3ria \u2013 s\u00e3o rasgados por m\u00e1quinas que fazem chover instrumentos de morte.<\/p>\n<p>O mundo vive \u201cuma guerra em lume brando\u201d que tem sobretudo express\u00e3o ao n\u00edvel de conflitos locais. Deparamo-nos com extremismos nacionalistas renascendo na Europa. Novos fundamentalismos se instalam entre n\u00f3s. O terrorismo n\u00e3o tem fronteiras: experimentamos no nosso quotidiano a inseguran\u00e7a e o medo, a desesperan\u00e7a. Vivemos uma globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f3mico-financeira que, em vez de nos trazer maior solidariedade, nos atrofia e abafa com tent\u00e1culos invis\u00edveis. O ultra-liberalismo do \u201csalve-se quem puder\u201d \u00e9 no mundo uma realidade: instalou-se na educa\u00e7\u00e3o, na sa\u00fade, na justi\u00e7a, no apoio e seguran\u00e7a social, no trabalho e no emprego, no uso da terra.<\/p>\n<p>Afirma ainda o Papa:<\/p>\n<p>Quantos acabam enredados numa vida completamente virtual&#8230;:<\/p>\n<p>O excesso de rela\u00e7\u00f5es <em>online<\/em>, das horas em frente a ecr\u00e3s que nos consomem a vista e a vida roubando um imenso espa\u00e7o a tudo o resto. Esta quest\u00e3o \u00e9 transversal a todas as idades mas tem hoje contornos dram\u00e1ticos nos adolescentes que ainda n\u00e3o t\u00eam a m\u00ednima capacidade de autocontrole no uso das redes sociais e afins e que nos pode colocar em estado de \u201drotura comunicacional\u201d<\/p>\n<p>O recente relat\u00f3rio da Oxfam sobre a desigualdade no mundo<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, divulgado na v\u00e9spera do F\u00f3rum Econ\u00f3mico Mundial em Davos, informa que: \u201cmais de 80% da riqueza criada no mundo em 2017 foi parar \u00e0s m\u00e3os dos mais ricos que representam 1% da popula\u00e7\u00e3o mundial\u201d. O fosso entre os poucos ricos e a enorme massa de pobres torna-se cada vez mais evidente. N\u00e3o podemos esquecer que as v\u00edtimas do aquecimento global ser\u00e3o sempre os mais pobres&#8230; A amea\u00e7a nuclear paira sobre n\u00f3s apesar dos tratados assinados. Ao referir-se \u00e0 \u00faltima reuni\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio, realizada em Buenos Aires em Novembro de 2017, o jornalista ingl\u00eas Nick Dearden afirma, criticando a atitude r\u00edgida e ego\u00edsta dos pa\u00edses ricos: \u201co mundo transformou-se no parque de divers\u00f5es das empresas\u201d.<\/p>\n<p>Impressiona a clareza do Papa em nomear as duas causas t\u00e3o concretas do &#8220;resfriar do amor&#8221;, a n\u00edvel pessoal e &#8220;tamb\u00e9m nas nossas comunidades&#8221;: a gan\u00e2ncia e a recusa de Deus. Queremos inscrever esta interpela\u00e7\u00e3o nos nossos cora\u00e7\u00f5es insatisfeitos e inquietos? Manuela Silva<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> pergunta: \u201cO futuro pode ou n\u00e3o ser constru\u00eddo e melhorado com a nossa a\u00e7\u00e3o? Ou \u00e9 algo que vem do futuro ao nosso encontro e nos arrasa?\u201d .<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>\n<h3><strong><em>duramente, s\u00e3o pedras e n\u00e3o ervas<\/em><\/strong><\/h3>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p>Vamos deixar-nos arrasar por essa \u201cavalanche de pedras\u201d que desce do cimo das montanhas? E n\u00f3s \u2013 eu, tu&#8230;? -, em que pedras trope\u00e7amos? Reconhecemos os falsos profetas que &#8220;se aproveitam das emo\u00e7\u00f5es humanas para escravizar as pessoas&#8221;?<\/p>\n<p>Como foi fazendo ao longo do ano passado, a CNJP insiste: Que dizemos da televis\u00e3o e dos <em>media<\/em> que temos? Como intervimos face \u00e0 pan\u00f3plia de programas televisivos e afins que puxam \u201cpor tudo o que \u00e9 emo\u00e7\u00e3o e nos prendem por a\u00ed\u201d? Que fazemos contra dispositivos de entretenimento viciantes?<\/p>\n<p>O \u00edndice de \u201cdesenvolvimento inclusivo\u201d continua a ser baixo em Portugal. Apesar dos bons resultados do Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade, nem todos os portugueses t\u00eam pleno e tempestivo acesso \u00e0 sa\u00fade. Porque se trata de um bem t\u00e3o preciso, esse acesso n\u00e3o pode depender das capacidades econ\u00f3micas de cada um.<\/p>\n<p>A triste marginaliza\u00e7\u00e3o dos idosos parece n\u00e3o ter rem\u00e9dio e tamb\u00e9m o &#8220;esquecimento&#8221; das popula\u00e7\u00f5es do interior. O exemplo recente dos CTT \u00e9 paradigm\u00e1tico porque a tomada de decis\u00e3o teve como base um maior lucro e n\u00e3o a reorganiza\u00e7\u00e3o de um servi\u00e7o de atendimento aos cidad\u00e3os, nomeadamente os mais isolados. Ora, estamos a falar de direitos humanos b\u00e1sicos. Mas h\u00e1 que reconhecer o contraponto de algumas iniciativas muito belas, como a aplica\u00e7\u00e3o inform\u00e1tica \u201cSOS idosos\u201d feita por um grupo de jovens na sua escola.<\/p>\n<p>Apesar da generosidade e solidariedade dos portugueses, os fogos deste ver\u00e3o e outono trazem \u00e0 superf\u00edcie problemas mais profundos quanto \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica da popula\u00e7\u00e3o e \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o das pessoas em megacidades. Nestas megacidades o crime e a viol\u00eancia instalam-se de par com um outro tipo de pobreza que retira qualquer dignidade ao quotidiano das pessoas e reduz tudo a uma luta pela sobreviv\u00eancia. H\u00e1 uma dimens\u00e3o \u00e9tica na prote\u00e7\u00e3o do ambiente: uma exig\u00eancia de justi\u00e7a e amor para com as gera\u00e7\u00f5es futuras. Como ser\u00e1 com os nossos filhos? Assistimos impotentes \u00e0 polui\u00e7\u00e3o criminosa dos nossos rios ao mesmo tempo que se falseiam informa\u00e7\u00f5es relevantes para prevenir a repeti\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es calamitosas: o caso do Rio Tejo ainda permanece na nossa retina pelas imagens dram\u00e1ticas projetadas nos ecr\u00e3s televisivos.<\/p>\n<p>A corrup\u00e7\u00e3o destr\u00f3i o nosso sistema democr\u00e1tico, \u00e9 \u201cum v\u00edrus social\u201d como lembrou o Papa no Peru. A troca de favores e a corrup\u00e7\u00e3o at\u00e9 em institui\u00e7\u00f5es que t\u00eam por miss\u00e3o o combate ao crime e em institui\u00e7\u00f5es de solidariedade social parece estar a aumentar (ou ser\u00e1 mais conhecida, o que \u00e9, em si, de louvar). Como \u00e9 poss\u00edvel termos chegado a esta t\u00e3o acentuada aus\u00eancia de sentido \u00e9tico no uso dos financiamentos p\u00fablicos?<\/p>\n<p>Anunciam-nos que a taxa de desemprego baixou (e congratulamo-nos com isso) mas h\u00e1 que continuar a denunciar os sal\u00e1rios baixos e a situa\u00e7\u00e3o contratual prec\u00e1ria. Com estas condi\u00e7\u00f5es de trabalho, como podemos desejar que as fam\u00edlias tenham mais filhos? Encerram-se f\u00e1bricas sem qualquer prote\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Como um sinal de esperan\u00e7a assistimos nos meses recentes a situa\u00e7\u00f5es exemplares de luta pelo posto de trabalho ou, na sua inevit\u00e1vel perda, por condi\u00e7\u00f5es justas de <em>layoff<\/em>. A este n\u00edvel temos de reconhecer o trabalho significativo da comunica\u00e7\u00e3o social trazendo estas problem\u00e1ticas para a pra\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p>E que dizemos da corrup\u00e7\u00e3o no desporto, concretamente no desporto-rei? Grande parte dos notici\u00e1rios s\u00e3o tomados pelas not\u00edcias de futebol, alienando e adormecendo a nossa popula\u00e7\u00e3o e esquecendo outras modalidades que demonstram os reais valores de uma pr\u00e1tica desportiva honesta, saud\u00e1vel e digna.<\/p>\n<p>Constatamos finalmente a n\u00e3o-diminui\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia dom\u00e9stica e a incapacidade das for\u00e7as de seguran\u00e7a, e mesmo da justi\u00e7a, de atenderem a este flagelo que tem ceifado muitas vidas, nomeadamente de mulheres. Tem vindo a lume, mais recentemente, uma nova praga: a da viol\u00eancia no namoro. Como redesenhamos fatores culturais ancestrais que atropelam os mais basilares direitos humanos?<\/p>\n<p>Mant\u00e9m-se o \u00edndice de desemprego juvenil e a emigra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de milhares de jovens que n\u00e3o encontram condi\u00e7\u00f5es nem a possibilidade de construir um projeto de vida no seu pr\u00f3prio pa\u00eds. Em contraponto, como se tem desenvolvido o acolhimento de migrantes e refugiados? Tornou-se uma n\u00e3o-not\u00edcia? No entanto, conhecemos sobejamente entre n\u00f3s a explora\u00e7\u00e3o e o tr\u00e1fico de seres humanos (sobretudo mulheres e crian\u00e7as), a sujei\u00e7\u00e3o a formas de trabalho degradantes, reduzindo as pessoas a n\u00f3madas, proscritos, \u201cn\u00e3o cidad\u00e3os\u201d.<\/p>\n<p>Questionamos o consumo desenfreado que nos traz uma aparente satisfa\u00e7\u00e3o, mas apenas nos excita, nos enche de uma energia balofa, superficial e falsa. Presenciamos o \u201cculto do corpo\u201d e da beleza f\u00edsica normalizada e, simultaneamente, constatamos a fome espiritual que nos leva a uma insatisfa\u00e7\u00e3o permanente e a tantos dist\u00farbios alimentares, incluindo em crian\u00e7as. A pobreza cultural da uma significativa parte da popula\u00e7\u00e3o portuguesa \u00e9 ainda confrangedora.<\/p>\n<p>\u201cSentados em tronos de gelo\u201d &#8211; afirma o Papa &#8211; \u201cinstalamo-nos no rem\u00e9dio por vezes amargo da verdade&#8230;&#8221;. Ser\u00e1 que perdemos a capacidade de nos indignar? \u00c9 esta a no\u00e7\u00e3o de uma vida com qualidade para todos? N\u00e3o temos todos o direito de bem-viver? Que fazer face a esta &#8220;difus\u00e3o da iniquidade no mundo\u201d?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>\n<h3><strong><em>Tudo o que sei, j\u00e1 l\u00e1 est\u00e1&#8230;<\/em><\/strong><\/h3>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p>Regressemos \u00e0 palavra do Evangelho, a Palavra das palavras, que nos situa no tempo, nessa caminhada do ser humano para a plenitude e para o desejo de Deus.<\/p>\n<p>Cristo n\u00e3o excluiu ningu\u00e9m e acolheu todos, mesmo os leprosos que a tradi\u00e7\u00e3o judaica considerava impuros. Tocou-os, aben\u00e7oou-os, deu-lhes a cura para os seus males. Fez o mesmo a tantos, doentes do corpo e do esp\u00edrito. Estendeu as m\u00e3os aos prisioneiros e \u00e0s mulheres, consideradas subalternas e \u201cimpuras\u201d. Cristo devolveu a dignidade aos que s\u00e3o exclu\u00eddos em fun\u00e7\u00e3o das suas ideias, da sua condi\u00e7\u00e3o social, op\u00e7\u00f5es de vida ou cultura&#8230; Cristo deu a m\u00e3o a todos. Cristo precisa das nossas m\u00e3os para continuar a incluir todos. Sabemos. Mas n\u00e3o sabemos com o corpo, o esp\u00edrito, a carne. Sabemos e n\u00e3o sabemos.<\/p>\n<p>Meditemos ent\u00e3o na Palavra:<\/p>\n<p>Estando Jesus sentado no Monte das Oliveiras, os disc\u00edpulos aproximaram-se e perguntaram-lhe em particular: \u00abDiz-nos quando acontecer\u00e1 tudo isto e qual o sinal da tua vinda e do fim do mundo.\u00bb Jesus respondeu-lhes: \u00abTomai cuidado para que ningu\u00e9m vos desencaminhe.\u00a0<sup>5<\/sup>Porque vir\u00e3o muitos em meu nome, dizendo: \u2018Sou eu o Messias\u2019. E h\u00e3o de enganar muita gente.\u00a0Ouvireis falar de guerras e de rumores de guerras, mas n\u00e3o vos assusteis.\u00a0<em>Isso tem de acontecer<\/em>, mas ainda n\u00e3o ser\u00e1 o fim.\u00a0H\u00e1 de erguer-se povo contra povo e reino contra reino, e haver\u00e1 fomes, pestes e terramotos em v\u00e1rios s\u00edtios.\u00a0Tudo isto ser\u00e1 apenas o princ\u00edpio das dores.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>\u201d<\/p>\n<p>(&#8230;) Ent\u00e3o, se vierem dizer-vos: \u2018Aqui est\u00e1 o Messias\u2019, ou \u2018Ali est\u00e1 Ele\u2019, n\u00e3o acrediteis;\u00a0porque h\u00e3o de surgir falsos messias e falsos profetas, que far\u00e3o grandes milagres e prod\u00edgios, a ponto de desencaminharem, se poss\u00edvel, at\u00e9 os eleitos.\u00a0Olhai que j\u00e1 vos preveni.\u00a0Por isso, se vos disserem: \u2018Ele est\u00e1 no deserto\u2019, n\u00e3o saiais; \u2018Ei-lo no interior da casa\u2019, n\u00e3o acrediteis.\u00a0Porque, assim como o rel\u00e2mpago sai do Oriente e brilha at\u00e9 ao Ocidente, assim ser\u00e1 a vinda do Filho do Homem (&#8230;).<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p>\n<p>S\u00e9culos ap\u00f3s s\u00e9culos Cristo continua a relembrar o caminho que temos de fazer em comum. E alerta e interpela os disc\u00edpulos a que n\u00e3o se iludam com falsas palavras. Mas os nossos ouvidos continuam a n\u00e3o escutar, os olhos a n\u00e3o ver, o pensamento a esvaziar-se. No entanto Ele traz-nos a promessa de um recome\u00e7o:<\/p>\n<p>Aprendei da compara\u00e7\u00e3o tirada da figueira: quando os seus ramos se tornam tenros e as folhas come\u00e7am a despontar, sabeis que o ver\u00e3o est\u00e1 pr\u00f3ximo.\u00a0Assim tamb\u00e9m, quando virdes tudo isto, ficai sabendo que Ele est\u00e1 pr\u00f3ximo, \u00e0 porta.\u00a0Em verdade vos digo: Esta gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o passar\u00e1 sem que tudo isto aconte\u00e7a.\u00a0O c\u00e9u e a terra passar\u00e3o, mas as minhas palavras n\u00e3o h\u00e3o de passar<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.\u00bb<\/p>\n<p>Cristo quer ressuscitar por n\u00f3s e em n\u00f3s. Meditemos a Palavra e tenhamos esperan\u00e7a neste an\u00fancio de um recome\u00e7o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>\n<h3><strong><em>&#8230; mas [ainda] n\u00e3o est\u00e3o os meus passos, nem os meus bra\u00e7os.<\/em><\/strong><\/h3>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p>Vigiai,\u00a0pois, porque n\u00e3o sabeis o dia nem a hora em que o Filho do Homem h\u00e1 de vir <a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n<p>O Evangelho convida-nos a ser\/estar vigilantes n\u00e3o deixando de contemplar o belo, o bom, o justo. \u00c9 na alegria e na esperan\u00e7a que queremos ser interpelados nesta Quaresma. Mas Cristo precisa das nossas m\u00e3os para continuar o caminho da Ressurrei\u00e7\u00e3o. Afirma o Papa: \u201cSe porventura detetamos, no nosso \u00edntimo e ao nosso redor, os sinais acabados de descrever, saibamos que, a par do rem\u00e9dio, por vezes amargo, da verdade, a Igreja, nossa m\u00e3e e mestra, nos oferece, neste tempo de Quaresma, o rem\u00e9dio doce da ora\u00e7\u00e3o, da esmola e do jejum\u201d. Francisco convida-nos a potenciar \u201cas pedras do caminho\u201d com os nossos passos e com os nossos bra\u00e7os.<\/p>\n<p>O apelo \u00e0 ora\u00e7\u00e3o, \u00e0 esmola e ao jejum \u00e9 universal. Ou seja, a proposta n\u00e3o \u00e9 apenas dirigida aos cat\u00f3licos, mas sim a todos os homens e mulheres de boa vontade, abertos \u00e0 escuta de Deus.<\/p>\n<p>Assim, comecemos por <strong><em>rezar<\/em><\/strong> a nossa indig\u00eancia, olhemos para dentro de n\u00f3s e descubramos os padr\u00f5es de vida que nos impedem de \u201cestar\u201d em Deus. Fa\u00e7amos sil\u00eancio, predisponhamos o nosso corpo para que o sil\u00eancio possa fluir. Ent\u00e3o, sim, \u201centremos no nosso quarto\u201d e rezemos. Comecemos por rezar por n\u00f3s (por n\u00f3s pr\u00f3prios, sim!) para depois, ou simultaneamente, trazermos ao patamar de Deus tudo aquilo que nos aflige e que foi anteriormente enunciado. E se n\u00e3o o conseguirmos fazer, balbuciemos palavras repetidas em jaculat\u00f3rias que conhecemos bem: <em>Senhor Jesus tende compaix\u00e3o de mim! Meu Senhor e meu Deus! Pai Nosso&#8230;!<\/em> ou a bel\u00edssima jaculat\u00f3ria ortodoxa: <em>Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim, pecador(a).<\/em> Alimentemo-nos tamb\u00e9m com o p\u00e3o da Eucaristia, sinal da Cruz e, simultaneamente, sinal de Ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica da\u00a0<strong><em>esmola<\/em><\/strong><em>\u00a0<\/em>liberta-nos da gan\u00e2ncia e ajuda-nos a descobrir que o outro \u00e9 nosso irm\u00e3o: aquilo que possuo, nunca \u00e9 s\u00f3 meu. Afirma Francisco: \u201cQuantos crist\u00e3os e quantas comunidades e institui\u00e7\u00f5es aburguesadas n\u00e3o passam sem uma abundante fortuna pessoal? Nem precisam de confiar na Provid\u00eancia Divina: os seus celeiros-silos est\u00e3o bem cheios\u201d:<\/p>\n<p>Desejamos viver ao jeito dos primeiros crist\u00e3os, em que cada um recebia estritamente o que lhe era necess\u00e1rio. Desejamos que o esp\u00edrito de Quaresma se prolongue ao longo do ano, dos anos, da nossa vida inteira. Mas como definimos o que nos \u00e9 necess\u00e1rio em contraponto \u00e0 necessidade dos outros? Vale a pena fazermos uma an\u00e1lise cr\u00edtica e s\u00e9ria, um exame de consci\u00eancia. Os mais recentes relat\u00f3rios e estudos cient\u00edficos afirmam que \u00e9 poss\u00edvel a qualidade de vida para todos se alguns se predispuserem a viver com menos. Francisco critica a gan\u00e2ncia e desafia-nos a ser generosos com os bens que possu\u00edmos.<\/p>\n<p>Continua Francisco:<\/p>\n<p>Por fim, o\u00a0<strong><em>jejum<\/em><\/strong>\u00a0tira for\u00e7a \u00e0 nossa viol\u00eancia, desarma-nos, constituindo uma importante ocasi\u00e3o de crescimento. Por um lado, permite-nos experimentar o que sentem quantos n\u00e3o possuem sequer o m\u00ednimo necess\u00e1rio, provando dia a dia as mordeduras da fome. Por outro, expressa a condi\u00e7\u00e3o do nosso esp\u00edrito, faminto de bondade e sedento da vida de Deus. O jejum desperta-nos, torna-nos mais atentos a Deus e ao pr\u00f3ximo, reanima a vontade de obedecer a Deus, o \u00fanico que sacia a nossa fome.<\/p>\n<p>O que pode ser <em>o <strong>jejum<\/strong><\/em> para cada um de n\u00f3s? Queremos escolher um estilo de vida simples e frugal em que o p\u00e3o pode ser partilhado em alternativa a uma \u201cprograma\u00e7\u00e3o das nossas mentes\u201d para uma \u201csatisfa\u00e7\u00e3o imediata\u201d. \u201cQuando jejuardes&#8230;\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a> . Se queremos formar os nossos filhos para uma s\u00e3 disciplina na alimenta\u00e7\u00e3o, comecemos por n\u00f3s. Mas n\u00e3o deixemos de usufruir do que comemos e bebemos porque tudo o que \u00e9 bom \u00e9 um dom de Deus. Talvez possamos tamb\u00e9m fazer \u201cjejum\u201d de outras coisas: a maledic\u00eancia, a pequena e a grande inveja, a autocomisera\u00e7\u00e3o, o pessimismo. Podemos talvez esquecer a obsess\u00e3o por f\u00e9rias e \u201cescapadelas\u201d, j\u00e1 que o descanso \u00e9 essencial, mas n\u00e3o pode tornar-se um bem alienante e \u201cconsumidor\u201d das nossas almas. Fa\u00e7amos ao exemplo de Deus que, no \u00faltimo dia da Cria\u00e7\u00e3o, quis descansar para contemplar a Sua obra. Contemplemos, usufruamos, alegremo-nos, demos gra\u00e7as pelo que temos e sejamos generosos para os que n\u00e3o t\u00eam.<\/p>\n<p>O jejum que me agrada n\u00e3o ser\u00e1 antes este: quebrar as cadeias injustas, desatar os la\u00e7os da servid\u00e3o, por em liberdade os oprimidos, destruir todos os jugos? N\u00e3o ser\u00e1 repartir\u2026 dar pousada\u2026levar roupas\u2026\u00a0n\u00e3o voltar as costas ao seu semelhante? (Is 58, 8-10)<\/p>\n<p>Conclui Francisco:<\/p>\n<p>Gostaria que a minha voz ultrapassasse as fronteiras da Igreja Cat\u00f3lica, alcan\u00e7ando a todos v\u00f3s, homens e mulheres de boa vontade, abertos \u00e0 escuta de Deus. Se vos aflige, como a n\u00f3s, a difus\u00e3o da iniquidade no mundo, se vos preocupa o gelo que paralisa os cora\u00e7\u00f5es e a a\u00e7\u00e3o, se vedes esmorecer o sentido da humanidade comum, uni-vos a n\u00f3s para invocar juntos a Deus, jejuar juntos e, juntamente connosco, dar o que puderdes para ajudar os irm\u00e3os!<\/p>\n<p>Interpela\u00e7\u00e3o forte do Papa Francisco a todos n\u00f3s, sem distin\u00e7\u00e3o de credos ou ra\u00e7as e culturas, localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica ou fronteiras, escolhas e modos de vida&#8230; quer afirmemos Deus quer n\u00e3o O afirmemos. Francisco convida-nos tamb\u00e9m \u00e0 toler\u00e2ncia em contraponto \u00e0 inflexibilidade, \u00e0 transcend\u00eancia em contraponto ao imediato, n\u00e3o deixando que a falta de miseric\u00f3rdia congele os nossos cora\u00e7\u00f5es. Cristo convida-nos a ir para al\u00e9m da Lei e a instalarmos o Reino do Amor. Cultivemos ent\u00e3o a virtude da toler\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>\n<h3><strong><em>Por isso caminho, caminho, porque h\u00e1 um intervalo entre tudo e eu<\/em><\/strong><\/h3>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p>Maria de Lourdes Pintasilgo afirma: \u201cAssim se conjuga esta interioridade e presen\u00e7a ao mundo (&#8230;). \u00c9 uma constante interpenetra\u00e7\u00e3o da fome e da sede por um mundo diferente e por si mesmo diferente\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a> . Agir com e em consci\u00eancia. Criticar e denunciar o que n\u00e3o est\u00e1 bem. Manifestar-me n\u00e3o tendo medo do exerc\u00edcio da cidadania. Mas, simultaneamente, refletir no meu cora\u00e7\u00e3o e deixar que se instale n\u00e3o o gelo, mas a fome e sede de Deus.<\/p>\n<p>O caminho do \u201cpovo de Deus\u201d est\u00e1 cheio de pontos de rutura, de interce\u00e7\u00f5es e viol\u00eancia, de infidelidades e recuos na F\u00e9 em Deus. Assim o Antigo Testamento no-lo conta. Assim a palavra do Evangelho o denuncia. Experimentamos esta dicotomia vezes sem fim, porque somos homens e mulheres pecadores que precisam, dia ap\u00f3s dia, de limpar a alma aquecendo o seu cora\u00e7\u00e3o de pedra. Por isso, precisamos da Quaresma: para prepararmos o nosso cora\u00e7\u00e3o para receber o Cristo Ressuscitado que \u201cfaz novas todas as coisas\u201d. Para isso precisamos de praticar a ora\u00e7\u00e3o, o jejum, a esmola.<\/p>\n<p>Temos um dever para com o futuro. Que a f\u00e9 no futuro nos mantenha os olhos abertos. O tempo da Quaresma diz-nos que n\u00e3o h\u00e1 convers\u00e3o exterior sem uma convers\u00e3o interior. Somos \u201cindigentes\u201d, somos pecadores: fa\u00e7amos o caminho para\/por dentro de n\u00f3s mesmos. Sophia de Mello Breyner afirma na linguagem inigual\u00e1vel da poesia: \u201co meu interior \u00e9 uma aten\u00e7\u00e3o virada para fora\u201d; \u201cde tudo quanto vejo me acrescento\u201d&#8230; Queremos viver um Amor oblativo que n\u00e3o se circunscreva ao nosso c\u00edrculo imediato mas se v\u00e1 alargando e acrescentando em c\u00edrculos cada vez mais amplos at\u00e9 tornarmos a nossa vida um imenso oceano habitado por Deus!<\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<h3><strong><em>&#8230; E nesse intervalo, caminho e descubro o meu caminho.<\/em><\/strong><\/h3>\n<p>Rezemos pelo Papa tal como ele nos pede no final da sua Mensagem. Que Deus livre de todo o mal o seu cora\u00e7\u00e3o generoso, prof\u00e9tico e aberto. Que o Senhor o proteja. Com ele comprometemo-nos a tomar em m\u00e3os o \u201cardor evang\u00e9lico\u201d, tal como S. Paulo fez: \u201cAi de v\u00f3s se n\u00e3o evangelizardes!\u201d Mas tenhamos consci\u00eancia de que n\u00e3o podemos \u201cevangelizar outros\u201d se n\u00e3o nos despirmos das nossas distor\u00e7\u00f5es interiores, dos nossos fundamentalismos, da dicotomia \u201cn\u00f3s\/eles\u201d. Analisemos de onde isso nos vem.<\/p>\n<p>Assim, porque n\u00e3o come\u00e7ar por nos \u201cevangelizarmos a n\u00f3s pr\u00f3prios\/as\u201d, a exemplo dos quarenta dias que Jesus viveu no deserto? Estamos preparados para ser tentados e resistir como Jesus fez, a rezar suor, l\u00e1grimas e sangue no jardim das oliveiras? Podemos viver em n\u00f3s a Paix\u00e3o de Jesus Cristo, caminhando a Quaresma? Fa\u00e7amos um exame de consci\u00eancia\u2026 e abramo-nos ao Sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Afirma Santo Agostinho<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>:<\/p>\n<p>Vamos ver quem bebe da torrente no caminho. E em primeiro lugar o que significa esta torrente? \u00c9 a imagem da vida humana que corre. Assim como a torrente se forma das \u00e1guas e da chuva abundante, e inunda, faz barulho, corre e correndo desliza at\u00e9 completar o seu curso, assim acontece com esta torrente de tudo o que \u00e9 mortal (&#8230;). Nascimento e morte, eis a torrente. (&#8230;) E porque ele bebeu da \u00e1gua da torrente \u201cergueu a sua fronte\u201d.<\/p>\n<p>Irm\u00e3s e irm\u00e3os crist\u00e3os e n\u00e3o crist\u00e3os, vamos erguer as nossas frontes em alegria e j\u00fabilo: tomemos o Amor como caminho para as nossas vidas, porque o Amor \u00e9 tamb\u00e9m o caminho que nos oferece o Evangelho de Jesus. Rezemos ao Deus de Jacob que, nas palavras do salmo 113, \u201ctransformou o rochedo em lago e a pedra em fonte de \u00e1gua\u201d. Assumamos a nossa \u201ccondi\u00e7\u00e3o an\u00edmica de caminhante\u201d (Edith Stein). Aproximemos o ouvido do cora\u00e7\u00e3o, pois dele \u201cbrotam as fontes da vida\u201d<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a> e aprontemo-nos a acolher o \u201cfogo\u201d de Deus, o fogo da P\u00e1scoa de Cristo Ressuscitado!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Lisboa, 21 de fevereiro de 2018<\/em><\/p>\n<p><em>Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Mt 24,12.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Veja-se informa\u00e7\u00e3o sobre uma nova rede: <em>http:\/\/casacomum.pt.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> 1Rs 11, 4<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> <a href=\"http:\/\/www.oxfam.org\/en\/research\/reward-work-not-wealth\"><em>www.oxfam.org\/en\/research\/reward-work-not-wealth<\/em><\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Manuela Silva. <em>\u00c9 no presente que se gerundia o futuro.<\/em> Confer\u00eancia <em>Desamorda\u00e7ar o Futuro, <\/em>na Funda\u00e7\u00e3o Cupertino de Miranda, Porto, novembro de 2017.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Mc 13,3-8; Lc 21,7-11.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Mc 13,21-23; Lc 17,23-24.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Mc 13,28-32; Lc 21,29-33.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Mt 25,13.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Mt 6,17: \u201cQuando jejuardes, n\u00e3o vos mostreis com aspecto sombrio como os hip\u00f3critas; pois desfiguram o rosto com a inten\u00e7\u00e3o de mostrar \u00e0s pessoas que est\u00e3o jejuando\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Maria de Lourdes Pintasilgo. <em>Interioridade e Presen\u00e7a ao Mundo, <\/em>1990.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> A prop\u00f3sito do Salmo 109.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Prov\u00e9rbios, 4,23.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reflex\u00e3o Quaresmal da Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e 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