Homilia da Eucaristia pelas vítimas de abusos sexuais, de poder e consciência na Igreja

Fátima, 20-04-2023

Introdução

Hoje, aqui na Cova da Iria, em Fátima, na conclusão de uma Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa, reunimo-nos, os bispos e todos os cristãos que quiseram e puderam, para celebrar a Eucaristia, tendo especialmente presente as pessoas que foram vítimas de abusos sexuais, de poder e consciência na Igreja.

Fazemo-lo em sentido de penitência humilde, de solidariedade e proximidade cristã com aquelas e aqueles que sofreram e sofrem, vítimas de comportamentos completamente iníquos, cruéis e manipuladores, por vezes disfarçados de atenção, afeto e até de motivação religiosa.

Como Igreja que somos assumimos a dor, a perturbação e a revolta dessas pessoas, tanto das que tiveram a coragem dolorosa de reagir e denunciar, como daquelas que se calam, ainda na incapacidade de falar dessa realidade que lhes barrou o caminho de uma vida mais feliz. Assumimos que, em muitas ocasiões, não fomos capazes de tomar consciência e de velar como devíamos, para evitar estes abusos e para lidar com a gravidade das ofensas que foram feitas.

No início desta Eucaristia reconhecemos que estes comportamentos são exatamente o inverso daquilo que somos e que celebramos. Por isso, imploramos o perdão de Deus que pediu aos seus discípulos que fossem misericordiosos e cuidadores, particularmente para com os mais pequenos e frágeis.

Reconhecemos e apresentamos, a cada um e a cada uma daqueles e daquelas que sofreram estes abusos em ambiente eclesial, um profundo, sincero e humilde pedido de perdão, em nome da Igreja na qual eles confiaram e onde sofreram tão injusta e perturbadora violência.

Pedimos perdão e pedimos igualmente a força, a coerência e a determinação de tudo fazer para que as pessoas que sofreram tão injustamente possam ter condições de superar os dramas que lhes foram infligidos, recuperar a estabilidade e a esperança na vida. Por isso, pedimos o perdão de Deus, suplicando igualmente o dom do Seu Espírito criador para que possamos construir e reconstruir, a nível pessoal e como Igreja, um caminho de verdadeira vida, segundo o Coração manso e humilde de Jesus, nosso Senhor e nosso Mestre.

Reconheçamos, pois, todas as nossas culpas e peçamos o perdão de Deus e o dom transformador do Seu Espírito.

Homilia

A Palavra de Deus que acabamos de escutar ajuda-nos a olhar para a vida e para as atitudes que marcam o nosso modo de estar no mundo com o olhar lúcido e misericordioso de Deus revelado em Jesus e, especialmente, para a dolorosa realidade que trazemos para a nossa celebração eucarística a partir daqueles que foram vítimas de abusos no seio da Igreja.

O Evangelho que proclamámos descreve-nos o olhar atento de Jesus que se dirige, antes de mais, aos “pequeninos” como expressão do carinho de Deus para com eles: “Eu te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondestes estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelastes aos pequeninos”. É prioritariamente a estes que se dirige o olhar atento e misericordioso de Jesus.

É essa forma atenta de olhar, para as crianças e para todos os que mais precisam de atenção, de carinho e de apoio que Ele quer ensinar, particularmente aos pais, à família próxima e à “família de Deus” que é a Igreja, de modo especial a quantos são chamados a continuar, pela palavra, atitudes e gestos, a Sua presença libertadora e salvadora. Quem é pequeno precisa desse olhar atento, verdadeiro e carinhoso, como do pão para a boca, para crescer livre e feliz. Quem não sente esse olhar no círculo próximo das suas relações; quem sofre injustiça, fome, miséria, abuso; precisa especialmente desse amor reparador para sarar feridas, para redescobrir o sol da existência verdadeiramente humana e o rosto paterno/materno de Deus.

Este olhar, manifestado e ensinado por Jesus, como base do relacionamento autenticamente humano, faz entender a enormidade destruidora da violência e do abuso das crianças e dos mais débeis, exatamente nos lugares onde era suposto estar patente a atitude contrária que é fonte de vida, de liberdade e confiança.

Faz também entender a absoluta necessidade de se colocar, antes de mais e acima de tudo, ao lado de quem sofre esta devastadora realidade. Não se pode passar ao lado nem encobrir, por comodidade ou conivência. Não se pode pactuar com situações e atitudes que comprometam, deste modo, a vida de pessoas inocentes. A “tolerância zero”, de que fala o Papa Francisco, exprime esse compromisso fundamental para com a vida e a justiça, em favor dos que foram iniquamente delas privados.

É essa atitude que assume Jesus ao proclamar: “Vinde a mim, todos vós que andais cansados e oprimidos e Eu vos aliviarei”. Ele coloca-se ao lado dos que sofrem, escolhe o campo dos oprimidos e abusados, ajuda a carregar a sua dor, desorientação e revolta. A nós, Igreja, ensina que não há piedade sem esse olhar fundamental de justiça, de verdade e de misericórdia. Isso significa acolher, acompanhar, sarar feridas, criar futuro na verdadeira liberdade e na esperança. Esses são os sinais que fazem descobrir o rosto de Deus e o caminho de ressurreição e de vida que Ele nos propõe.

O que Jesus testemunha e ensina acerca do Pai e da Sua própria missão é mais básico e radical do que qualquer interesse dito estratégico, corporativo, estatal, espiritual ou religioso; é algo que está na raiz de tudo isso que é o dom da vida e da dignidade de cada ser humano. Foi para essas pessoas (todos nós) que Ele veio, que deu a vida, que abriu caminho, mesmo no sofrimento e na morte, para revelar e tornar próxima a plenitude da vida de Deus.

Esta atitude não é dirigida contra ninguém. Também aqueles que causaram estes males precisam de ser libertados dessas atitudes que os despersonalizam. Por isso, a busca de clareza e de justiça deve incluir os que praticam o mal, pois a misericórdia de Deus é para todos.

É também muito importante o estilo de fazer tudo isto: Jesus não veio como grande senhor, ao modo dos grandes desta terra. Ele convida-nos a segui-Lo no caminho discreto e de serviço com que o bem tem de ser feito: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração”. É deste modo que Ele mostra o coração materno/paterno de Deus, o coração que propõe como atitude a imitar por aqueles/as que o seguem. Aprenderemos tudo isto se não agirmos como se estivéssemos a erigir um monumento à nossa grandeza ou para fazer boa figura. É essa atitude de humildade (que significa a verdade) que permite colocar os que sofrem como prioridade do nosso agir e não a nós próprios, do nosso grupo ou mesmo do bom-nome da Igreja. Esta é a atitude que nos move.

Hoje, como bispos da Igreja em Portugal, queremos dizer àquelas e aqueles que sofreram estes abusos, antes de mais, uma palavra de reiterado pedido de perdão, com que começámos esta liturgia. Isso significa identificação e reconhecimento do mal que vos foi imposto, de forma injusta e abusiva e no ambiente onde menos deveria ter acontecido. Essa dor é também a nossa e continuará a doer enquanto a vossa não for curada.

Mas é uma dor que nos acorda, nos motiva e nos abre humildemente a ir ao vosso encontro, a escutar o que é incómodo, a reconhecer a dor e a procurar partilhá-la e, na medida do possível, aliviá-la e colaborar, por todos os meios, na libertação daqueles que foram tão dramaticamente afetados.

Gostaríamos que, assim como experimentastes essas injustiças no seio da Igreja, possais fazer a experiência de irmãos e irmãs que querem ajudar a sarar feridas e a abrir caminhos de futuro. Foi com esse intento que empreendemos este caminho que entra agora numa nova fase. Estamos a criar condições para que esse encontro seguro e transformador seja possível. É convosco, e na medida do vosso desejo, que queremos empreender um caminho de reparação e de superação das dificuldades.

Realizamos esta celebração em Fátima, onde Maria, Mãe de Jesus e Mãe e modelo da Igreja, veio revelar-se a três crianças, vítimas da pobreza, da falta de escola e de múltiplas privações. O olhar carinhoso da “Senhora vestida de luz” deu força e coragem a estas crianças e forjou nelas um coração firme e decidido para enfrentar as dificuldades, para resistir ao medo da guerra e de uma horrível pandemia que vitimou duas delas, para afirmar a sua experiência perante os que duvidavam da sua autenticidade, para passar através do sofrimento e até da morte. Maria, enviada de Deus a três crianças, mostra um caminho para a Igreja, para todos nós: A nossa Igreja não pode voltar atrás neste caminho; é mesmo preciso estar ao lado dos mais pequenos, dos mais esquecidos, em hospital de campanha, como fala o Papa Francisco.

Há caminho para além da dor, da justa revolta e da injustiça. Convosco, com o vosso testemunho, com a vossa inconformidade e tenacidade de vida, esperamos também ser Igreja renovada e inconformada com qualquer tipo de mal. Que Maria, Mãe de Jesus e Mãe da Igreja, nos ensine a arte materna do bem cuidar, compreender, consolar e amparar; a arte e a vontade de construir um mundo mais justo, sempre renovado pelo Espírito de Deus.

D. José Ornelas Carvalho,
Bispo de Leiria- Fátima e Presidente da CEP

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